
A Minerva Foods (BEEF3) entregou o melhor ano da sua história em 2025, com lucro líquido recorde de R$ 848,3 milhões e receita bruta de R$ 58 bilhões. Mas o mercado não gostou dos detalhes. No quarto trimestre, o lucro foi de R$ 85 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 1,567 bilhão do 4T24. A receita líquida trimestral atingiu R$ 14,2 bilhões, alta de 32,6% na comparação anual. Mesmo assim, as ações despencaram mais de 10% no pregão desta quinta-feira (19), negociadas a R$ 3,85.
O problema? O EBITDA do trimestre ficou abaixo do que o mercado esperava. E três casas de análise de peso emitiram sinais de cautela ao mesmo tempo. Resultado: dia de pânico pra quem carrega BEEF3.
O EBITDA consolidado no quarto trimestre foi de R$ 1,17 bilhão, crescimento de 24,1% em relação ao mesmo período de 2024. A margem EBITDA ficou em 8,2%. No acumulado do ano, o EBITDA bateu R$ 4,8 bilhões, avanço de 54,1% sobre 2024, com margem de 8,8% nos últimos 12 meses.
O lucro de R$ 85 milhões no trimestre representa uma virada importante frente ao prejuízo bilionário de um ano antes. Mas na comparação com o terceiro trimestre de 2025, quando a companhia havia lucrado R$ 120 milhões, houve uma queda de 29%. Isso acendeu um alerta.
A receita bruta consolidada de 2025 somou R$ 58 bilhões, alta de 59,7% sobre o ano anterior. As exportações representaram 60% do faturamento total. Os novos ativos adquiridos da Marfrig, que entraram no consolidado ao longo do ano, geraram receita bruta de R$ 12,1 bilhões, com volume de vendas de 481,9 mil toneladas.
Se teve um número que brilhou no balanço, foi a alavancagem. A relação dívida líquida sobre EBITDA dos últimos 12 meses caiu de 3,7x para 2,6x. Pra uma empresa que acabou de fazer a maior aquisição da sua história, essa desalavancagem mostra que a integração dos ativos da Marfrig tá gerando resultado operacional.
A meta da gestão pra 2026 é levar esse indicador pra perto de 2x. Se conseguir, seria o menor nível de alavancagem da Minerva em anos. Considerando que a companhia praticamente dobrou de tamanho com a aquisição, a velocidade da desalavancagem impressiona.
A gestão também indicou que os novos ativos já estão rodando em ritmo anualizado de receita em torno de R$ 16 bilhões, com EBITDA estimado entre R$ 1,4 bilhão e R$ 1,6 bilhão por ano. São números que justificam o preço pago pela operação, pelo menos no papel.
Apesar do crescimento de 24% no EBITDA comparado ao 4T24, o número ficou cerca de 9% abaixo das projeções do BTG Pactual. A frustração veio de margens menores do que o esperado, pressionadas por custos operacionais elevados.
O preço do gado subiu forte no período, o que comprime a margem bruta dos frigoríficos. Além disso, custos com frete e energia pesaram mais do que o mercado projetava. A margem bruta apresentou leve melhora na comparação trimestral, mas não o suficiente pra compensar a pressão das despesas.
Outro ponto que incomodou: a Minerva voltou a consumir caixa via capital de giro no trimestre, revertendo uma dinâmica que vinha sendo positiva. O consumo foi de aproximadamente R$ 600 milhões, influenciado pelo aumento de estoques e pela redução de adiantamentos de clientes. Pra quem acompanha o setor de proteínas, essa oscilação no capital de giro é típica de trimestres com alta do boi gordo, mas não deixou de preocupar.
A resposta do mercado foi dura. As ações BEEF3 recuaram mais de 10% no pregão seguinte à divulgação, com o papel sendo negociado na faixa de R$ 3,85.
O BB Investimentos rebaixou a recomendação de compra para neutra, mantendo o preço-alvo de R$ 8 para o final de 2026. O principal motivo do rebaixamento foram riscos geopolíticos: as salvaguardas impostas pela China sobre a carne bovina brasileira no fim de 2025 e o conflito entre Estados Unidos e Irã, que pode afetar a logística de exportações da Minerva para o Oriente Médio.
A XP Investimentos já vinha com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 7,20, e classificou os resultados como uma "surpresa negativa". O BTG Pactual também manteve a recomendação neutra, destacando que o cenário operacional ainda é positivo, mas com sinais de deterioração na geração de caixa e perspectivas mais desafiadoras pra 2026.
Três casas de peso com tom cauteloso no mesmo dia. Esse tipo de convergência costuma pesar forte no curto prazo, especialmente numa ação com base acionária que inclui muitos investidores de varejo.
O CFO Edison Ticle já sinalizou que 2026 será um ano de margens mais apertadas. A pressão vem de três frentes: o preço do gado, os custos logísticos e a energia. A companhia projeta crescimento de receita de até 10% pra 2026, impulsionado principalmente por repasse de preços no mercado externo.
Os dividendos propostos pela administração totalizam R$ 192,9 milhões para o exercício de 2025, somando os R$ 162,1 milhões já antecipados no fim do ano passado com os R$ 30,8 milhões complementares que serão votados na assembleia de abril. Pra quem esperava uma distribuição mais generosa num ano de lucro recorde, o valor pode ter parecido tímido.
O principal catalisador positivo continua sendo a maturação dos ativos adquiridos. Se a Minerva conseguir extrair sinergias adicionais e levar a alavancagem para perto de 2x, o papel pode voltar a atrair interesse. Mas no curto prazo, os riscos geopolíticos com China e Oriente Médio criam uma camada de incerteza que o mercado não consegue precificar com facilidade.
O setor de proteínas vive um momento paradoxal. A demanda global por carne bovina segue forte, com a América do Sul sendo a principal fornecedora. Mas os custos de produção estão em alta, especialmente no Brasil, onde o ciclo pecuário aperta a oferta de gado e pressiona os preços do boi gordo.
Entre os frigoríficos listados na B3, a JBS (JBSS3) continua sendo a preferida dos analistas pela diversificação geográfica e de proteínas. A MBRF (MBRF3) também enfrenta desafios parecidos com os da Minerva, com o BTG mantendo recomendação neutra pra ambas.
A Minerva se diferencia por ser a empresa mais exposta à exportação de carne bovina in natura da América do Sul. Isso é uma vantagem quando o câmbio ajuda e a demanda internacional tá aquecida. Mas vira vulnerabilidade quando surgem barreiras comerciais, como as salvaguardas chinesas, ou quando tensões geopolíticas atrapalham rotas de exportação.
Com a ação nos menores patamares do ano e três casas de análise em modo neutro, o consenso parece ser de que a Minerva precisa provar nos próximos trimestres que a integração dos ativos da Marfrig vai gerar o retorno prometido. Os números de 2025 mostram que o caminho é promissor. A questão é se o ambiente externo vai colaborar.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.