
A ABB, gigante suíça de automação e motores industriais e principal concorrente global da WEG (WEGE3), abriu a temporada de resultados do 1T26 com números fortes e deixou o mercado com uma pergunta na cabeça: será que a brasileira vem no mesmo embalo quando divulgar seu balanço, marcado pra 29 de abril?
Os dados da ABB saíram nesta quarta-feira (22/04). Receita comparável cresceu 11% no trimestre, com faturamento total de US$ 8,73 bilhões (alta de 18% na base reportada). Os pedidos pularam 24%, levando o backlog (estoque de pedidos a entregar) ao recorde de US$ 27,5 bilhões. O EBITA operacional chegou a US$ 2,05 bilhões, com margem de 23,5%, e o lucro por ação subiu 21%. O fluxo de caixa livre de US$ 1,3 bilhão é o mais forte já registrado pela suíça num primeiro trimestre.
Pra quem acompanha WEGE3, o dado que interessa de verdade está no detalhe das divisões. A área de Motion da ABB, que vende motores elétricos e drives industriais, é justamente a que tem maior sobreposição com o negócio principal da WEG. E foi ali que veio a pista pros investidores: receita +7% e pedidos comparáveis +9% no trimestre. Já a divisão de Eletrificação viu pedidos avançarem 44% em termos comparáveis, com demanda de data centers crescendo em três dígitos.
ABB e WEG operam em mercados muito parecidos: motores industriais, automação, transformadores, equipamentos de geração e transmissão. Quando a suíça entrega números fortes, principalmente na divisão Motion, analistas tendem a ler isso como sinal de que a demanda global por equipamentos elétricos industriais segue firme. E isso, em tese, respinga positivo na WEG.
A correlação não é perfeita. A ABB tem exposição mais pesada a data centers e à Europa, enquanto a WEG depende mais de Brasil, América Latina e ventos da transição energética. Mesmo assim, o mercado costuma usar o balanço da suíça como preview do que pode vir da brasileira, ainda mais quando as duas divulgam tão próximas uma da outra.
O Itaú BBA ponderou, no entanto, que o efeito positivo pra WEG pode ser limitado no 1T26 por fatores financeiros. O real se valorizou ante o dólar no trimestre, o que pressiona a receita da companhia (boa parte vem do exterior) quando convertida pra moeda brasileira. Somado a isso, dados da Secex mostraram que as exportações da WEG caíram cerca de 6% na base anual no 1T26, dado que esfria um pouco a euforia com o resultado da ABB.
O mercado chega no dia 29 de abril com expectativas mistas. O consenso dos analistas projeta queda de 2% na receita em base anual, com margem EBITDA em torno de 21,8%. O JPMorgan trabalha com margem EBITDA um pouco melhor, de 22,5%, e vê o trimestre como "morno", já tendo colocado a ação em observação negativa nas últimas semanas.
Bradesco BBI e Itaú BBA convergem num ponto importante: os reajustes de preços da WEG no trimestre não compensaram totalmente a alta de insumos, em especial cobre e prata, cujos preços dispararam nos últimos meses e são parte essencial da fabricação de motores e transformadores. Isso deve comprimir margens no 1T26.
Se você quer entender como funciona o calendário de divulgações e como operar em torno de balanços, vale conferir este guia sobre Temporada de resultados: como acompanhar earnings e operar.
A tese estrutural da WEG continua ancorada em três drivers principais:
Transição energética: a empresa fornece equipamentos pra parques eólicos, solares e, mais recentemente, pra sistemas de armazenamento em baterias (BESS), um mercado que está em franca expansão nos Estados Unidos e na Europa.
Eletrificação e data centers: a corrida da inteligência artificial está exigindo uma onda gigantesca de novas redes elétricas, transformadores e sistemas de distribuição. O JPMorgan destacou que a WEG está bem posicionada nesse vetor, com demanda por transformadores puxada principalmente por substituição de equipamentos antigos e novas conexões de rede.
Retomada industrial global: o ciclo de investimentos em automação, manufatura avançada e reindustrialização nos EUA (o chamado reshoring) é um vento de cauda de longo prazo pra fabricantes de motores e automação como WEG e ABB.
WEGE3 entra no 1T26 negociando a múltiplos ainda salgados pros padrões da bolsa brasileira: cerca de 32 vezes lucro e 22 vezes EV/EBITDA estimados pra 2026, segundo dados consolidados pelos analistas. Isso significa que boa parte do otimismo com transição energética, IA e data centers já está embutida no preço. Pra ação destravar dali, o balanço precisa entregar não só números em linha, mas surpresa positiva ou guidance mais animado pros próximos trimestres.
O Itaú BBA mantém recomendação outperform (equivalente a "comprar") com preço-alvo de R$ 50 pra o fim do ano, destacando que o risco nas estimativas de 2026 e 2027 está mais pro lado positivo do que pro negativo. Já o JPMorgan segue com cautela no curto prazo, mesmo reconhecendo que a companhia é um "nome de alta qualidade" pra se ter em carteira.
Aqui cabe um alerta de humildade. O fato de a ABB ter entregado um bom trimestre não garante nada sobre WEG. As duas operam em moedas diferentes, com mixes de produtos distintos e exposição geográfica muito particular. O que o resultado da ABB realmente mostra é que a demanda global por equipamentos elétricos industriais continua robusta, e que o pipeline de pedidos (o famoso backlog) segue cheio. Isso é um sinal macro positivo pro setor, mas não elimina os desafios específicos da WEG no 1T26, em especial o câmbio e os custos de matérias-primas.
Pra quem ainda está conhecendo a companhia, vale a leitura deste Como investir em WEG (WEGE3): guia completo, que detalha o modelo de negócio, a estrutura acionária e o histórico de geração de valor da empresa.
O resultado forte da ABB, somado aos números recentes de Siemens, Schneider Electric e Eaton, reforça uma tese que vem ganhando corpo nos últimos trimestres: o mundo está entrando num superciclo de eletrificação. Data centers pra IA consumindo quantidades inéditas de energia, carros elétricos exigindo infraestrutura nova de carregamento, redes de transmissão envelhecidas nos EUA e Europa precisando de substituição em massa. Tudo isso é combustível pra fabricantes de motores, transformadores e automação industrial.
A WEG surfa essa onda há pelo menos dois anos, e a ação refletiu isso com ganhos expressivos até meados de 2025, antes de entrar num período de correção e consolidação que persiste até aqui. O 1T26 é mais um teste pra confirmar se a tese de longo prazo continua intacta, mesmo com turbulências pontuais no câmbio e nos custos.
Pra quem quer se organizar pra acompanhar todas as datas relevantes dos próximos meses, este guia sobre Calendário de resultados: como usar no trading e nos investimentos ajuda a montar uma agenda de acompanhamento eficiente.
Nas próximas duas semanas até a divulgação da WEG, três variáveis merecem atenção especial:
O primeiro é o câmbio. Se o real continuar valorizando ante o dólar, a pressão sobre a receita reportada em reais segue firme. Qualquer reversão desse movimento pode aliviar um pouco as expectativas pros próximos trimestres.
O segundo é o preço do cobre e da prata. Ambas as commodities são insumos críticos pra fabricação dos motores e transformadores da WEG. Uma acomodação de preços daria fôlego pras margens.
O terceiro é o fluxo estrangeiro. Como WEGE3 é uma das queridinhas dos gestores globais em posição em Brasil, movimentos de entrada ou saída de capital externo podem acentuar a volatilidade do papel antes e depois do balanço.
Com o backlog da ABB batendo recorde histórico de US$ 27,5 bilhões, a mensagem macro pro setor é de demanda firme. Resta saber se a WEG consegue converter esse vento de cauda em números que justifiquem, ou pelo menos sustentem, os múltiplos com que a ação ainda negocia.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.