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Inflação prévia desacelera e surpreende mercado em pleno abril

Publicado em
28/4/2026
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Inflação prévia desacelera e surpreende mercado em pleno abril
Inflação prévia desacelera e surpreende mercado em pleno abril
Inflação prévia desacelera e surpreende mercado em pleno abril

O IPCA-15 de abril, considerado a prévia oficial da inflação no Brasil, subiu 0,89% e veio abaixo do que o mercado esperava. A mediana das projeções coletadas pela Reuters apontava para alta de 0,95%, e o número divulgado nesta terça-feira (28) pelo IBGE acendeu o sinal verde pra quem aposta em corte da Selic mais cedo do que o Banco Central tinha sinalizado.

A reação foi imediata na abertura. O Ibovespa arrancou em alta de cerca de 0,8%, o dólar recuou pra perto de R$ 5,28, e os juros futuros desabaram. O DI para janeiro de 2027 cedeu mais de 15 pontos-base nos primeiros minutos de pregão, sinal claro de que a curva já está embutindo um Copom mais flexível na reunião de maio.

O que o IPCA-15 de abril mostrou

O dado de 0,89% acumula 3,42% no ano e 4,28% em 12 meses, ainda acima do teto da meta (4,5% com tolerância), mas com tendência de desaceleração nos núcleos. O grupo Alimentação e Bebidas foi o vilão principal, com alta de 1,32%, puxado pelo café (que voltou a subir forte), tomate e carne bovina. Sozinho, o grupo respondeu por mais de um terço do índice cheio.

Mas o que animou o mercado não foi a manchete. Foi o que veio embaixo. Serviços subjacentes, métrica que o Banco Central acompanha de perto pra calibrar a Selic, desacelerou na margem. Bens industriais ficaram praticamente estáveis, e habitação avançou só 0,21%. A leitura do IPCA mostrou inflação concentrada em itens voláteis, justamente os que o BC tende a "olhar através" na hora de decidir o juro.

Por que o mercado comprou a tese de corte

A Selic está em 14,75% desde fevereiro, e o Copom havia sinalizado cautela diante da resiliência da atividade e do câmbio pressionado. A leitura desta terça mexeu com essa narrativa. Com núcleos rodando mais perto da meta e o hiato do produto voltando ao terreno negativo, o argumento pra manter o juro tão alto perde força.

Operadores ouvidos pela mesa de renda fixa relatam que o consenso, que há uma semana ainda era de manutenção em maio, virou pra corte de 0,25 ponto percentual logo na próxima reunião. Alguns gestores mais agressivos já falam em 0,50. O monitoramento do IPCA ganhou peso nesse debate porque a próxima leitura, do índice cheio em maio, pode confirmar ou desmentir a desaceleração.

O que aconteceu com a curva de juros

O DI jan/27 saiu de 13,18% pra perto de 13,02% nos primeiros 30 minutos de pregão. O DI jan/29 caiu para a casa de 12,80%, refletindo expectativa de que o ciclo de cortes seja mais longo do que o BC vinha sinalizando. A inclinação da curva, que estava negativa, começou a se ajustar.

Pra quem tem posição em Tesouro IPCA+, o movimento é positivo no curto prazo. Quando os juros nominais caem mais rápido que as expectativas de inflação, o juro real recua e os preços dos títulos sobem. A marcação a mercado do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035, por exemplo, deve refletir essa queda nos próximos pregões.

Onde está o risco da leitura otimista

Antes de comemorar, vale o porém. O grupo Alimentação está pressionado por choques climáticos e pelo ciclo do café, que tem componente externo forte e não responde a juros. Se o tomate, a carne e o café continuarem subindo nos próximos meses, o IPCA cheio pode surpreender pra cima mesmo com núcleos comportados.

O outro risco é o câmbio. O dólar caiu nesta abertura, mas o real ainda é uma das moedas mais voláteis entre os emergentes. Qualquer susto fiscal, escalada de juros nos EUA ou ruído eleitoral pode mandar a moeda americana de volta pra cima de R$ 5,40, e aí o repasse pra preços volta com força. O Banco Central não vai cortar Selic correndo se o câmbio voltar a desancorar.

Como o investidor está se posicionando

Na comunidade da Traders, os comentários da mesa giraram em torno de três frentes. Primeiro, alocação maior em prefixados, que se beneficiam diretamente de queda de juros. Segundo, manutenção da exposição ao Tesouro IPCA+ de prazos longos, justamente pra capturar a queda do juro real. Terceiro, atenção redobrada com o setor de varejo e construção, que tende a respirar quando o ciclo de cortes se consolida.

Vale também a comparação histórica. Em ciclos anteriores de afrouxamento, o Ibovespa costuma antecipar os cortes em alguns meses. O índice já vinha acumulando alta no ano, e a leitura de hoje reforçou esse movimento. Quem segue a discussão entre previdência privada e Tesouro IPCA+ ganha mais um elemento pra calibrar prazo e indexador da carteira de longo prazo.

O que esperar nas próximas semanas

O calendário ficou cheio. Em 9 de maio, sai o IPCA cheio de abril, que vai confirmar ou desmentir a tese de desaceleração. Em 7 de maio, o Copom decide a Selic, e a ata sai uma semana depois. No meio disso, ainda tem decisão do Fed e payroll americano, eventos que costumam mexer com o real e, por tabela, com a inflação importada.

A leitura de hoje não fecha o caso, mas mudou o tom. O mercado saiu da abertura com a sensação de que o pior do ciclo de juros altos pode estar realmente ficando pra trás. Se a próxima rodada de dados confirmar, a discussão vai migrar de "quando começa o corte" pra "quão longo e profundo será o ciclo de afrouxamento". E aí o jogo, na renda fixa e na bolsa, muda de patamar.


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