
O Assaí (ASAI3) divulgou o balanço do 1T26 e, no primeiro olhar, o número que salta aos olhos é a queda de 47% no lucro líquido contábil, que veio em R$ 86 milhões. Mas, antes de você fechar a aba e sair correndo, vale entender o que tá por trás dessa contabilidade. A história real do trimestre é outra, e ela começa numa palavra que tem virado obsessão dos analistas que cobrem o varejo: créditos tributários.
A rede atacarejo controlada anteriormente pelo Casino e hoje listada como uma das maiores varejistas do Brasil reportou receita líquida praticamente estável, em R$ 18,64 bilhões, e EBITDA ajustado de R$ 1,025 bilhão, também sem grande variação ante o 1T25. O grande ruído ficou na linha do lucro, comprimida por um trimestre cheio de ventos contrários no consumo. E a notícia boa apareceu numa nota de rodapé que pode valer bilhões: o estoque de créditos de PIS/Cofins sobre bebidas frias, que a companhia agora pretende monetizar.
O lucro líquido de R$ 86 milhões representa queda de aproximadamente 47% em relação ao mesmo período de 2025, quando o Assaí havia entregado R$ 162 milhões e crescido 74% YoY. Na comparação com o 4T25, sazonalmente mais forte por causa das festas de fim de ano, a base de comparação fica injusta, então o foco do mercado mesmo é o YoY.
Com cerca de 1,35 bilhão de ações em circulação, o lucro por ação do trimestre ficou em torno de R$ 0,06. Se você quer entender melhor como esse cálculo funciona e por que ele é tão importante na precificação de uma ação, vale dar uma olhada em Lucro por Ação (LPA): o que é e como funciona.
O ponto que muda o jogo: a empresa informou que, se considerasse os créditos tributários de PIS/Cofins reconhecidos no período, o lucro líquido ajustado teria sido de R$ 367 milhões. Esse número, sim, é o que sustenta a manchete original do Valor sobre crescimento de 173,5% na base ajustada. Já o lucro recorrente, que limpa itens não recorrentes, avançou cerca de 7% YoY. Ou seja, na operação pura, o Assaí continuou crescendo, ainda que num ritmo bem mais comportado do que em 2025.
A receita líquida praticamente plana em R$ 18,64 bilhões mostra um trimestre de digestão, não de retração. O que segurou o crescimento no top line foi uma combinação que pegou o atacarejo inteiro de surpresa: a deflação simultânea de itens essenciais como arroz, feijão, açúcar, óleo, farinha de trigo e leite, que tiveram queda média de 12% nos preços ao consumidor.
Pra um modelo de negócio como o do Assaí, que vive de volume e ticket médio em produtos básicos, a deflação de essenciais funciona como uma tesoura. O cliente leva a mesma quantidade de itens, mas paga menos. O resultado é receita pressionada, mesmo com tráfego saudável nas lojas. A boa notícia é que, na contramão dessa pressão de cima, a margem EBITDA se manteve estável em torno de 5,5%, o que mostra que a disciplina operacional segurou as pontas.
O Assaí também ajustou seu plano de aberturas. A companhia incorporou no novo guidance um ritmo mais comedido de novas lojas pra 2026, prática comum no setor quando a margem fica apertada e o custo de capital ainda não cedeu o suficiente. Em vez de empurrar a expansão a qualquer custo, a gestão tá optando por maximizar o retorno das lojas existentes, especialmente das que ainda estão em fase de maturação.
A mudança estrutural do trimestre tá num assunto técnico que pode parecer chato, mas mexe direto com a tese de investimento de ASAI3. O Assaí identificou um estoque significativo de créditos de PIS/Cofins sobre bebidas frias, categoria que inclui refrigerantes, cervejas, águas e sucos industrializados.
A lógica é a seguinte: por anos, a varejista pagou impostos sobre a venda dessas bebidas que, conforme decisões judiciais e administrativas recentes, não eram totalmente devidos da forma como foram recolhidos. A companhia agora tem o direito de reconhecer esse crédito acumulado e usá-lo pra abater impostos futuros ou pedir restituição.
Estimativas internas do Assaí apontam pra um estoque de até R$ 1,5 bilhão em créditos que podem virar caixa nos próximos anos. Isso é dinheiro que, na prática, vai aparecer como redução de despesa tributária ao longo de vários trimestres, inflando o lucro contábil sem que a operação mude. Pra dar dimensão: o Bloomberg Línea cita projeções de analistas de que o impacto cumulativo pode chegar a R$ 1,9 bilhão considerando efeitos correlatos.
A repercussão entre as casas de análise foi rápida. A XP Investimentos revisou as estimativas de lucro do Assaí pra cima em 56% em 2026 e 38% em 2027, justamente pra incorporar a monetização gradual desses créditos. É uma revisão pesada e mostra como o tema mudou o desenho do modelo de fluxo de caixa descontado das corretoras.
Na prática, isso comprime o múltiplo P/L (Preço/Lucro): o que é e como funciona da ação sem que o preço precise subir. Uma empresa que parecia cara num determinado patamar de lucro pode parecer barata quando o mercado começa a precificar o lucro ajustado pelo crédito. Foi essa releitura que ajudou ASAI3 a se descolar do humor azedo do varejo no curto prazo.
É importante lembrar que ações de varejo, ao contrário de produtos de renda fixa cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos): o que é e como funciona, não têm qualquer proteção em caso de prejuízo. A tese aqui depende inteiramente da capacidade da companhia de gerar caixa, executar a expansão e, agora, monetizar os créditos no prazo prometido.
Nem tudo são flores. O JP Morgan alertou em relatório recente que a Receita Federal mira cerca de 3 mil empresas em uma operação sobre créditos de PIS/Cofins que pode movimentar até R$ 10 bilhões em valores em disputa. Assaí (ASAI3) e Grupo Mateus (GMAT3) aparecem entre as varejistas que devem sentir o impacto dessa fiscalização.
Isso não significa que os créditos vão ser invalidados. Significa que existe um risco regulatório e judicial sobre o tempo de monetização e, no pior cenário, sobre uma eventual contestação da Fazenda. É um ponto que entrou no radar dos investidores e que precisa ser acompanhado com lupa nos próximos releases.
O calendário do Assaí tem alguns catalisadores claros pela frente:
O 2T26, normalmente impulsionado por eventos como Páscoa (que neste ano caiu no início de abril) e Dia das Mães, deve mostrar se a deflação dos básicos persiste ou começa a se normalizar. Caso a inflação volte aos itens da cesta, o efeito é imediato no top line e no SSS (vendas mesmas lojas).
O ritmo de monetização dos créditos PIS/Cofins será o tema central das teleconferências dos próximos balanços. Analistas vão querer detalhamento sobre cronograma, valor reconhecido por trimestre e impacto efetivo no caixa, já que crédito reconhecido contabilmente é diferente de crédito convertido em dinheiro.
O desfecho da operação da Receita Federal também vai pesar. Se a fiscalização avançar sem questionar os créditos do Assaí, a tese ganha força. Se houver autuação, mesmo que contestável, o mercado tende a aplicar um desconto de risco até que se resolva.
Por fim, vale lembrar que o atacarejo é um modelo defensivo dentro do varejo. Quando o consumidor aperta o cinto, ele migra de supermercado tradicional pra atacarejo. O cenário macro de juros ainda altos, com a Selic acima de dois dígitos, tende a beneficiar formatos como Assaí, Atacadão e Mateus no médio prazo. A questão é o quanto desse efeito já tá no preço da ação.
O 1T26 do Assaí é um trimestre de duas leituras. Pela contabilidade pura, foi um período fraco, com lucro líquido em queda de 47% e receita estagnada num cenário de deflação dos básicos. Pelo recorrente e pelo ajustado por créditos, a operação seguiu saudável e a empresa abriu uma frente de geração de valor que pode rodar pelos próximos anos.
Pra quem acompanha ASAI3, o foco a partir de agora se desloca da margem trimestral pra duas variáveis: velocidade de monetização dos créditos e evolução do consumo nos próximos meses. Os analistas já fizeram a sua parte ao revisar as projeções pra cima. Cabe agora à companhia entregar o que foi prometido, trimestre a trimestre, na frente de cada investidor que aperta F5 no release.
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