
O Tesouro Nacional anunciou nesta segunda-feira (14) que iniciou conversas com investidores europeus pra uma emissão de títulos soberanos denominados em euros. É a primeira vez em mais de 12 anos que o Brasil acessa o mercado europeu de dívida. A última operação do tipo aconteceu em 2014, quando o cenário fiscal e o rating do país eram completamente diferentes.
A operação ainda está em fase de sondagem de demanda (roadshow), e as condições finais, como prazo, volume e taxa, serão definidas após o contato com investidores institucionais. Os bancos mandatados pra coordenar a emissão são BBVA, BNP Paribas, Bank of America e UBS.
A emissão em euros não é um movimento isolado. Ela faz parte da estratégia de diversificação cambial do Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026, divulgado pelo Tesouro em janeiro. O plano prevê captações em três moedas: dólar, euro e yuan (a moeda chinesa, numa operação inédita chamada Panda bond).
O objetivo declarado é construir uma curva soberana de referência em euros. Na prática, isso significa que, quando o governo brasileiro emite dívida em euros com determinada taxa, ele cria um parâmetro. Empresas brasileiras que queiram captar no mercado europeu passam a ter uma referência de preço, o que facilita e barateia as emissões corporativas.
Pra quem investe em Tesouro Prefixado ou Tesouro IPCA+ no mercado doméstico, a lógica é parecida: o governo emite títulos e o mercado precifica o risco. A diferença é que agora a precificação acontece em moeda estrangeira, refletindo como o investidor europeu enxerga o risco Brasil.
O Tesouro não chegou ao mercado europeu sem preparação. Em fevereiro, o Brasil fez sua primeira emissão externa do ano em dólares e os números impressionaram. Foram US$ 4,5 bilhões captados, divididos em duas tranches.
O título novo de 10 anos (Global 2036) saiu com spread de 220 pontos-base sobre os Treasuries americanos, patamar próximo das mínimas históricas pra um bond brasileiro dessa maturidade. O livro de ordens chegou a US$ 12 bilhões, uma demanda 2,7 vezes maior que a oferta.
Essa recepção forte mostrou ao Tesouro que o apetite internacional por dívida brasileira está saudável, mesmo num momento de incerteza global com tensões comerciais e volatilidade nos mercados. Foi o sinal pra avançar com o plano de diversificação.
Quando o Brasil fez sua última emissão em euros, há 12 anos, o país ainda tinha grau de investimento pela Moody's. Depois veio a recessão de 2015-2016, o impeachment, a pandemia. O rating despencou.
Hoje, a situação é diferente do fundo do poço, mas ainda não voltou ao investment grade. A Moody's elevou a nota do Brasil pra Ba1 em outubro de 2024 (o nível mais alto dentro do "grau especulativo") com perspectiva positiva, sinalizando possível upgrade. A S&P mantém o rating em BB com perspectiva estável.
Esse Ba1 com perspectiva positiva é relevante porque muitos fundos europeus têm restrições pra comprar títulos abaixo de determinado rating. Estar no topo do high yield, com chance de voltar ao investment grade, amplia consideravelmente a base de investidores que podem participar da emissão.
No mercado interno, os juros longos brasileiros estão em torno de 13,7% ao ano nos títulos de 10 anos, um nível que ainda reflete o ciclo de aperto monetário do Banco Central. Quem investe em Tesouro Selic sabe que a taxa básica continua elevada, e isso, paradoxalmente, ajuda na captação externa: juros altos atraem capital estrangeiro em busca de retorno.
A queda recente nos preços do petróleo também ajudou a melhorar as expectativas de inflação, o que reduz a percepção de risco e tende a comprimir os spreads cobrados pelos investidores internacionais.
O roadshow com investidores europeus está em andamento. A expectativa é que o Tesouro defina as condições finais da emissão (prazo, volume e taxa) nos próximos dias, dependendo da receptividade.
Pra quem acompanha o mercado de renda fixa e Tesouro Direto, vale observar dois pontos: o spread que os investidores europeus vão exigir (quanto menor, melhor pra percepção de risco Brasil) e o volume da demanda (uma operação oversubscribed, como foi a captação em dólares, reforça o apetite internacional).
O retorno ao mercado europeu após mais de uma década é um passo relevante na estratégia de financiamento do país. Não resolve os desafios fiscais domésticos, mas mostra que o Brasil, pelo menos no radar dos investidores globais, continua atraindo atenção.
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