
A GMAT3 despencou cerca de 15% nesta quarta-feira (19) depois que o Grupo Mateus reportou um quarto trimestre de 2025 bem abaixo das expectativas do mercado. O principal problema: as vendas no conceito mesmas lojas (SSS) caíram 1,1% na comparação anual, quando o consenso esperava ao menos estabilidade. O volume financeiro negociado explodiu, com R$ 140 milhões trocando de mãos só até as 14h, contra uma média diária de R$ 25 milhões no mesmo horário.
A empresa fundada por Ilson Mateus até entregou uma receita líquida de R$ 10,5 bilhões, alta de 20,9% contra o 4T24. Parece bom no papel. Mas o consenso apontava pra R$ 10,9 bilhões. Essa diferença de R$ 400 milhões bateu direto na linha do EBITDA ajustado, que recuou 6,2% no trimestre pra R$ 508 milhões. O mercado projetava R$ 690 milhões. A distância entre o reportado e o esperado foi de quase 26%.
A queda de 1,1% no SSS consolidado já seria ruim o suficiente. Mas o destaque negativo ficou com o segmento de cash & carry (atacarejo), que despencou 5,5%. A operação do Novo Atacarejo, a joint venture do grupo com a família Assis em Pernambuco, Paraíba e Alagoas, puxou o número pra baixo.
Num negócio de margem baixa como o varejo alimentar, qualquer escorregão nas vendas mesmas lojas tem efeito multiplicado na última linha. Com vendas mais fracas, a companhia não conseguiu diluir sua estrutura de custos. O resultado foi uma desalavancagem operacional que pressionou o EBITDA de forma significativa.
"Num negócio de margem baixa, qualquer impacto nas vendas derruba o EBITDA", resumiu um gestor comprado na ação ao Brazil Journal. É a matemática cruel do varejo: a alavancagem operacional que multiplica lucros nos bons trimestres vira inimiga quando as vendas decepcionam.
O Itaú BBA apontou que o trimestre refletiu a combinação de dois fatores: deflação nos preços de alimentos e consumo mais fraco na região Nordeste, onde o Grupo Mateus tem forte presença. Pra quem acompanha o setor, a deflação de alimentos é especialmente traiçoeira porque reduz o tíquete médio mesmo quando o volume de compras se mantém.
Na conferência com analistas, o CEO Jesuíno Martins Borges Filho foi direto: o consumo tem perdido força por causa dos juros altos e do endividamento das famílias. Segundo ele, 2026 será o ano de "ganhar eficiência com margem", já que "o macro está mais difícil".
Pra entender o impacto dos juros no poder de compra das famílias e, consequentemente, no varejo, vale revisitar como funciona a métrica de lucro por ação e como ela se conecta com a análise de resultados trimestrais.
A XP classificou o resultado como "fraco e difícil de comparar", com receita abaixo do esperado por causa de um SSS mais fraco em todos os formatos e margens pressionadas. A analista Danniela Eiger disse que as pressões de volume vindas de crédito mais apertado, deflação de alimentos e cenário macroeconômico desafiador devem persistir ao longo de 2026.
O tom do Itaú BBA foi parecido. Na visão do analista Rodrigo Gastim, o primeiro semestre de 2026 também não deve trazer uma melhora relevante. A mensagem implícita: quem espera uma recuperação rápida pode se frustrar de novo.
O mercado já está refazendo as contas sobre quanto o lucro de 2026 vai cair depois deste trimestre abaixo do esperado. Antes da queda de hoje, o Mateus negociava a 5,9 vezes o lucro projetado pros próximos doze meses, contra 9 vezes do Assaí, seu principal concorrente listado na B3. Parecia barato. "O papel parecia barato comparado ao Assaí, mas o mercado vai ter que recalibrar", disse o gestor.
A derrocada de hoje não é um evento isolado. A ação do Grupo Mateus acumula queda de 40% nos últimos doze meses, e a empresa agora vale R$ 9,5 bilhões na B3. Pra uma varejista que chegou a ser vista como a nova estrela do varejo alimentar brasileiro, a perda de valor é expressiva.
Quem investe em ações de valor sabe que múltiplos baixos nem sempre significam oportunidade. Às vezes, o mercado está precificando corretamente uma deterioração nos fundamentos. O debate agora é se os 5,9x lucro (que devem cair ainda mais depois do ajuste nas projeções) representam um ponto de entrada ou uma armadilha de valor.
Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Parte aponta que a queda já embute um cenário bastante negativo e que a geração de caixa segue saudável. Outra parte argumenta que, com o macro piorando e sem catalisadores claros no curto prazo, não há motivo pra pressa.
Nem tudo foi negativo no balanço. O Grupo Mateus gerou R$ 750 milhões de caixa no trimestre, melhorou em 18 dias seu ciclo de conversão de caixa e manteve a alavancagem baixa em 0,4x, uma queda de 0,1x em relação ao terceiro trimestre.
Pra quem analisa balanços de empresas, esses números mostram que a gestão financeira segue disciplinada, mesmo com a pressão nas vendas. Alavancagem de 0,4x é confortável pra qualquer padrão do setor de varejo alimentar. Isso dá ao Grupo Mateus fôlego pra atravessar o momento sem risco de liquidez.
Entender a diferença entre ações ordinárias e ações preferenciais é fundamental pra quem está avaliando posições no setor de varejo, onde a estrutura societária influencia diretamente o peso do voto e a distribuição de dividendos.
Um dado que chamou atenção foi o volume financeiro projetado de R$ 300 milhões pra o dia, algo incomum pra GMAT3. Até as 14h, já tinham passado R$ 140 milhões pelo book, contra uma média diária de R$ 25 milhões no mesmo horário. Esse volume sugere que houve movimentação institucional pesada, com fundos relevantes ajustando posições.
Quando o volume explode assim, geralmente indica que grandes gestores estão revisando teses de investimento, não apenas reação de varejo. A pergunta que fica é se esses vendedores estão encerrando posições ou se parte desse fluxo já representa compradores oportunistas montando posição nos preços mais baixos.
O cenário de curto prazo não é animador. Com o macro pressionado, juros altos e famílias endividadas, a recuperação das vendas mesmas lojas não deve acontecer tão cedo, na visão dos principais analistas. O próprio CEO sinalizou que o foco em 2026 será eficiência operacional, não crescimento agressivo.
O mercado agora precisa recalibrar as projeções de lucro pra 2026. Se os analistas cortarem estimativas, o múltiplo que parecia barato pode não ser tão atrativo assim. Por outro lado, a geração de caixa robusta e a alavancagem baixa são colchões importantes que diferenciam o Grupo Mateus de concorrentes mais endividados.
Pra investidores que buscam entender se GMAT3 se enquadra como ação de crescimento ou ação de valor neste momento, a resposta depende muito de quanto tempo o ciclo de consumo fraco no Nordeste vai durar. E essa é uma variável que nem os melhores analistas conseguem cravar com precisão.
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