
A Tork Capital, gestora de ações fundada em julho de 2018 em plena euforia pré-pandemia, anunciou esta semana que vai encerrar as atividades. A casa comandada por Marcelo Magalhães e Murilo Arruda administrava cerca de R$ 600 milhões, divididos entre fundos long-only, um equity hedge recém-lançado e mandatos de fundos de pensão. O tamanho ficou pequeno demais pra bancar uma operação independente e rentável, e a decisão pela liquidação veio em meio a um dos piores momentos da indústria de fundos de ações brasileira.
O recado caiu bem no clima do mercado nesta quarta-feira (22). O Ibovespa fechou em queda de 1,57%, aos 193.058 pontos, pressionado por bancos e pelo receio com o cenário externo. O dólar subiu 0,24%, cotado a R$ 4,96. A sessão marcou o retorno da volatilidade depois que Donald Trump estendeu indefinidamente o cessar-fogo com o Irã sem fechar um acordo concreto.
Quando a Tork nasceu, em 2018, a Selic estava em 6,5% e o discurso do "fim da renda fixa" levava dinheiro novo pra bolsa todos os meses. Magalhães e Arruda, dois nomes com histórico no buy side e no sell side brasileiro, estruturaram a gestora com viés de value investing, algum tempero macro e foco em teses de médio e longo prazo. Deu certo por alguns anos. Mas a conjuntura virou.
Com a Selic de volta à casa dos dois dígitos em boa parte do ciclo 2022-2025, o custo de oportunidade do CDI virou adversário imbatível. Resgatar cota de FIA e comprar título público com juro real gordo virou trade padrão dos alocadores. A Tork, que já havia lançado um multimercado pra tentar diversificar a receita, não conseguiu escalar o suficiente pra cobrir a estrutura.
O caso da Tork está longe de ser isolado. Os fundos de ações brasileiros tiveram R$ 6,4 bilhões em resgates líquidos só entre janeiro e março de 2026. Nos últimos 12 meses, o saldo negativo chega a R$ 25 bilhões. Pra ter ideia do tamanho do problema, em 2025 inteiro as FIAs perderam R$ 54,5 bilhões em captação líquida, mesmo com retorno médio de 31,6% no ano. A matemática é cruel: o produto entrega, e o cotista vai embora do mesmo jeito.
Essa discrepância vem empurrando o setor pra um ciclo acelerado de consolidação. O modelo da gestora independente boutique, que viveu dias de glória entre 2016 e 2021, passou a ser inviável pra quem não consegue ultrapassar a casa de R$ 1 bilhão a R$ 2 bilhões em ativos sob gestão. Abaixo disso, a conta não fecha: taxa de administração precisa cobrir research, back office, compliance, tecnologia e salários. Se a receita encolhe por três anos seguidos, o resultado é déficit.
O detalhe irônico é que a Tork está fechando num momento em que o Ibovespa acumula alta de 50% em 12 meses e cravou novos recordes recentes, ultrapassando os 198 mil pontos em meados de abril. Seria razoável esperar que uma alta desse porte reacendesse a captação das FIAs. Não reacendeu.
Isso acontece porque o dinheiro que está comprando a bolsa brasileira hoje é majoritariamente estrangeiro, e entra via fundos passivos atrelados a índices ampliados de mercados emergentes. A lógica é outra: o investidor institucional lá fora olha Brasil como peso em carteira global, aumenta alocação, e o fluxo entra via composição do índice, sem passar por fundo ativo brasileiro. O cotista local, por sua vez, continua migrando pra renda fixa. Quem faz stock picking ativo na B3 fica sem cliente pra atender.
A sessão desta quarta reforçou o ambiente travado. O Ibovespa caiu 1,57%, mas ainda sustenta alta de 3,56% em abril. O dólar encerrou aos R$ 4,96, com leve pressão compradora. A bolsa operou em correção após ter renovado recorde histórico há pouco mais de uma semana, quando fechou acima dos 198 mil pontos pela primeira vez, com o dólar abaixo de R$ 5 pela primeira vez em dois anos.
Os grandes bancos foram o principal peso do pregão. Itaú, Bradesco e Banco do Brasil puxaram o índice pra baixo, numa correção técnica em papéis que vinham liderando o rally recente. No exterior, o mercado americano também operou mais cauteloso, ainda digerindo o cessar-fogo entre EUA e Irã sem acordo firmado. Petróleo e commodities metálicas oscilaram sem direção clara, o que tirou suporte de parte das blue chips locais.
Na comunidade da Traders Corretora, o fechamento da Tork acendeu um debate que vai além do caso específico. Muitos traders apontam que o ciclo atual acelerou uma mudança estrutural: o investidor brasileiro está cada vez mais direto, operando a própria carteira com ações do Ibovespa diretamente, fundos imobiliários ou ETFs, em vez de delegar pra um gestor ativo.
Essa mudança de comportamento tem base concreta. Com plataformas digitais, custos de corretagem próximos de zero e acesso a dados em tempo real, o cotista passou a se sentir confortável pra montar a própria carteira. Some a isso a tributação desfavorável dos FIAs, 15% sobre o lucro no resgate, contra a isenção em vendas até R$ 20 mil por mês em papel individual, e a decisão vira simples na matemática do bolso.
O dilema fundos de investimento vs ações diretas está sendo resolvido de vez na prática, na base da migração de capital. Pra quem ainda tem cota em gestora independente, o alerta é claro: o ciclo de fechamentos não acabou. A Tork é só o caso mais recente de uma lista que inclui boutiques respeitadas que entregaram o crachá nos últimos 18 meses.
Pra quem tinha posição nas carteiras da Tork, o processo de liquidação costuma ser ordenado. A gestora vende os ativos, quita as despesas e distribui o caixa aos cotistas de forma proporcional à posição. O risco está no timing: dependendo da liquidez dos papéis em carteira e das condições de mercado durante a venda, pode haver perda de valor em relação ao patrimônio marcado no dia do anúncio. Historicamente, a liquidação acontece em prazo de 30 a 90 dias.
Pra quem pensa em realocar o recurso, a decisão clássica entre manter gestão ativa ou migrar pra solução passiva volta ao centro do debate. Como mostramos em ações vs fundos de investimento, cada modelo tem custo, liquidez e perfil de risco próprios, e a escolha depende de quanto tempo e conhecimento o investidor quer aplicar na tarefa.
A leitura consensual entre gestores ouvidos é de que o fundo do poço pra indústria de FIAs só chega quando um corte relevante da Selic ativar o gatilho de realocação do alocador pessoa física. Enquanto o CDI continuar pagando próximo de dois dígitos em termos reais, o mandato ativo em bolsa vive num paradoxo incômodo: performa bem e perde dinheiro do mesmo jeito.
Pra investidores focados em dividendos ou em teses de longo prazo na bolsa, o fechamento da Tork funciona mais como aviso do que como crise. O Ibovespa continua em trajetória positiva no acumulado de 2026, mas a pergunta que ficou suspensa no mercado nesta quarta é outra: quem vai sobrar no buy side brasileiro pra fazer research fundamentalista nos próximos anos? O vácuo deixado pela saída de gestoras independentes pode redesenhar o cenário de stock picking do país, e esse é um impacto que vai além do balanço de um único pregão.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.