
A JBS (JBSS3) fechou 2025 com receita líquida recorde de US$ 86,2 bilhões, alta de 12% em relação ao ano anterior, e lucro líquido de US$ 2 bilhões, avanço de 15%. Os números vieram acompanhados de um dividendo gordo de US$ 1 por ação. Mas nem tudo é festa: a operação de carne bovina nos Estados Unidos segue no vermelho, com margem EBITDA negativa de 1,1%, e analistas como Citi, Genial e Itaú BBA, apesar de manterem recomendação de compra, deixam claro que as ressalvas sobre margens são reais.
No quarto trimestre de 2025, a JBS reportou lucro líquido de US$ 415 milhões, praticamente estável na comparação com o mesmo período de 2024 (variação de apenas 0,48%). A receita líquida trimestral bateu recorde de US$ 23,06 bilhões, crescimento de 15,5% na base anual.
O EBITDA ajustado somou US$ 1,72 bilhão no trimestre, queda de 7% frente ao 4T24. A margem EBITDA recuou 1,8 ponto percentual, para 7,4%. No consolidado anual, o EBITDA ajustado ficou em US$ 6,8 bilhões, com margem de 7,9%.
A geração de caixa livre no trimestre foi robusta: US$ 990 milhões. A alavancagem encerrou o período em 2,39 vezes (dívida líquida/EBITDA), dentro da meta da companhia. E um detalhe que chama atenção: a JBS não tem vencimentos relevantes de dívida até 2031, com cupons abaixo das taxas dos Treasuries americanos.
O contraste entre os segmentos da JBS é gritante. De um lado, Seara e Pilgrim's Pride entregaram margens de dois dígitos. Do outro, a operação de carne bovina nos Estados Unidos operou no prejuízo.
A Seara fechou 2025 com margem EBITDA de 16,9%, impulsionada por volumes crescentes, preços mais altos e o maior volume de exportação de sua história. O portfólio de produtos processados e a forte demanda doméstica ajudaram a companhia a manter o ritmo mesmo com custos de milho e soja em patamares elevados.
A operação de frango nos EUA manteve margem EBITDA de 15,2% no ano, com receita avançando 3,5%, totalizando US$ 18,5 bilhões. A demanda por proteína de frango nos Estados Unidos permaneceu forte ao longo de todo o ano, e o portfólio in natura se beneficiou dessa tendência.
Aqui mora o problema. A JBS USA Beef reportou margem EBITDA negativa de 1,1% no ano. O ciclo pecuário nos Estados Unidos está em fase de contração, com oferta de gado em queda e preços da matéria-prima elevados. Isso espreme as margens do processador, que compra gado caro e vende carne num mercado cada vez mais competitivo. Segundo a própria companhia, esse cenário só deve melhorar em 2027.
A operação australiana apresentou margem EBITDA de 11,3%, recuperação expressiva em relação a trimestres anteriores. Ganhos de eficiência operacional e preços mais altos de exportação sustentaram o desempenho.
No pregão seguinte à divulgação do balanço, os BDRs da JBS (JBSS32) subiram mais de 8%, liderando o Ibovespa. O mercado interpretou que a diversificação geográfica e de proteínas da companhia compensa o momento difícil do beef americano.
A lógica é simples: enquanto Minerva (BEEF3) e Marfrig (MRFG3) têm exposição mais concentrada à carne bovina, a JBS distribui o risco entre frango, suínos, processados e operações em pelo menos quatro continentes. Quando um segmento sofre, outro compensa. A liquidez dos papéis também contribuiu pra absorver a demanda compradora sem grandes distorções de preço.
Três das maiores casas de análise do mercado mantiveram recomendação de compra, mas cada uma com suas ponderações.
O Itaú BBA elevou o preço-alvo de R$ 46 para R$ 51, mantendo recomendação de compra. O banco destaca o forte perfil de geração de caixa da JBS, com projeção de rendimento de fluxo de caixa (FCFE yield) de 15% para 2025. O EBITDA da companhia veio 7,5% acima do consenso de mercado, segundo os analistas do BBA, o que reforça a tese de que o mercado ainda subestima a capacidade de geração de valor da empresa. Se você quer entender melhor como analisar esses números, vale conferir o que é um balanço patrimonial e como ele funciona.
O Citi mantém recomendação de compra com olhar voltado pro futuro. Além dos resultados operacionais, o banco americano enxerga gatilhos importantes pela frente: a possível inclusão da JBS em índices como o Russell 1000 e o S&P 500 após a dupla listagem em Nova York. Pra o Citi, a expansão pra alimentos preparados, que têm margens mais altas e maior previsibilidade, é outro fator que pode destravar valor nos próximos trimestres.
A Genial Investimentos manteve recomendação de compra com preço-alvo de R$ 48,50, mas foi a mais direta nas ressalvas. O recado é claro: se a dupla listagem não se concretizar, a avaliação atual perde sustentação. A Genial também alerta que a supressão de margens deve persistir no início de 2026, com pressão em quase todas as unidades de negócio. É o tipo de aviso que merece atenção.
O BTG Pactual classificou a JBS como sua favorita entre os frigoríficos. Goldman Sachs reiterou compra com preço-alvo de R$ 38,70. Bradesco BBI mantém compra com alvo de US$ 20 pra ação negociada em Nova York. A XP estabeleceu preço-alvo de R$ 112,2 pros BDRs (JBSS32) ao fim de 2026.
O Conselho de Administração da JBS aprovou pagamento de US$ 1 por ação em dividendos, com data de pagamento prevista pra 17 de junho de 2026. Convertendo pela cotação atual do dólar, estamos falando de aproximadamente R$ 5,70 por ação, um yield bastante atrativo considerando o preço atual do papel.
Essa é uma sinalização importante da gestão. Distribuir dividendos robustos mesmo com um segmento operando no vermelho mostra confiança na capacidade de geração de caixa das outras unidades de negócio. A JBS gerou quase US$ 1 bilhão em caixa livre só no último trimestre.
O panorama pra 2026 é misto. Do lado positivo, a diversificação continua sendo o trunfo da JBS. A Seara tem espaço pra crescer em processados e exportações, e a Pilgrim's Pride mantém fundamentos sólidos no mercado americano de frango.
Do lado desafiador, o ciclo do gado nos Estados Unidos não dá sinais de alívio. A oferta bovina deve continuar caindo, mantendo os custos pressionados pra JBS USA Beef. A própria empresa reconhece que a margem desse segmento só volta ao positivo em 2027.
Tem também a questão do milho. O CEO da JBS sinalizou que os custos do milho devem subir em 2026, o que pode pressionar as operações de frango e suínos. Em contrapartida, o farelo de soja deve ter um cenário mais favorável. Esse balanço entre insumos vai ser determinante pro resultado dos próximos trimestres.
A dupla listagem em Nova York é o grande catalisador. Se concretizada, pode abrir portas pra inclusão em índices americanos, atraindo fluxo de capital institucional e potencialmente reduzindo o desconto de holding que o mercado aplica à JBS. Entender o que é um rally no mercado financeiro ajuda a dimensionar o que essa inclusão poderia significar pro preço da ação.
No setor de frigoríficos brasileiros listados, a JBS se destaca pela escala e diversificação. Minerva (BEEF3) tem exposição majoritária à carne bovina, o que a torna mais vulnerável ao ciclo pecuário. Marfrig (MRFG3), após a reorganização societária com a BRF, busca se reposicionar, mas ainda tem caminho pela frente.
A BRF (BRFS3), por sua vez, compete diretamente com a Seara no mercado de processados e frango, mas não tem a diversificação geográfica da JBS. Enquanto a BRF depende fortemente do mercado doméstico e de exportações pra Oriente Médio, a JBS opera em Estados Unidos, Austrália, Canadá, Europa e América do Sul simultaneamente.
Pra quem acompanha o setor, a questão central não é se a JBS tem um bom negócio. A questão é se o preço atual já reflete toda essa vantagem competitiva ou se ainda há espaço de valorização. A marcação a mercado dos papéis deve continuar respondendo ao fluxo de notícias sobre a dupla listagem e ao desempenho trimestral dos segmentos.
Com receita recorde, caixa robusto e dividendos generosos, a JBS mostra que seu modelo diversificado funciona mesmo quando uma peça importante do quebra-cabeça não vai bem. A dúvida que fica é se o beef americano vai continuar sendo um peso morto ou se, como a própria empresa espera, 2027 traz o alívio que o segmento precisa.
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