
A Embraer (EMBR3) encerrou 2025 com a maior receita anual de sua história: R$ 41,8 bilhões, um avanço de 18% em relação a 2024. O problema é que o lucro líquido ajustado andou na direção contrária. Os R$ 1,37 bilhão do ano representam uma queda de 47,4% frente aos R$ 2,6 bilhões do exercício anterior. A combinação de receita recorde com lucro em retração gerou um cabo de guerra entre otimistas e céticos no mercado.
Os dados do quarto trimestre de 2025 (4T25) confirmaram a tendência. A fabricante brasileira de aeronaves reportou lucro líquido ajustado de R$ 832 milhões no período, uma queda de 20,4% na comparação com o 4T24. A receita líquida trimestral foi de R$ 14,34 bilhões, crescimento de 4,3% na mesma base.
O EBITDA ajustado somou R$ 1,61 bilhão no quarto trimestre, retração de 17,2% na comparação anual. A margem EBITDA ajustada ficou em 11,2%, um recuo de 3 pontos percentuais em relação ao 4T24. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior (3T25), o cenário é diferente: o lucro de R$ 832 milhões representa um salto relevante frente aos R$ 289,4 milhões do terceiro trimestre, quando a ausência de itens não recorrentes (como o acordo de arbitragem com a Boeing, de US$ 150 milhões, que havia inflado o 3T24) pesou no resultado.
A receita do 4T25 também superou com folga os R$ 10,87 bilhões do 3T25. Na prática, o último trimestre do ano concentrou boa parte das entregas e do faturamento, um padrão típico da indústria aeronáutica. É o chamado efeito de sazonalidade, que acontece porque companhias aéreas e operadores de jatos executivos costumam acelerar o recebimento de aeronaves no fim do ano fiscal.
O Lucro por Ação (LPA) foi impactado pela pressão nas margens operacionais, mesmo com o crescimento expressivo do faturamento. A razão? Custos de produção mais altos num cenário de cadeia de suprimentos global ainda sob estresse e aumento de volume sem proporcional ganho de escala nas margens.
A Embraer entregou 91 aeronaves no 4T25: 32 jatos comerciais, 53 jatos executivos e 6 aeronaves de defesa e segurança. No acumulado de 2025, foram 244 entregas, alta de 18% frente às 206 de 2024. O mix incluiu 78 jatos comerciais (44 E2 e 34 E1), 155 jatos executivos (86 leves e 69 médios) e 11 aeronaves de Defesa (3 KC-390 Millennium e 8 A-29 Super Tucano).
O destaque absoluto é a carteira de pedidos firmes. O backlog atingiu US$ 31,6 bilhões ao fim de 2025, um recorde histórico e mais de 20% acima do registrado um ano antes. Pra colocar em perspectiva, esse número equivale a mais de quatro anos de receita no ritmo atual da companhia. É um colchão de visibilidade que poucos fabricantes de aeronaves no mundo conseguem ostentar.
O KC-390 Millennium segue como um dos carros-chefe da divisão de Defesa. O cargueiro militar multimissão já acumula operadores em vários países e se consolidou como alternativa ao C-130 Hercules da Lockheed Martin. A demanda por esse tipo de aeronave tende a crescer no contexto geopolítico atual, com países aumentando seus orçamentos de defesa.
Os dados operacionais do primeiro trimestre de 2026 já estão na mesa. A Embraer entregou 44 aeronaves no 1T26, um salto de 47% em relação às 30 do 1T25. O detalhamento: 10 jatos comerciais (incluindo 3 E195-E2, o maior avião em produção pela Embraer no segmento), 29 jatos executivos (+26%) e 5 aeronaves de Defesa (1 KC-390 e 4 A-29 Super Tucano), contra zero entregas militares no primeiro trimestre do ano anterior.
Os números vieram acima do esperado pelo mercado. Quatro casas de análise emitiram recomendação de compra após a divulgação. Mas o contexto macro pesou: apesar das entregas fortes, as ações não reagiram com alta sustentada. A turbulência nos mercados globais em março acabou ofuscando os bons números operacionais.
A Embraer divulgou suas projeções pra 2026 junto com os resultados do 4T25. As estimativas são ambiciosas: receita entre US$ 8,2 bilhões e US$ 8,5 bilhões, acima do recorde de US$ 7,6 bilhões registrado em 2025. A margem EBIT esperada fica entre 8,7% e 9,3%, com geração de fluxo de caixa livre estimada em US$ 200 milhões ou mais.
Nas entregas, a meta é de 80 a 85 aeronaves comerciais (ante 78 em 2025) e 160 a 170 jatos executivos (ante 155). Se atingir o topo da faixa, a empresa entregaria cerca de 260 aeronaves no ano, novo recorde.
O mercado, porém, considerou o guidance conservador. Parte dos analistas esperava metas mais agressivas, dado o backlog recorde e a demanda aquecida por aviação executiva. Esse descompasso entre expectativa e realidade foi um dos fatores que derrubaram a ação no dia seguinte à divulgação do balanço.
Mesmo com os fundamentos sólidos, as ações da Embraer acumularam queda de cerca de 20% em março de 2026. A combinação de guidance visto como conservador com o sell-off nos mercados emergentes criou uma janela de pressão vendedora. No início de abril, o papel negociava na faixa de R$ 80 a R$ 87, bem abaixo dos patamares de início do ano (acima de R$ 88).
Os grandes bancos, no entanto, enxergam essa queda como oportunidade. O JPMorgan reiterou recomendação de compra (overweight) e elevou o preço-alvo pra R$ 109. O Goldman Sachs mantém recomendação de compra com alvo de R$ 98,20 pro fim de 2026. O BTG Pactual, que considera a Embraer uma de suas principais apostas pro ano, trabalha com alvo de US$ 97 pro ADR listado em Nova York.
A avaliação por múltiplos também chama atenção. O P/L (Preço/Lucro) atual sugere que o papel negocia com desconto em relação a pares globais do setor aeroespacial. Analistas argumentam que a Embraer deveria ser precificada mais como uma empresa global de aviação (que é) do que como uma small cap brasileira.
Do lado positivo, três fatores se destacam. Primeiro, a forte demanda por aviação executiva, segmento em que a Embraer é referência mundial com os modelos Phenom e Praetor. Segundo, a recuperação das entregas comerciais, puxada pelo E195-E2, que vem ganhando pedidos de companhias aéreas em todo o mundo. Terceiro, o KC-390, que finalmente começa a ganhar tração internacional com novos contratos e entregas regulares.
Do lado negativo, a queda no lucro reflete custos de produção mais elevados, pressão da cadeia de suprimentos e a base de comparação inflada por itens não recorrentes em 2024 (notadamente o acordo com a Boeing). A margem EBITDA anual ficou abaixo da registrada no ano anterior, e a alavancagem operacional não acompanhou o crescimento da receita na mesma proporção.
Quem acompanha a ação de perto sabe que a Embraer vive uma fase de transição. O crescimento de receita é inegável, mas a conversão em lucro e margem ainda precisa melhorar. E é exatamente nisso que o mercado vai ficar de olho nos próximos trimestres.
O setor aeroespacial global vive um momento de forte demanda reprimida. Boeing e Airbus seguem com filas de espera de anos pra novos pedidos, o que abre espaço pra fabricantes menores como a Embraer. No segmento de jatos regionais (70 a 150 assentos), a brasileira praticamente não tem concorrente direto depois que a Bombardier saiu do mercado de aviação comercial.
A aviação executiva também segue aquecida. Executivos e empresas que descobriram a praticidade de voar privado durante a pandemia não voltaram atrás. Os pedidos de Phenom 300 e Praetor 600 continuam em alta, e o backlog nesse segmento garante visibilidade por vários trimestres à frente.
Na defesa, o KC-390 é uma peça estratégica. Portugal, Hungria, Coreia do Sul e outros países já operam ou encomendaram o cargueiro militar. Com os orçamentos de defesa em expansão global, a tendência é de mais contratos nos próximos anos. O canal de preço da ação reflete essa dinâmica: oscila entre otimismo com o backlog e cautela com as margens.
O resultado financeiro completo do 1T26 será divulgado em 8 de maio de 2026. Esse balanço vai mostrar se o salto de 47% nas entregas do primeiro trimestre se traduziu em receita e margem proporcionais. O mercado espera sinais de melhora na rentabilidade, e não apenas crescimento de volume.
Entre os catalisadores que podem movimentar a ação nos próximos meses, estão: novos contratos pro KC-390, especialmente em mercados como Índia e Oriente Médio; a evolução dos pedidos do E195-E2 em companhias aéreas europeias e asiáticas; e a eventual revisão pra cima do guidance, caso as entregas continuem acima do planejado.
Quem investe em Embraer (EMBR3) precisa equilibrar duas narrativas. De um lado, uma empresa com receita recorde, backlog inédito e posição competitiva forte. Do outro, margens pressionadas e lucro em queda. Os preços-alvo dos analistas (entre R$ 98 e R$ 109) sugerem upside relevante em relação à cotação atual, na faixa de R$ 81. Mas o caminho até lá depende de execução operacional e de um cenário macro que pare de atrapalhar.
O strike do mercado com a Embraer é claro: quer ver a receita recorde se transformar em lucro recorde também. Até lá, a volatilidade deve continuar.
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