
A Bradespar (BRAP4) voltou a registrar prejuízo no quarto trimestre de 2025, ampliando as perdas em relação ao mesmo período do ano anterior. A holding, que tem como único investimento relevante sua participação na Vale (VALE3), sentiu diretamente o impacto do rombo contábil de US$ 3,844 bilhões que a mineradora reportou no 4T25. O resultado reforça o alerta que o mercado já vinha dando: quem compra BRAP4 compra Vale, pra melhor ou pra pior.
No 4T24, a Bradespar já tinha reportado prejuízo líquido de R$ 86,9 milhões, revertendo um lucro de R$ 524 milhões no 4T23. Agora, com o impacto proporcionalmente maior da Vale no último trimestre de 2025, a expectativa é de que o número tenha se deteriorado de forma significativa. A receita operacional da holding depende integralmente da equivalência patrimonial e dos juros sobre capital próprio (JCP) pagos pela mineradora.
O prejuízo líquido atribuído aos acionistas da Vale foi de US$ 3,844 bilhões no quarto trimestre de 2025. Pra colocar em perspectiva, no 4T24 a perda havia sido de US$ 694 milhões. Ou seja, o prejuízo se multiplicou por mais de cinco vezes em apenas um ano.
O principal vilão do resultado foram os impairments de US$ 3,5 bilhões nos ativos de níquel da Vale Base Metals, no Canadá. A empresa revisou pra baixo suas premissas de preço de longo prazo pro níquel, o que obrigou uma baixa contábil pesada nos ativos da região. Além disso, houve uma redução de US$ 2,8 bilhões em impostos diferidos de subsidiárias e provisões adicionais relacionadas à Samarco e Brumadinho.
Esses ajustes são contábeis e não representam saída efetiva de caixa. Mas, na contabilidade da Bradespar, o efeito é direto: a equivalência patrimonial registra a proporção do resultado da Vale, incluindo todas essas baixas. E isso puxa o resultado da holding pro vermelho.
Se a gente tira os itens não recorrentes da conta, o cenário muda completamente. O lucro proforma da Vale, que exclui efeitos de Brumadinho, descaracterização de barragens e impairments, foi de US$ 1,4 bilhão no 4T25. Isso representa alta de 68% na comparação com o mesmo período de 2024.
O EBITDA ajustado atingiu US$ 4,588 bilhões, crescimento de 21% na base anual. Já o EBITDA proforma chegou a US$ 4,8 bilhões, com margem de 44%, avanço de 17% contra o 4T24 e 10% frente ao 3T25. Números que mostram uma operação rodando bem acima das expectativas.
A receita líquida somou US$ 11,1 bilhões no trimestre, alta de 9% na comparação anual e 6% contra o trimestre anterior. No acumulado de 2025, a receita bateu US$ 38,4 bilhões, praticamente estável frente a 2024, sustentada por maiores volumes de vendas e preços mais fortes de minério de ferro e cobre.
A produção de minério de ferro atingiu 90,4 milhões de toneladas no 4T25, alta de 6% na comparação anual. No acumulado de 2025, a Vale produziu 336 milhões de toneladas, crescimento de 2,6% e acima do teto do guidance da empresa (que era de 325 a 335 milhões de toneladas). A companhia cumpriu todos os guidances operacionais do ano.
O preço realizado dos finos de minério de ferro ficou em US$ 95,4 por tonelada, alta de 3% na comparação anual. Esse número é relevante porque mostra que a Vale conseguiu capturar prêmios de qualidade mesmo num ambiente de preços internacionais voláteis.
Do lado da dívida, a dívida líquida expandida caiu 5% na comparação anual, para US$ 15,5 bilhões, dentro da faixa meta de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões que a administração definiu. A geração de caixa operacional continuou robusta e permitiu que a empresa reduzisse seu endividamento mesmo pagando dividendos relevantes ao longo do ano.
A Bradespar é uma holding pura. Isso significa que seu resultado operacional vem integralmente da equivalência patrimonial com a Vale e dos JCP recebidos da mineradora. Quando a Vale lucra, a Bradespar lucra. Quando a Vale toma um impairment bilionário, a Bradespar sangra.
No primeiro semestre de 2025, a holding ainda vinha lucrando. No 1T25, o lucro foi de R$ 318 milhões, queda de 7,2% contra o mesmo período de 2024. No 2T25, foram R$ 450 milhões, recuo de 16% na comparação anual. A tendência de queda nos lucros já era visível trimestre a trimestre, refletindo a pressão sobre os resultados da Vale.
No ano de 2024 como um todo, a Bradespar lucrou R$ 1,19 bilhão, uma queda de 37% frente a 2023. A holding distribuiu dividendos relevantes aos acionistas, com proventos de R$ 0,89 por ação pagos em março de 2026 e uma proposta de distribuição complementar de R$ 350 milhões aprovada pelo conselho.
Quem investe em BRAP4 precisa entender essa dinâmica. Não existe diversificação dentro da holding: se a Vale vai mal, a Bradespar vai junto. E se a Vale toma uma baixa contábil de US$ 6,3 bilhões num único trimestre (somando níquel e impostos diferidos), o impacto na equivalência patrimonial é inevitável.
As ações da BRAP4 acumulam alta de cerca de 33% nos últimos 12 meses, negociadas na faixa de R$ 22. O dividend yield da Bradespar ficou em torno de 7% nos últimos 12 meses, com R$ 4,56 por ação distribuídos entre dividendos e JCP. Esse yield é um dos atrativos que mantém investidores posicionados na holding mesmo em trimestres ruins.
A XP Investimentos revisou sua recomendação pra BRAP4 pra Neutra, com preço-alvo de R$ 20,80 por ação, citando estimativas mais cautelosas pra Vale. O movimento reflete uma visão de que o desconto de holding da Bradespar pode não ser suficiente pra compensar os riscos associados à mineradora neste momento.
Na Bolsa de Nova York, as ações da Vale subiram no after-market após a divulgação do 4T25, o que parece contraditório. Mas o mercado olhou além do prejuízo contábil e focou no operacional forte, na produção recorde e no EBITDA acima das expectativas. A leitura é que o impairment de níquel é um evento pontual, não um problema estrutural.
O grande catalisador pro resultado futuro da Bradespar é, naturalmente, o desempenho da Vale. E aí existem motivos pra otimismo moderado. A mineradora cumpriu todos os guidances de 2025, a produção de minério de ferro está no maior patamar desde 2018 e a divisão de metais básicos (cobre e níquel) vem sendo reestruturada pra gerar mais valor no médio prazo.
O acordo definitivo de Brumadinho também remove uma fonte importante de incerteza que pesava sobre as ações. Com as provisões já contabilizadas, o impacto nos próximos trimestres tende a ser menor. Isso pode liberar espaço pra que o resultado proforma fique mais próximo do resultado contábil nos trimestres seguintes.
Por outro lado, o preço do minério de ferro segue como a variável mais importante da equação. Se o minério se mantiver acima de US$ 90 por tonelada, a Vale e, por consequência, a Bradespar devem voltar a reportar resultados positivos. Mas uma queda mais acentuada na commodity, especialmente se a demanda chinesa desacelerar, pode pressionar novamente as margens.
Investir em Bradespar é uma decisão que passa necessariamente por uma tese sobre a Vale. Não existe análise da holding que faça sentido sem considerar os fundamentos da mineradora. A estrutura de holding pura torna a BRAP4 um veículo indireto pra exposição à Vale, geralmente negociado com algum desconto em relação à participação equivalente em VALE3.
Esse desconto historicamente atrai investidores que buscam exposição à mineradora por um preço relativamente menor. Mas o trade-off é claro: menor liquidez, menor cobertura de analistas e dependência total de uma única empresa. Quando trimestres como o 4T25 acontecem, com impairments bilionários que fogem do controle da administração, a concentração se torna um risco evidente.
O resultado anual de 2025 da Vale, com lucro de R$ 13,8 bilhões e EBITDA de US$ 15,5 bilhões (+4% contra 2024), mostra que o negócio principal segue sólido. A questão é se as baixas contábeis vão continuar pesando nos próximos trimestres ou se o pior já ficou pra trás. Pra quem entende os ciclos de commodities e aceita a volatilidade, a assimetria pode ser interessante. Pra quem busca previsibilidade, o alerta da Bradespar no 4T25 é mais um lembrete de que holdings concentradas amplificam tanto os ganhos quanto as perdas.
A temporada de balanços do 4T25 ainda tem resultados importantes pela frente. O contexto setorial de mineração e siderurgia depende muito da dinâmica chinesa e da trajetória dos preços internacionais de commodities. Os investidores que acompanham BRAP4 e VALE3 terão que monitorar de perto os próximos guidances da mineradora e a evolução do acordo de Brumadinho pra calibrar suas expectativas pro restante de 2026.
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