
O Ibovespa fechou esta quinta-feira (26) em queda de 1,45%, aos 182.732 pontos, num pregão em que apenas 8 das 86 ações do índice conseguiram terminar no positivo. O volume financeiro foi de R$ 26,1 bilhões. O combo que derrubou o mercado veio dos dois lados: pela manhã, o IPCA-15 de março surpreendeu pra cima. À tarde, o Irã rejeitou a proposta americana de cessar-fogo e o petróleo voltou a superar US$ 100 o barril.
O dólar comercial subiu 0,69% e fechou a R$ 5,2562. Em Nova York, o estrago foi ainda maior: o Nasdaq caiu 2,38% e entrou oficialmente em território de correção, acumulando queda de 10% desde a máxima recente. O S&P 500 recuou 1,74% e o Dow Jones perdeu 469 pontos.
O IBGE divulgou pela manhã que o IPCA-15 de março ficou em +0,44%, desacelerando frente ao 0,84% de fevereiro, mas bem acima dos 0,29% que o consenso da Reuters esperava. Em 12 meses, a inflação prévia acelerou pra 3,90%, contra expectativa de 3,74%.
O dado superou até a projeção máxima dos analistas consultados pela Bloomberg, pelo segundo mês consecutivo. É o tipo de número que muda a conversa sobre política monetária.
Os vilões foram velhos conhecidos: Alimentação e bebidas subiram 0,88% no mês (impacto de 0,19 ponto percentual no índice), puxadas por carnes e hortifrúti. Despesas pessoais vieram logo atrás, com alta de 0,82%.
O mercado reagiu imediatamente. Economistas de casas relevantes já começaram a revisar a projeção do IPCA cheio de 2026 de 4,1% pra algo mais perto de 4,5%, incorporando o choque adicional do petróleo que ninguém previa no começo do ano.
A reação mais visceral ao IPCA-15 apareceu na curva de juros. Todos os vencimentos dos contratos de DI futuro voltaram a operar acima de 14%.
O DI para janeiro de 2027 saltou pra 14,32%, ante 14,10% no ajuste anterior. O DI janeiro/2029 foi a 14,08% (vindo de 13,81%). E mesmo o vértice mais longo, o DI janeiro/2036, subiu pra 14,10%.
Na prática, o mercado tá dizendo que a Selic vai demorar mais pra cair do que se imaginava. O raciocínio é simples: se a inflação segue pressionada e o petróleo continua acima de US$ 100, o Banco Central não tem espaço pra afrouxar o aperto. Quem comprou Tesouro IPCA+ com taxas menores nos últimos meses sentiu o impacto na marcação a mercado.
O segundo golpe do dia veio da geopolítica. O Irã rejeitou formalmente a proposta americana de cessar-fogo, classificando-a como "unilateral". A notícia chegou durante o pregão da tarde e acelerou as vendas.
O petróleo Brent subiu cerca de 4% no dia e chegou a tocar US$ 106 o barril pela manhã, antes de acomodar levemente. A OCDE já classificou o conflito como o "maior choque de fornecimento de energia desde os anos 70".
O ouro, termômetro clássico de aversão a risco, acumula alta de 25% no ano. Pra quem acompanha o cenário macro, esse dado sozinho já resume o nível de tensão global.
Na semana passada, Trump havia anunciado uma suspensão de 5 dias nos ataques a infraestruturas energéticas iranianas, falando em "conversas produtivas". O mercado chegou a ensaiar algum otimismo. Durou pouco.
Com o Brent nas alturas, as petroleiras dominaram a lista curta de sobreviventes do pregão. Petrobras ON (PETR3) subiu 2,16% e fechou a R$ 53,37. Petrobras PN (PETR4) avançou 1,09%, a R$ 48,02. Brava Energia, PRIO e PetroRecôncavo também ficaram no azul.
Fora isso, só Minerva e Vamos conseguiram fechar em alta. Literalmente 8 papéis em 86. Quando até as large caps de qualidade caem juntas, é sinal de que o movimento é de aversão a risco generalizada, não de fundamento individual.
O setor financeiro sofreu forte. Banco do Brasil (BBAS3) caiu 3,35%. Itaú (ITUB4) recuou 2,69%. BTG Pactual (BPAC11) perdeu 2,61% e Bradesco (BBDC4) cedeu 2,39%.
A lógica é direta: juros mais altos por mais tempo comprimem a atividade econômica, aumentam a inadimplência e pressionam as carteiras de crédito. Pra bancos, o cenário de "Selic alta pra sempre" não é tão bom quanto parece à primeira vista.
O cenário externo não ajudou em nada. O Nasdaq Composite despencou 2,38% e encerrou aos 21.408 pontos, entrando oficialmente em território de correção (queda de 10% em relação à máxima). O S&P 500 caiu 1,74%, aos 6.477 pontos. O Dow Jones perdeu 469 pontos e fechou a 45.960.
O gatilho em NY foi o mesmo: a rejeição iraniana ao cessar-fogo e o alerta do BCE sobre pressões inflacionárias vindas do petróleo. As techs, que vinham segurando os índices americanos, foram as mais penalizadas. Quando o mercado precifica juros altos por mais tempo nos EUA também, as ações de crescimento são as primeiras a apanhar.
O pregão de hoje consolidou uma mudança de cenário que vinha se desenhando nas últimas semanas. Antes do conflito com o Irã, o mercado discutia quando o BC começaria a cortar juros. Agora, a discussão é se a Selic precisa subir mais.
Na comunidade da Traders, os traders já estavam debatendo desde cedo o impacto do IPCA-15 nas posições de renda fixa e nos contratos de DI. A rejeição do cessar-fogo pelo Irã à tarde só intensificou a cautela.
Três pontos merecem atenção nos próximos dias. Primeiro, o desenrolar das negociações entre EUA e Irã. Qualquer sinal de reabertura de diálogo pode aliviar o petróleo e, por consequência, a curva de juros brasileira. Segundo, os próximos dados de inflação. Se o IPCA cheio de março confirmar a tendência do IPCA-15, a pressão sobre o Copom vai aumentar. Terceiro, o comportamento do dólar: a moeda americana acima de R$ 5,25 adiciona mais um canal de transmissão inflacionária via importações.
Quem opera com horizonte mais curto precisa ficar atento à volatilidade. Com o Brent acima de US$ 100, qualquer manchete sobre o Oriente Médio pode movimentar o mercado em minutos. Já pra quem investe pensando no médio e longo prazo, a abertura dos juros longos cria oportunidades em renda fixa indexada à inflação, mas exige estômago pra aguentar a marcação a mercado no caminho.
O minério de ferro, por sua vez, ficou relativamente estável a US$ 106 a tonelada, sustentado pela demanda chinesa. Por enquanto, a Vale não sofre tanto quanto os bancos, mas um eventual desaquecimento global provocado pelo choque do petróleo pode mudar esse quadro.
O dia de hoje deixou uma mensagem clara: o mercado brasileiro está preso entre a inflação doméstica que não cede e um conflito geopolítico que ninguém controla. Enquanto esses dois vetores não derem trégua, a tendência é de mais volatilidade e menos apetite por risco.
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