
O BTG Pactual (BPAC11) liberou nesta semana uma planilha gratuita pra ajudar investidores a acompanhar a temporada de resultados do 1T26, que começa a esquentar agora no fim de abril e vai até meados de maio. A ferramenta reúne num mesmo arquivo os principais números divulgados pelas empresas listadas na B3, com atualização contínua conforme os balanços saem.
A iniciativa não é nova no banco, que já virou praxe disponibilizar esse tipo de material a cada trimestre. Mas a edição do primeiro trimestre de 2026 chega num momento particularmente delicado: com a Selic ainda elevada, câmbio pressionado e sinais mistos no consumo doméstico, o mercado espera muita dispersão entre setores. Ou seja, vai ter empresa surpreendendo pra cima e outras entregando resultados bem abaixo do esperado.
A planilha é estruturada pra funcionar como um painel consolidado. Cada aba agrupa empresas por setor, o que facilita muito pra quem quer comparar concorrentes diretos. Os principais campos cobertos são:
Receita líquida, EBITDA e margem EBITDA, lucro líquido e margem líquida, variações YoY e QoQ, dívida líquida e alavancagem, além de indicadores operacionais específicos de cada setor, como volume produzido pras mineradoras, GMV pro e-commerce, same-store sales pro varejo e carteira de crédito pros bancos.
Pra quem opera swing trade ou faz análise fundamentalista, esse nível de granularidade economiza horas. Normalmente você teria que entrar no RI de cada empresa, baixar o release e o ITR, tabular à mão e só depois conseguir comparar. A planilha do BTG faz esse trabalho bruto e deixa o investidor focado só na interpretação.
O primeiro trimestre de 2026 chega carregado de temas que vão aparecer nos balanços. Três deles se destacam:
A Selic segue em dois dígitos e isso aparece de duas formas distintas nos balanços. Pros bancos, especialmente o próprio BTG, Itaú e Santander, o juro alto tende a inflar a margem financeira. Já pras empresas endividadas, como varejistas e companhias aéreas, a despesa financeira continua comendo uma fatia enorme do resultado operacional.
O dólar rodou acima de R$ 5,80 durante boa parte do trimestre, o que mexe direto com exportadoras e commodities. Vale, Suzano, JBS e Petrobras tendem a se beneficiar na receita, mas os balanços também vão carregar efeitos de variação cambial em dívidas dolarizadas. Dá pra ter distorções importantes na última linha por conta disso.
O crescimento do PIB veio mais fraco que o esperado no começo do ano, e isso aparece nos números de varejo, bancos médios e construtoras. Ao mesmo tempo, desemprego baixo e massa salarial resiliente seguram parte do tombo. Essa tensão entre forças opostas deve gerar leituras bem diferentes entre empresas do mesmo setor.
A agenda tradicional começa pelos bancos. Itaú, Santander e Bradesco costumam reportar nas duas primeiras semanas de maio. O próprio BTG divulga seus números na primeira quinzena também. Na sequência, entram as big caps de commodities, Vale e Petrobras, normalmente no fim de abril e começo de maio.
Varejo e tecnologia vêm depois, concentrados nas semanas finais de maio. Magazine Luiza, Via, Americanas, Lojas Renner e Mercado Livre (via BDR MELI34) formam o grupo mais aguardado. Consumo discricionário é o setor que provavelmente vai mostrar mais dispersão, com vencedores e perdedores muito evidentes.
Pra quem quer se organizar, vale conferir o guia Calendário de resultados: como usar no trading e nos investimentos. A lógica de mapear as datas com antecedência evita aquela correria de última hora e ajuda a calibrar exposição antes do balanço.
Ter a planilha em mãos é só o começo. O que realmente diferencia um investidor informado é o que ele faz com os números. Algumas leituras importantes pra 1T26:
Comparação YoY versus QoQ. O primeiro trimestre tem forte sazonalidade em vários setores. Varejo cai muito depois do Natal, agro tem colheita concentrada, bancos ajustam provisões. Comparar com o mesmo trimestre do ano anterior é quase sempre mais informativo do que comparar com o 4T25.
Olhar além do lucro líquido. O lucro pode ser distorcido por itens não recorrentes, créditos tributários, venda de ativos ou impairments. EBITDA ajustado, geração de caixa operacional e margem bruta costumam ser métricas mais limpas pra avaliar a saúde operacional.
Acompanhar guidance e outlook. Mais importante que o número do trimestre é o que a companhia sinaliza pros próximos. Revisão de guidance pra cima ou pra baixo mexe bem mais com o preço da ação do que o resultado em si. Vale ler o release com atenção e, se der, participar do call de resultados.
Nosso conteúdo completo sobre o tema está em Temporada de resultados: como acompanhar earnings e operar. Pra quem opera, a temporada é um dos momentos mais ricos de oportunidades do ano, mas também um dos mais traiçoeiros. Volatilidade dispara, spread alarga e gap de abertura virou regra, não exceção.
Nenhum resultado corporativo existe no vácuo. O pano de fundo macroeconômico do 1T26 ajuda a explicar grande parte das surpresas positivas e negativas que vão pintar.
A inflação medida pelo IPCA segue acima do teto da meta e os juros reais no Brasil estão entre os maiores do mundo. Isso cria um ambiente de aperto monetário prolongado, que castiga empresas endividadas e favorece quem tem caixa líquido ou capacidade de repassar preço. Pra entender melhor esse mecanismo, vale a leitura de IPCA: o que é, como acompanhar e como afeta investimentos.
No lado externo, o Fed continua com postura cautelosa, juros americanos seguem altos e o dólar permanece estruturalmente forte frente ao real. Isso beneficia exportadoras brasileiras, mas limita a entrada de fluxo estrangeiro na bolsa local. Na prática, a Bovespa segue dependente de investidor institucional doméstico e pessoa física, o que reduz liquidez marginal em momentos de incerteza.
Historicamente, os balanços do 1T moldam o sentimento de mercado pra todo o primeiro semestre. Uma temporada forte costuma trazer revisões de estimativas pra cima e sustentar movimentos de alta até os resultados do 2T. O contrário também é verdade: balanços fracos e guidance cortado podem manter pressão vendedora durante meses.
A dispersão setorial esperada pra 1T26 sugere que comprar ou vender índice cego pode ser menos eficaz do que operar em cima de teses específicas. Bancos devem continuar entregando, commodities dependem muito de preço médio e câmbio, e consumo discricionário provavelmente vai dividir águas entre nomes bem posicionados e outros ainda atolados em dívida.
A planilha do BTG não substitui análise aprofundada, mas entrega um atalho valioso pra quem quer acompanhar a temporada sem se perder em planilhas próprias. Pra investidores que estão começando a construir seu processo de análise, vale também organizar uma base própria, como ensinamos em Planilha de controle de trading: como montar a sua do zero.
O timing da divulgação foi pensado: ela saiu antes da enxurrada de balanços que começa nos próximos dias. Quem vai operar a temporada do 1T26 tem agora em mãos uma ferramenta que, até poucos anos atrás, era privilégio de mesas institucionais. É mais um sinal de que o mercado brasileiro tá ficando cada vez mais democrático em acesso a informação, mesmo que a qualidade da análise dependa, no fim das contas, de cada investidor.
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