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US$ 1 trilhão em risco: a passagem que controla tudo

Publicado em
28/3/2026
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US$ 1 trilhão em risco: a passagem que controla tudo
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US$ 1 trilhão em risco: a passagem que controla tudo

Todo mundo fala do petróleo quando o assunto é Estreito de Ormuz. O Brent bateu US$ 110 o barril nesta semana, acumulando alta de quase 50% desde o início do conflito entre EUA, Israel e Irã. Mas a crise que se desenrola naquela faixa de água de 33 km de largura vai muito, muito além do crude. Fertilizantes, gás natural liquefeito, enxofre, hélio, plásticos e até medicamentos estão com o fluxo estrangulado. E o Brasil, que importa 85% dos fertilizantes que usa na agricultura, está na linha de tiro.

Com o tráfego marítimo reduzido em cerca de 70% desde que a Guarda Revolucionária do Irã declarou o estreito fechado em 2 de março, o impacto já aparece nos preços. O contrato futuro da ureia pra abril de 2026 está sendo negociado perto de US$ 700 por tonelada. Em fevereiro, o preço médio FOB de importação pelo Brasil era de US$ 405. Um salto de 73% em menos de um mês.

O que passa por Ormuz que não é petróleo?

A narrativa do petróleo domina os noticiários, mas o Estreito de Ormuz é um gargalo pra uma lista enorme de commodities que movem a economia global. Veja o tamanho do problema:

Gás natural liquefeito (GNL): cerca de 20% de todo o GNL exportado no mundo sai do Golfo Pérsico por Ormuz. O Catar, que é o maior exportador global, teve 93% das suas exportações de GNL bloqueadas. Pior: ataques iranianos atingiram o campo de Pars, responsável por 17% da capacidade de produção catariana, forçando a suspensão de parte da operação.

Fertilizantes: um terço de todo o comércio marítimo global de fertilizantes passa pelo estreito. Estamos falando de amônia, ureia e fosfatos, insumos que alimentam a produção agrícola de meio mundo. A região do Golfo concentra algumas das maiores fábricas de fertilizantes do planeta, todas dependentes do gás natural como matéria-prima.

Enxofre: 44% da produção mundial de enxofre transita por Ormuz. Esse é um dado que quase ninguém menciona, mas o enxofre é essencial na fabricação de fertilizantes e no refino de metais como cobre, cobalto e níquel.

Petroquímicos e plásticos: a nafta, matéria-prima dos polímeros, já ultrapassou US$ 1.000 por tonelada em Singapura, uma alta de 60%. Polipropileno, polietileno, poliestireno, PVC: tudo ficou mais caro. Isso se espalha pra embalagens, peças industriais e praticamente qualquer produto que use plástico na cadeia.

Hélio: o Catar é um dos maiores produtores globais de hélio, usado em equipamentos médicos (ressonância magnética), semicondutores e pesquisa científica. Com Ormuz travado, hospitais e indústrias de tecnologia na Ásia já enfrentam escassez.

Por que o Brasil está tão exposto?

O agronegócio brasileiro é a espinha dorsal das exportações do país, mas depende pesadamente de insumos importados. O Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome. É uma vulnerabilidade estrutural que ficou escancarada em 2022, quando a guerra na Ucrânia já havia mostrado o risco. Agora, com Ormuz, o problema se repete em escala potencialmente maior.

Os números de março já mostram o estrago. A média diária de importação de fertilizantes nas três primeiras semanas do mês foi de 118 mil toneladas, um recuo de 13,9% em relação ao mesmo período de 2025. O Ministério da Agricultura ativou um grupo de monitoramento de insumos pra acompanhar a situação e avaliar riscos de desabastecimento.

A conta é simples: fertilizante mais caro significa custo de produção mais alto, que se transforma em alimento mais caro no supermercado. A ONU já emitiu alerta sobre o risco de crise alimentar no Sul Global, justamente pela escassez de fertilizantes nitrogenados que dependem do gás natural do Golfo Pérsico.

O efeito dominó nos mercados: semana que vem promete tensão

O investidor que acompanha apenas o preço do petróleo e seus derivados na B3 está vendo só metade do filme. A crise de Ormuz tem um efeito cascata que atinge setores inteiros da bolsa brasileira.

Agronegócio: empresas como SLC Agrícola, BrasilAgro e produtoras de grãos enfrentam pressão nos custos. Se o plantio da safrinha sofrer com fertilizante caro ou escasso, a produtividade cai e o impacto aparece nos balanços.

Petroquímica e plásticos: Braskem e empresas do setor de embalagens lidam com nafta mais cara. Parte desse custo é repassado pro consumidor final, mas as margens podem ser comprimidas no curto prazo.

Energia: o GNL mais caro pressiona o custo de geração termelétrica. Num cenário de seca (que já preocupa pro segundo semestre), a dependência de térmicas pode transformar isso num problema de bandeira tarifária.

Mineração e siderurgia: a escassez de enxofre afeta o refino de cobre e níquel. Empresas que dependem desses metais como insumo podem sentir o aperto.

O que esperar na semana de 31 de março

O mercado abre segunda-feira com o prazo estendido por Trump ainda no radar. O presidente americano adiou pra 6 de abril o plano de ataque à infraestrutura energética iraniana, afirmando que as negociações com Teerã estão indo "muito bem". Mas sete países já emitiram comunicado conjunto pedindo a reabertura do estreito, e a pressão diplomática aumenta.

Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Parte vê a extensão do prazo como sinal de que um acordo pode sair, o que derrubaria o Brent e aliviaria toda a cadeia. Outra parte aponta que o Irã não deu nenhum sinal concreto de recuo e que a postura da Guarda Revolucionária segue firme. A segunda semana de abril pode ser o ponto de inflexão.

Pra quem opera com exposição a mercados europeus e asiáticos via BDRs, a atenção é redobrada. Europa e Ásia são os maiores compradores de GNL e petróleo que passam por Ormuz. Cerca de 84% do petróleo e 83% do GNL que cruzam o estreito têm como destino o mercado asiático. Qualquer escalada ou desescalada impacta diretamente essas economias.

Dados pra acompanhar na próxima semana

Além do desenrolar geopolítico em si, há indicadores econômicos relevantes. O PMI industrial da China sai na segunda-feira (31/03) e pode dar o tom sobre a demanda asiática por commodities. Se vier fraco, o mercado interpreta como menos pressão de demanda sobre o petróleo e insumos bloqueados. Se vier forte, a pressão de preços se intensifica.

No Brasil, o Boletim Focus de segunda deve trazer revisões pra cima na expectativa de inflação, refletindo o impacto dos combustíveis e fertilizantes mais caros. O IPCA-15 de março já havia acendido um alerta, e o mercado de juros pode reagir.

No cenário global, fique de olho nos dados de estoques de petróleo dos EUA (quarta-feira) e no payroll americano (sexta-feira, 4 de abril). O emprego forte nos EUA pode reforçar a postura hawkish do Fed, que já lida com a pressão inflacionária do choque energético.

O risco que ninguém precifica: a crise alimentar

O ponto mais preocupante de toda essa história talvez não seja o barril a US$ 110 ou a nafta a US$ 1.000. É o preço do arroz, do trigo e do milho daqui a seis meses.

Quando um terço dos fertilizantes do mundo fica travado, o impacto não aparece imediato na gôndola do supermercado. Mas aparece no próximo ciclo de plantio. Se a safra 2026/2027 do Hemisfério Norte for plantada com menos insumo, a produtividade cai. E aí o efeito chega nos preços dos grãos, que alimentam a cadeia de proteína animal, que alimenta o varejo.

O Carnegie Endowment for International Peace publicou um estudo nesta semana alertando que a crise de fertilizantes causada pelo bloqueio de Ormuz pode desencadear uma crise alimentar global, especialmente em países do Sul Global que dependem de importação de grãos.

Pra o Brasil, que é exportador líquido de alimentos, o cenário é dúbio. De um lado, preços mais altos de commodities agrícolas beneficiam receitas de exportação. Do outro, o custo de produção sobe e a inflação doméstica de alimentos pressiona o consumo interno e a política monetária.

Como o investidor pode se posicionar

Não existe resposta simples. A crise de Ormuz é um evento geopolítico com desfecho binário: ou se resolve com acordo (e os preços desabam) ou escala (e sobem mais). O que dá pra fazer é entender a cadeia de transmissão.

Quem tem exposição a commodities energéticas está surfando a onda, mas precisa calibrar o risco de reversão. Quem opera empresas do agro precisa monitorar o custo de insumos e a safra. Quem tem posições abertas na B3 deve prestar atenção nos leilões de abertura de segunda, que podem vir com gaps significativos dependendo do noticiário do fim de semana.

O Brent a US$ 110 é manchete. Mas a ureia a US$ 700, o GNL do Catar parado e o hélio que não chega nos hospitais asiáticos são as histórias que vão definir o impacto real dessa crise nos próximos meses. E o mercado ainda não precificou tudo isso.


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