
A Axia Energia (AXIA3), novo nome da Eletrobras desde novembro de 2025, reportou lucro líquido ajustado de R$ 2,6 bilhões no quarto trimestre de 2025, um salto de 136,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Pela métrica regulatória, o lucro foi de R$ 1,25 bilhão, alta de 141% contra os R$ 520 milhões do 4T24. Já pelo critério IFRS, o número chegou a R$ 13,7 bilhões, inflado por créditos fiscais não recorrentes.
Apesar do resultado expressivo na última linha, a receita líquida recuou 5,5% na comparação anual, para R$ 9,92 bilhões. E foi justamente esse descompasso entre lucro robusto e receita em queda que fez as ações caírem cerca de 3% no pregão de divulgação, liderando as baixas do Ibovespa em 27 de fevereiro.
O segredo do trimestre não foi crescimento de receita. Foi eficiência. A companhia conseguiu cortar custos de forma agressiva, e isso mais do que compensou a queda no faturamento.
O PMSO regulatório (pessoal, material, serviços e outros) caiu 15,9% no trimestre, para R$ 1,7 bilhão contra R$ 2,1 bilhões no 4T24. No acumulado de 2025, essa linha ficou em R$ 5,98 bilhões, uma redução de 28% desde a privatização em 2022. Esse é o número que mais anima quem acompanha a tese de longo prazo: a empresa continua entregando ganhos de eficiência trimestre após trimestre.
Com custos caindo mais rápido que a receita, o EBITDA ajustado regulatório subiu 12,9%, de R$ 5,09 bilhões para R$ 5,745 bilhões. A margem EBITDA saltou quase 10 pontos percentuais, saindo de 47,4% para 57,1%. Pra uma empresa do setor de energia na bolsa, uma margem acima de 57% é excepcional.
A queda de 5,5% na receita líquida tem explicação dupla. No segmento de geração, a receita bruta recuou 12%, para R$ 7,0 bilhões. A Axia vendeu termelétricas ao longo de 2025 como parte da reestruturação do portfólio, e isso naturalmente reduziu o faturamento dessa linha. Além disso, houve um reembolso negativo de R$ 250 milhões relacionado a parques eólicos, o que pressionou ainda mais.
Já o segmento de transmissão foi na direção oposta: receita bruta de R$ 4,5 bilhões, alta de 6%. Esse é um ponto relevante porque transmissão gera receita regulada, previsível e com margens altas. Com o capex pesado nessa área (mais sobre isso adiante), a tendência é que essa linha ganhe cada vez mais peso no mix de receita da companhia.
Vale repetir porque o número impressiona: margem EBITDA de 57,1%. Isso coloca a Axia em outro patamar quando comparada com pares do setor elétrico brasileiro. A combinação de receita regulada de transmissão com custos em queda livre criou uma máquina de geração de caixa.
O resultado de participações societárias também ajudou, crescendo 28,9% no trimestre. A Axia detém fatias relevantes em diversas concessionárias e SPEs do setor, e essas participações contribuíram positivamente pro consolidado.
O capex do 4T25 foi de R$ 3,87 bilhões, alta de 27,9% contra o 4T24. Do total, R$ 2,44 bilhões foram direcionados a transmissão. No acumulado de 2025, os investimentos totalizaram R$ 9,6 bilhões, 18% acima do ano anterior. A empresa está claramente priorizando a expansão da base regulatória.
O problema é que esse capex elevado, combinado com o pagamento de R$ 4,3 bilhões em dividendos em dezembro, fez a dívida líquida saltar 23%, para R$ 46,5 bilhões. A alavancagem subiu de 1,6x para 2,0x dívida líquida sobre EBITDA. Ainda está dentro da meta da companhia (3,0x a 4,25x), mas a trajetória ascendente acendeu um sinal amarelo no mercado.
Quem acompanha a tese de investimento em Eletrobras/Axia sabe que a discussão sobre alavancagem é central. A empresa tem espaço pra crescer a dívida dentro da política financeira, mas o ritmo de aumento no trimestre deixou parte dos analistas desconfortáveis.
No pregão de 27 de fevereiro de 2026, dia da divulgação dos resultados, as ações AXIA3 caíram entre 2,5% e 3%, liderando as perdas do Ibovespa. O mercado já esperava melhora no lucro. O que decepcionou foram três pontos específicos:
Primeiro, a receita líquida veio abaixo do consenso dos analistas. O volume de energia vendido no segmento de geração ficou aquém do que os modelos projetavam. Segundo, mesmo a receita de transmissão, que cresceu, ficou levemente abaixo das estimativas. Terceiro, a alta de 23% na dívida líquida gerou preocupação com o espaço pra manter a política generosa de dividendos.
Essa reação negativa, porém, dividiu opiniões. A Genial Investimentos publicou um relatório intitulado "Ainda tá barato", defendendo que o mercado estava exagerando na punição. O BB Investimentos revisou o preço-alvo pra cima, de R$ 49,36 para R$ 63,90, com recomendação de compra.
A Axia distribuiu R$ 8,3 bilhões em dividendos ao longo de 2025. Só no terceiro trimestre, anunciou R$ 4,3 bilhões em dividendos intermediários, pagos em dezembro. Os valores por ação foram de R$ 1,89 pra AXIA3 (ordinária), R$ 1,58 pra AXIA5 (preferencial A) e R$ 2,08 pra AXIA6 (preferencial B).
Pra 2026, os analistas elevaram a estimativa de dividendos totais de R$ 10 bilhões para R$ 11,4 bilhões, projetando um dividend yield em torno de 9% entre 2026 e 2028. Um dos catalisadores dessa revisão é a expectativa de preços de energia mais altos no mercado livre, com premissas de R$ 240/MWh em 2026 contra R$ 200/MWh anteriormente.
Pra quem investe pensando em renda, esse yield projetado de 9% é competitivo mesmo num cenário de juros altos no Brasil. A questão é se a alavancagem crescente não vai forçar a empresa a segurar mais caixa nos próximos trimestres.
Em 1 de abril de 2026, os acionistas aprovaram a migração da Axia Energia para o Novo Mercado da B3. Isso significa conversão das ações preferenciais em ordinárias na proporção de 1,1 ON por cada PN. Na prática, a empresa passa a ter apenas um tipo de ação, com tag along de 100% e padrões mais rigorosos de governança.
Esse movimento é relevante por dois motivos. Primeiro, atrai investidores institucionais e estrangeiros que só compram papéis no Novo Mercado. Segundo, abre caminho pra entrada em índices globais como o MSCI, o que pode gerar fluxo comprador relevante. Pra quem acompanha ETFs temáticos de energia, a inclusão em índices internacionais pode ampliar o peso da Axia nesses veículos.
O setor elétrico brasileiro vive um momento de transição. Os preços de energia no mercado livre estão em tendência de alta, o que beneficia geradoras como a Axia. Ao mesmo tempo, o segmento de transmissão oferece uma âncora de receita regulada que reduz a volatilidade dos resultados.
A Axia é, de longe, a maior empresa do setor na B3, e sua transformação pós-privatização serve como termômetro pra todo o segmento. A redução de 28% nos custos operacionais desde 2022 mostra que o modelo privado está entregando eficiência. A dúvida é até onde vai esse ganho e quando a curva de otimização começa a desacelerar.
Comparada com pares internacionais, a Axia negocia com desconto. Se os preços de energia se mantiverem elevados e a migração pro Novo Mercado trouxer o fluxo esperado, há espaço pra reavaliação. Quem quer entender melhor como o setor funciona pode conferir o guia sobre investimento em energia limpa e ESG.
A empresa não divulga guidance formal de lucro ou receita. Mas os catalisadores pra 2026 estão mapeados: preços de energia mais altos no mercado livre, continuidade do corte de custos, capex pesado em transmissão criando base de receita regulada, e a migração pro Novo Mercado atraindo novos investidores.
Do lado dos riscos, a alavancagem crescente é o principal ponto de atenção. Se a dívida continuar subindo no ritmo do 4T25, em algum momento a política de dividendos pode ser ajustada. O cenário hidrológico também importa: anos de seca forçam o acionamento de térmicas mais caras e reduzem a margem das geradoras.
O balanço do 4T25 mostrou uma empresa que sabe cortar custos, mas que precisa voltar a crescer receita. O lucro dobrou, a margem bateu recorde, os dividendos estão entre os mais altos do setor. Só que o mercado quer ver a linha de cima andar também. O primeiro trimestre de 2026 vai ser crucial pra confirmar se a queda de receita foi pontual ou se virou tendência.
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