
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, deixou claro nesta segunda-feira (6) que o BC não tem pressa pra cortar a Selic, hoje em 14,75% ao ano. Em participação no 12o Seminário Anual de Política Monetária da FGV/Ibre, no Rio de Janeiro, Galípolo repetiu que a palavra de ordem é "cautela" e que o Copom prefere "ganhar tempo" antes de mexer nos juros. Com a guerra no Oriente Médio longe de um desfecho e o IPCA projetado em 4,36% pelo Boletim Focus desta segunda, a mensagem é uma só: o ciclo de cortes pode esperar.
"Cautela para o Banco Central é você tomar tempo pra conhecer melhor o problema e fazer movimentos mais seguros, dar passos mais seguros na direção da política monetária", disse Galípolo. A fala confirma o que boa parte do mercado já esperava: a próxima reunião do Copom, marcada pra 28 e 29 de abril, dificilmente trará mudança na taxa básica.
Galípolo foi além da retórica habitual e elencou quatro choques de oferta que, na avaliação dele, ainda pesam sobre a economia global: a pandemia, as rupturas nas cadeias de suprimentos, a crise energética e, agora, os conflitos geopolíticos no Oriente Médio. Segundo o presidente do BC, esses choques ajudam a entender por que, mesmo com a inflação desacelerando em vários países, a sensação de perda de poder de compra persiste no dia a dia das pessoas.
"A sociedade brasileira não tolera mais inflação alta", afirmou. Ele destacou que a pressão sobre o custo de vida segue real, mesmo que os números oficiais estejam dentro da banda de tolerância da meta de inflação. A meta do Conselho Monetário Nacional é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual pra cima ou pra baixo, ou seja, o teto é 4,5%. Com a projeção em 4,36%, a margem é de apenas 0,14 ponto.
O Boletim Focus divulgado nesta segunda trouxe mais um motivo pro BC pisar no freio. A mediana das projeções do mercado pra o IPCA de 2026 subiu de 4,31% pra 4,36%, na quarta semana seguida de alta. Pra 2027, a estimativa ficou em 3,85%, e pra 2028, em 3,6%.
Quanto à Selic, o mercado espera que a taxa termine 2026 em 12,5% ao ano, o que implicaria cortes de 2,25 pontos percentuais até dezembro. Mas o calendário tá apertado: restam apenas cinco reuniões do Copom no ano (abril, junho, agosto, setembro e dezembro), e a primeira nem sequer deve trazer mudança. O consenso entre economistas é que o primeiro corte viria em junho, mas com a incerteza geopolítica, até essa aposta tá ficando menos firme.
Um dado relevante: o Focus também projeta o dólar a R$ 5,40 no fim do ano e PIB crescendo 1,85%. Números que, combinados, sugerem uma economia que cresce pouco mas ainda pressiona preços.
Galípolo usou uma expressão que vem ganhando tração no mercado: o BC tem "gordura" na Selic. Com a taxa em 14,75%, o juro real brasileiro (descontada a inflação) está entre os mais altos do mundo. Isso dá ao Copom espaço pra esperar sem que a política monetária perca eficácia.
Na prática, essa estratégia tem duas consequências imediatas. A primeira é positiva pro câmbio: o diferencial de juros atrai capital estrangeiro, e o dólar fechou hoje a R$ 5,14, no menor patamar desde antes da escalada do conflito no Oriente Médio. A segunda é negativa pro crédito: financiamentos, empréstimos pessoais e capital de giro seguem caros, o que freia consumo e investimento. O custo dos juros compostos sobre dívidas continua pesando no bolso de quem tá alavancado.
Na comunidade da Traders, os traders discutem bastante essa dinâmica: a Selic alta segura o dólar e beneficia renda fixa, mas ao mesmo tempo comprime margens de empresas alavancadas e setores cíclicos. Quem opera na bolsa precisa calibrar o portfólio pra esse cenário.
Os mercados refletiram esse tom de "esperar pra ver". O Ibovespa fechou praticamente estável, com leve alta de 0,05%, aos 188.052 pontos. A sessão foi volátil: chegou a cair 1,46% na mínima (185.214 pontos) e subiu 0,69% na máxima (189.251 pontos). O volume negociado foi de R$ 24,38 bilhões.
Petrobras e os grandes bancos seguraram o índice. PETR4 subiu 1,64%, a R$ 48,94, puxada pela alta do petróleo. Do lado negativo, Braskem PNA liderou as perdas com queda de 7,59%, seguida por Azzas (-4,61%) e Cyrela (-3,05%).
O dólar comercial recuou 0,26%, fechando a R$ 5,14. É o menor valor do ano, reflexo direto do diferencial de juros que torna ativos brasileiros atrativos pro capital estrangeiro.
Já o petróleo Brent subiu 0,68%, a US$ 109,77 o barril, com novas ameaças de Trump ao Irã reduzindo as expectativas de cessar-fogo no Oriente Médio. O WTI avançou 0,77%, a US$ 112,41. Petróleo acima de US$ 100 por barril prolongado é justamente o tipo de choque de oferta que Galípolo citou como motivo pra cautela.
A curva de juros futuros teve movimentos distintos nos vértices curtos e longos. Os contratos mais curtos (DI jan/27) ficaram praticamente estáveis, refletindo a expectativa de que o BC não vai mexer na Selic tão cedo. Já os vértices mais longos (DI jan/29, jan/31) tiveram leve alta, incorporando o risco de que a inflação fique pressionada por mais tempo do que o esperado.
Essa inclinação da curva conta uma história: o mercado aceita que os cortes vão vir, mas não tá convicto de que a inflação vai convergir pra meta no horizonte relevante. E com o petróleo acima de US$ 100, a pressão sobre combustíveis e energia pode se intensificar nos próximos meses.
Nos Estados Unidos, as bolsas fecharam em alta moderada. O Dow Jones subiu 0,36% (46.669 pontos), o S&P 500 avançou 0,44% (6.611 pontos) e o Nasdaq ganhou 0,54% (21.996 pontos). O mercado americano também opera com cautela, de olho nos próximos dados de emprego e na postura do Federal Reserve diante do conflito no Oriente Médio e das tarifas comerciais.
A leitura do mercado é clara: a reunião de 28 e 29 de abril deve manter a Selic em 14,75%. Galípolo praticamente disse isso sem dizer, ao reforçar que "não há porta fechada nem seta dada" mas que o BC prefere "chegar lá" com mais dados nas mãos.
Os fatores que o Copom vai pesar na decisão são conhecidos: a trajetória do IPCA, o comportamento do câmbio, os desdobramentos da guerra e, cada vez mais, o impacto das tarifas comerciais dos Estados Unidos sobre cadeias globais. Galípolo fez questão de lembrar que o Brasil é visto como um país que "sofreria menos" com os choques tarifários americanos, mas isso não significa imunidade.
Pra quem investe, o recado é pragmático: renda fixa segue rentável com Selic nesse patamar, o dólar pode continuar cedendo se o diferencial de juros se mantiver, e a bolsa tende a operar lateralmente até surgir clareza sobre o início do ciclo de cortes. O cenário pede paciência e, como o próprio Galípolo definiu, "passos mais seguros" nas decisões de alocação.
A próxima referência importante pro mercado é o IPCA de março, que sai na quarta-feira (8). Se vier acima do esperado, a tese de manutenção da Selic em abril ganha ainda mais força. Se vier abaixo, pode reacender, ainda que timidamente, a discussão sobre um corte mais cedo.
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