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Assaí (ASAI3) tem queda de 47% no lucro no 1T26, a R$ 86 milhões

Publicado em
28/4/2026
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Assaí (ASAI3) tem queda de 47% no lucro no 1T26, a R$ 86 milhões. Veja o que muda pro investidor. Análise completa no blog da Traders.
Assaí (ASAI3) tem queda de 47% no lucro no 1T26, a R$ 86 milhões
Assaí (ASAI3) tem queda de 47% no lucro no 1T26, a R$ 86 milhões

O Assaí (ASAI3) abriu a temporada de balanços do varejo com um número que tirou o brilho do trimestre. A rede de atacarejo reportou lucro líquido de R$ 86 milhões no 1T26, uma queda de 46,7% em relação aos R$ 162 milhões registrados no mesmo período de 2025. A receita líquida ficou praticamente estável em R$ 18,64 bilhões, mas o resultado operacional veio bem abaixo do que a Faria Lima esperava, e a companhia já anunciou freio no plano de expansão para o ano.

O EBITDA ajustado somou R$ 1,025 bilhão, basicamente igual ao do 1T25. O problema é que o consenso dos analistas projetava algo na casa dos R$ 1,39 bilhão. Ou seja, a entrega ficou cerca de 26% abaixo do esperado, segundo dados de mercado. Para uma ação que já vinha pressionada na bolsa, é o tipo de resultado que costuma azedar o humor dos investidores.

O que segurou o lucro do Assaí no 1T26

O CEO da companhia descreveu o trimestre como atípico. E os números justificam o adjetivo. O Assaí enfrentou algo raro no varejo alimentar brasileiro: uma deflação simultânea de seis itens essenciais da cesta básica. Arroz, feijão, açúcar, óleo, farinha de trigo e leite tiveram queda média de 12% nos preços ao consumidor no período. Em alguns casos, como o do arroz, a deflação chegou a ser muito mais forte na comparação anual.

Para uma rede de atacarejo, isso é veneno em dose dupla. Primeiro, porque essas categorias respondem por uma fatia relevante do tíquete médio. Segundo, porque a margem desses produtos é tradicionalmente mais alta no atacarejo do que no supermercado. Quando o preço cai, o mix se deteriora e a margem bruta sente.

Some a isso o chamado "efeito K". É o termo que vem sendo usado pra descrever a divergência no consumo brasileiro: classes A e B mantendo poder de compra, enquanto as classes C, D e E sentem mais o aperto fiscal e o juro alto. Como o Assaí tem público majoritariamente de baixa e média renda, sobra pouco espaço pra crescer ticket sem perder volume.

Lucro recorrente versus lucro reportado: a leitura completa

Aqui vale uma distinção que costuma confundir o investidor iniciante. O lucro líquido contábil veio em R$ 86 milhões, mas o lucro recorrente foi de R$ 174 milhões, alta de 7% na comparação anual. A diferença está em efeitos não recorrentes que pesaram no resultado contábil, principalmente questões tributárias.

Pra entender por que isso importa pro valuation, vale dar uma olhada em como o Lucro por Ação (LPA): o que é e como funciona e qual a relação dele com o múltiplo P/L (Preço/Lucro): o que é e como funciona. Quando o lucro reportado tem efeitos não recorrentes pesados, o P/L pode parecer mais esticado do que de fato é. Por isso o mercado costuma olhar primeiro pro EBITDA e pro lucro recorrente em casos assim.

O ponto é que, mesmo expurgando os efeitos atípicos, a operação do Assaí no 1T26 não cresceu em ritmo capaz de empolgar. O EBITDA estável em ano de inflação positiva no IPCA significa, na prática, perda de poder de geração de caixa em termos reais.

Vendas em mesmas lojas e a expansão freada

Outro indicador que o mercado acompanha de perto no setor é o SSS (Same Store Sales), ou seja, a evolução das vendas considerando apenas as lojas que já estavam em operação no mesmo período do ano anterior. Esse número mede crescimento orgânico, sem o efeito das aberturas. No 1T26, o crescimento de SSS do Assaí ficou praticamente nulo, justamente por conta da deflação dos itens essenciais e da pressão sobre o consumo das classes mais sensíveis.

A resposta da gestão veio rápida. O Assaí cortou pela metade o plano de abertura de lojas em 2026. A meta inicial era de 20 inaugurações no ano. Agora, a companhia trabalha com 10. A justificativa é priorizar a desalavancagem financeira e a maturação das lojas já abertas, num momento em que o juro segue alto e o custo de capital aperta o setor inteiro.

Faz sentido do ponto de vista financeiro. Atacarejo é um negócio capex intensivo. Cada loja nova exige investimento pesado e leva entre 24 e 36 meses pra atingir maturação operacional. Com o Brasil ainda convivendo com Selic em patamar elevado, segurar caixa é mais barato que tomar dívida.

Reação do mercado e o cenário para a ação

A ASAI3 já vinha sendo um dos papéis mais sofridos do O que é o Ibovespa e como funciona, com forte desempenho negativo nos últimos doze meses. A frustração com o EBITDA tende a manter a tese de investimento sob pressão no curto prazo. Casas como XP já vinham sinalizando trimestre fraco e SSS sem crescimento, e o número confirmou esse diagnóstico.

O mercado agora foca em três pontos:

1. Quando os preços dos essenciais voltam a normalizar? Deflação severa em itens da cesta básica costuma ser fenômeno cíclico. Boa parte dos analistas avalia que o pior já ficou pra trás, com expectativa de retomada gradual de preços a partir do 2T26. Se isso se confirmar, o Assaí deveria ver melhora gradual de margem nos próximos trimestres.

2. A trajetória da Selic ajuda? Como o Assaí carrega dívida líquida relevante, qualquer corte mais firme de juros alivia despesa financeira. O ciclo monetário do Banco Central no segundo semestre será catalisador chave.

3. A desalavancagem segue no plano? A companhia encerrou 2025 com alavancagem em 2,56x dívida líquida sobre EBITDA, abaixo da meta de 2,60x. Manter essa trajetória, mesmo com EBITDA estável, é sinal de disciplina financeira que o mercado costuma valorizar.

Contexto setorial: o atacarejo brasileiro pressionado

O Assaí não está sozinho no aperto. O setor de atacarejo como um todo vive um momento de readequação. Depois de uma década de expansão acelerada, com Carrefour Atacadão liderando o movimento e Assaí seguindo logo atrás, o modelo começa a mostrar sinais de saturação em algumas praças. A briga por participação de mercado se intensificou e, somada à deflação dos essenciais e ao consumo da base da pirâmide pressionado, transformou o trimestre num teste de resiliência.

Companhias como o próprio Carrefour Brasil (CRFB3) e o Grupo Mateus (GMAT3) também devem reportar números ajudando a calibrar o quanto da fraqueza é sistêmica e o quanto é específica do Assaí. Por enquanto, o sinal preliminar é que o cenário macro pesou pra todo mundo, mas o Assaí parece ter sentido mais por conta da concentração no público de menor renda.

O que olhar daqui pra frente

O guidance revisado das aberturas é uma mensagem clara da gestão: 2026 será ano de eficiência operacional, não de crescimento agressivo. Os próximos catalisadores pra ASAI3 são, basicamente, a divulgação dos resultados do 2T26, esperada pra início de agosto, e o comportamento dos preços de alimentos da cesta básica nos próximos meses.

O fluxo de caixa operacional, mesmo com lucro contábil pressionado, segue saudável. A questão é se o mercado vai dar tempo pra a tese de eficiência maturar ou se vai continuar penalizando o papel até ver crescimento de SSS voltar pra terreno positivo. Historicamente, ações de varejo demoram a se recuperar de trimestres como esse, mas costumam reagir forte quando o ciclo vira. O ponto de virada, pelo balanço de hoje, ainda não chegou.


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