
A JBS entregou uma receita recorde de US$ 86,2 bilhões em 2025, alta de 12% contra o ano anterior. Mas o número bonito esconde uma ferida aberta: a divisão de carne bovina nos Estados Unidos fechou o ano com EBITDA negativo de US$ 319 milhões, arrastada pelo pior momento do ciclo pecuário americano em décadas. Mesmo assim, o BDR JBSS32 subiu 5,65% na sessão de ontem, e o mercado parece ter gostado mais do que o balanço mostrou de bom do que se assustado com o que mostrou de ruim.
No quarto trimestre de 2025, a companhia registrou lucro líquido de US$ 415 milhões, praticamente estável na comparação anual. A receita trimestral bateu US$ 23,06 bilhões, um salto de 15%. No acumulado do ano, o lucro avançou 15% e chegou a US$ 2 bilhões. O EBITDA ajustado anual foi de US$ 6,8 bilhões, com margem de 7,9%.
A resposta curta: diversificação. A JBS não é só gado americano. É frango no Brasil, frango nos EUA, suínos, alimentos processados, operação na Austrália. Quando uma perna do negócio manca, as outras seguram.
E foi exatamente isso que aconteceu no 4T25. Enquanto a JBS USA Beef sofria com o preço do gado vivo lá em cima (reflexo direto da menor oferta de animais nos EUA, algo que o mercado projeta que só melhora em 2027), as outras divisões compensaram com folga.
A Seara, braço de frango e alimentos processados no Brasil, fechou 2025 com margem EBITDA de 16,9%, impulsionada pelo maior volume de exportação da história da companhia. A Pilgrim's Pride, operação de frango nos EUA, veio com margem de 15,2%, apoiada pela demanda forte no mercado americano e pela expansão de produtos de marca. A JBS Austrália marcou 11,3% de margem, e a JBS Brasil (bovinos) entregou 6,2%.
Na prática, a JBS provou que seu modelo de operar em múltiplas proteínas e múltiplas geografias funciona como um colchão. Quando o ciclo do gado nos EUA aperta, o frango no Brasil e nos EUA entrega. E vice-versa.
Esse é o ponto que mais interessa pra quem tá olhando o papel pensando em médio e longo prazo. O ciclo pecuário nos EUA é o principal detrator de margem da JBS hoje. Com a oferta de gado restrita, o custo da matéria-prima disparou, e a margem do processador foi pro negativo.
O próprio CEO da JBS já sinalizou que a expectativa é de melhora significativa só a partir de 2027, quando o rebanho americano deve começar a se recompor. Até lá, a divisão segue como um peso nos números consolidados.
Mas é justamente aí que entra o argumento dos analistas. O BTG Pactual, por exemplo, mantém a JBS como sua preferida no setor de proteínas, com recomendação de compra. A leitura é que o mercado já precifica boa parte da pressão no gado, e que a recuperação do ciclo bovino pode ser o gatilho pra uma reavaliação relevante do papel.
Na comunidade da Traders, muitos traders estão debatendo se esse é o momento de acumular posição, justamente porque o cenário mais difícil (gado caro nos EUA) já tá nos números. A tese é: quando o ciclo virar, a alavancagem operacional joga a favor.
Outro ponto que chamou atenção do mercado: o Conselho de Administração aprovou o pagamento de US$ 1 por ação em dividendos, com data de pagamento prevista para 17 de junho de 2026. Pra ter direito, o investidor precisa estar posicionado até 18 de maio.
Considerando a cotação atual, isso representa um dividend yield de aproximadamente 6,3%. É um yield relevante pra uma empresa do setor de alimentos, e reforça a tese de que a JBS tá gerando caixa suficiente pra remunerar o acionista mesmo em ciclo adverso no gado.
O retorno sobre o patrimônio (ROE) fechou 2025 em 25%, e o retorno sobre capital investido (ROIC) ficou em 17%. São números que mostram eficiência na alocação de capital, mesmo com a divisão de bovinos nos EUA sangrando.
Pra quem quer entender melhor como analisar esses indicadores de rentabilidade, vale conferir o conceito de Lucro por Ação (LPA) e como ele se conecta com a avaliação de resultados trimestrais.
Desde que a JBS migrou sua listagem primária pra a NYSE, em junho de 2025, o papel é negociado na B3 via BDR sob o código JBSS32. Na sessão de ontem, o BDR fechou em torno de R$ 81,80, uma alta de 5,65% que refletiu a leitura positiva do mercado sobre o balanço.
Oito analistas cobrem o papel com recomendação de compra, e o preço-alvo médio de 12 meses é de R$ 109,89, o que representa um potencial de valorização de cerca de 34% em relação à cotação atual.
A amplitude de 52 semanas do BDR vai de R$ 67,02 a R$ 90,39. Ou seja, o papel tá mais perto do topo do que do fundo, mas ainda distante do preço-alvo dos analistas. É o tipo de situação que costuma gerar debate entre quem vê espaço pra mais alta e quem acha que o risco do gado nos EUA justifica cautela.
Além do gado caro, a JBS enfrenta outra pressão de custo pra 2026: o milho em alta. O grão é insumo fundamental pra ração de frangos e suínos, e qualquer aumento no preço do milho comprime a margem das divisões de frango (Seara e Pilgrim's). Por outro lado, a companhia vê um cenário mais favorável pro farelo de soja, o que pode compensar parcialmente.
Esse equilíbrio entre custos e receitas é o que faz o acompanhamento de empresas do setor de proteínas ser tão dinâmico. Cada commodity (gado, milho, soja, frango) se move de forma diferente, e a habilidade de navegar esses ciclos é o que separa uma empresa diversificada de uma aposta concentrada.
A JBS é a maior empresa de proteína animal do mundo e a segunda maior de alimentos, com operação nos seis continentes. Quando você olha pro balanço patrimonial da companhia, o que salta aos olhos é a escala: meio trilhão de reais em receita anual é um patamar que nenhum concorrente direto alcança.
Essa escala tem vantagens concretas. A companhia consegue diluir custos fixos, negociar melhor com fornecedores e acessar mercados que empresas menores não conseguem. Ao mesmo tempo, o tamanho traz complexidade operacional e exposição a múltiplos riscos regulatórios e cambiais.
Pra investidores que acompanham o setor, a diferença entre ações ordinárias e ações preferenciais é relevante, especialmente no caso de empresas que pagam dividendos relevantes como a JBS.
Os próximos trimestres vão ser decisivos pra validar ou invalidar a tese de quem tá comprado em JBS. Os pontos de atenção são claros.
Primeiro, o ciclo do gado nos EUA. Se a oferta de animais começar a se recompor antes de 2027, a margem da JBS USA Beef pode sair do vermelho mais cedo do que o esperado, e isso seria um catalisador forte pro papel.
Segundo, o custo do milho. Se o grão continuar subindo, a margem da Seara e da Pilgrim's pode ser afetada, tirando parte do colchão que salvou o balanço de 2025.
Terceiro, a execução da estratégia de marcas. A Pilgrim's tem investido em produtos de maior valor agregado, e o sucesso dessa frente pode sustentar margens mesmo em cenários de custo mais alto.
Por fim, o câmbio. Como a JBS reporta em dólar mas tem operações relevantes no Brasil, a variação do real contra o dólar impacta diretamente a conversão dos resultados brasileiros pro consolidado.
O balanço do 4T25 mostrou que a JBS sabe navegar ciclos adversos. Mas navegar não é o mesmo que estar imune. O investidor que acompanha o papel precisa monitorar cada uma dessas variáveis pra entender se o preço atual reflete adequadamente os riscos e as oportunidades que estão na mesa.
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