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Dólar preso pela Selic: armadilha à vista?

Publicado em
30/3/2026
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Dólar preso pela Selic: armadilha à vista?
Dólar preso pela Selic: armadilha à vista?
Dólar preso pela Selic: armadilha à vista?

O dólar comercial encerrou a semana cotado a R$ 5,2574, acumulando leve alta após oscilar entre R$ 5,21 e R$ 5,31 ao longo dos últimos cinco pregões. O que segurou o real de escorregar pra além de R$ 5,30 foi, mais uma vez, o diferencial de juros brutalmente favorável ao Brasil: com a Selic a 14,75% e o Fed Funds entre 3,50% e 3,75%, a diferença de quase 11 pontos percentuais transforma o real numa das moedas mais atrativas do mundo pra operações de carry trade.

Mas se os juros seguram de um lado, o cenário externo puxa do outro. O petróleo Brent fechou a sexta-feira a US$ 115,45 o barril, acumulando alta superior a 55% só em março. A taxa de câmbio virou refém de uma guerra de forças: de um lado, dinheiro estrangeiro entrando pra capturar rendimento; do outro, aversão a risco global puxando capital de volta pros Estados Unidos.

O que aconteceu na semana e por que importa

A semana foi marcada por três vetores principais. Primeiro, o FOMC manteve os juros americanos inalterados em 3,50%-3,75% na reunião de 18 de março, com apenas um voto dissidente pedindo corte de 0,25 p.p. O dot plot sinaliza mais um corte em 2026 e outro em 2027, mas sem data definida. A projeção de inflação (PCE) ficou em 2,7% pro ano, acima da meta de 2%.

Segundo, o Copom cortou a Selic em 0,25 p.p. na mesma data, levando a taxa de 15,00% pra 14,75%. Foi o primeiro corte desde maio de 2024. A decisão foi unânime, mas a ata deixou claro que o BC não se comprometeu com novos cortes. A frase-chave: "a magnitude e a calibragem do ciclo serão determinadas ao longo do tempo". Na prática, o BC tá dizendo que cada reunião será um jogo novo.

Terceiro, a guerra no Irã continuou ditando o humor dos mercados. Trump adiou o prazo do ultimato de ataque por 10 dias, até 6 de abril, depois que Teerã fez um gesto de boa vontade permitindo a passagem de 10 navios-tanque pelo Estreito de Ormuz. Mesmo assim, o estreito segue praticamente fechado pra trânsito normal, comprometendo cerca de 20% do fluxo global de petróleo e GNL.

Por que o carry trade ainda favorece o real?

A matemática é simples e poderosa. Um investidor estrangeiro que toma dinheiro emprestado nos EUA a 3,75% e aplica em títulos brasileiros a 14,75% captura um spread de 11 pontos percentuais ao ano. Mesmo descontando o risco cambial e o CDS de 5 anos do Brasil (que fechou a semana em 138,75 pontos-base), a operação continua rentável.

Goldman Sachs e ING identificaram o real como uma das melhores posições de carry entre emergentes. A Invesco também está comprada em BRL, junto com lira turca e rand sul-africano. Em 2025, estratégias de carry em emergentes renderam 17%, o melhor resultado desde 2009.

Pra quem quer entender melhor como essa dinâmica de juros funciona na prática, vale conferir o conceito de juros compostos e como eles se aplicam tanto em renda fixa quanto no raciocínio de arbitragem cambial.

O que pode dar errado? Petróleo e fiscal

O principal risco pra essa tese é o choque do petróleo. Com o Brent acima de US$ 115 e a possibilidade de escalada militar no Irã, a pressão inflacionária global pode forçar bancos centrais a reverter cortes de juros. Se o Fed pausar ou reverter a trajetória de queda, o diferencial que protege o real encolhe.

O segundo risco é doméstico. 2026 é ano eleitoral no Brasil, e a dívida pública caminha pra 95% do PIB. A meta de superávit primário de 0,25% do PIB é vista com ceticismo pelo mercado. A tentação de expandir gastos em ano de eleição é real, e qualquer sinal de afrouxamento fiscal pode derrubar a credibilidade da trajetória de juros.

O Boletim Focus projeta o dólar em R$ 5,50 no fim de 2026. Ou seja, o mercado espera uma depreciação moderada do real nos próximos meses, mesmo com o carry favorável.

Como ficaram os mercados globais?

Na Ásia, o Nikkei recuou 0,37% na sexta-feira, enquanto Shanghai subiu 0,26% e Hang Seng avançou 0,45%. Na Europa, o Stoxx 600 operou pressionado, devolvendo parte dos ganhos acumulados na semana.

O DXY (índice do dólar) fechou próximo de 100,32, acumulando queda de cerca de 1,2% no mês. Apesar da demanda por segurança provocada pela guerra, o dólar perdeu força contra uma cesta de moedas nos últimos 12 meses (queda de 3,5%), refletindo o ciclo de cortes do Fed e a redistribuição de fluxos pra emergentes.

No Brasil, o Ibovespa teve a primeira semana positiva de março, subindo 3,03% e fechando em 181.556 pontos. No mês, porém, o índice acumula queda de cerca de 5,9%. No ano, o saldo ainda é positivo: +10,27%.

O que esperar do pregão de segunda-feira?

O investidor que abre o terminal na segunda-feira precisa monitorar três coisas. Primeiro, qualquer desdobramento da situação no Estreito de Ormuz durante o fim de semana. O prazo de Trump vence em 6 de abril, e qualquer sinal de escalada pode jogar o Brent acima de US$ 120, pressionando moedas emergentes.

Segundo, os dados de atividade econômica nos EUA que saem ao longo da semana. O mercado de trabalho americano dá sinais de desaceleração, e qualquer dado mais fraco pode reforçar a aposta de corte pelo Fed, beneficiando o real.

Terceiro, ficar de olho na comunicação do Banco Central brasileiro. A ata do Copom foi deliberadamente vaga sobre os próximos passos. Qualquer discurso de diretores do BC pode dar pistas sobre o ritmo de cortes. Se o mercado começar a precificar cortes menores (ou uma pausa), o carry fica ainda mais gordo, o que tende a segurar o dólar abaixo de R$ 5,30.

Entender como a curva de juros se comporta é fundamental pra antecipar esses movimentos. Os vértices mais longos da curva brasileira já precificam Selic terminal entre 12% e 12,5%, mas essa projeção pode mudar rapidamente dependendo do petróleo e da postura do BC.

Tarifas americanas seguem no radar

Outro fator que não pode ser ignorado é a política comercial dos EUA. As tarifas de 10% sobre importações brasileiras (impostas em abril de 2025) continuam vigentes, e as exportações do Brasil pros EUA caíram 20,3% em fevereiro de 2026. Em compensação, as exportações pra China saltaram 38,7%, mostrando a redirecionamento de fluxos comerciais.

A Suprema Corte americana derrubou parte das tarifas baseadas no IEEPA em fevereiro, mas as tarifas sob a Seção 232 permanecem. Pra o real, o impacto é indireto: menos dólares entrando pela balança comercial com os EUA, parcialmente compensados pelo aumento do comércio com a China.

O quadro geral pra o investidor brasileiro

O cenário de curto prazo é de volatilidade contida, mas com risco de cauda elevado. O diferencial de juros funciona como um colchão que amortece choques, mas não elimina o risco. Um evento geopolítico extremo (escalada total no Irã, fechamento prolongado do Ormuz, petróleo acima de US$ 130) poderia provocar uma fuga de capitais de emergentes que nenhum carry sustenta.

Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Uma parte aposta que o real vai se fortalecer gradualmente conforme o carry atrai fluxo, mirando R$ 5,10 até junho. Outra parte vê o dólar voltando pra R$ 5,40-5,50 se o conflito no Oriente Médio se agravar. O consenso, se é que existe um, é que a faixa de R$ 5,20 a R$ 5,35 deve prevalecer nas próximas semanas, salvo surpresa geopolítica.

Pra quem está pensando em como posicionar a carteira nesse cenário, vale lembrar que diversificação e horizonte de tempo continuam sendo as melhores ferramentas de proteção. Juros altos compram tempo, mas não compram certeza.


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