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Calotes rurais triplicam e reescrevem as regras bancárias

Publicado em
29/3/2026
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Calotes rurais triplicam e reescrevem as regras bancárias
Calotes rurais triplicam e reescrevem as regras bancárias
Calotes rurais triplicam e reescrevem as regras bancárias

A inadimplência no crédito rural brasileiro atingiu 7,3% em janeiro de 2026, o maior patamar desde o início da série histórica do Banco Central, em 2011. O número, que considera atrasos superiores a 90 dias entre produtores pessoa física, confirma o que o mercado já vinha precificando: o agronegócio atravessa sua pior crise de crédito em décadas, e os reflexos nos balanços dos grandes bancos são inevitáveis.

A dívida rural total já soma R$ 752 bilhões. Pra quem investe em bancos ou em instrumentos ligados ao agro (CRAs, Fiagros), a semana que começa na segunda-feira (30) exige atenção redobrada. Na agenda, saem dados industriais, balança comercial de março e, na sexta (3), o payroll americano, que costuma mexer com o câmbio e, consequentemente, com a competitividade do agro exportador.

Como o calote rural chegou a esse patamar

A escalada da inadimplência não aconteceu da noite pro dia. Nas linhas de crédito a taxas de mercado (sem subsídio), o calote já está em 11,4%. Pra ter ideia da velocidade da deterioração: em janeiro de 2023, esse mesmo indicador marcava 0,59%. Ou seja, multiplicou quase 20 vezes em três anos.

O gatilho veio de uma combinação perversa: Selic elevada (que chegou a 15% antes do corte recente pra 14,5%), quebra de safras regionais, queda nos preços de grãos e alavancagem excessiva de produtores que tomaram crédito barato entre 2020 e 2022 e não conseguiram rolar as dívidas quando os juros dispararam.

Em 2025, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial no setor agro, um salto de 56,4% sobre 2024 e o maior volume já registrado. Só no terceiro trimestre de 2025, foram 628 novos pedidos. Ao todo, 443 empresas do agro estavam em processo ativo de recuperação judicial naquele trimestre, um crescimento de cerca de 70% em 12 meses.

AgroGalaxy, Lavoro e o efeito dominó nas revendas

O caso mais emblemático é o da AgroGalaxy (AGXY3), que pediu recuperação judicial em setembro de 2024 com R$ 4,67 bilhões em passivos. O plano aprovado pelos credores em abril de 2025 cortou a dívida em mais de 60%, de R$ 4,6 bilhões pra R$ 1,8 bilhão. Mesmo assim, a empresa fechou lojas, encerrou a operação da Sementes Campeã e perdeu CEO, CFO e presidente do conselho.

A AgroGalaxy não estava sozinha. Junto com Lavoro e Belagrícola, as três maiores redes de revenda agrícola do país acumularam mais de R$ 7 bilhões em dívidas e, segundo estimativas de mercado, destruíram cerca de R$ 5 bilhões em valor dos credores. Revendas menores, como Portal Agro (R$ 645 milhões em dívidas, incluindo R$ 249 milhões em CRAs) e Forte Agro, no Mato Grosso, também entraram na fila.

Pra quem carrega Fiagros ou CRAs na carteira, vale entender como funciona o spread de crédito e como ele se alarga em cenários de estresse como esse. O prêmio exigido pelo mercado pra financiar o agro subiu significativamente, refletindo o risco real de calote.

Banco do Brasil: lucro desaba 45% e setor cobra cautela

O Banco do Brasil (BBAS3), maior financiador do agro brasileiro, foi quem mais sentiu o impacto. O lucro líquido ajustado de 2025 ficou em R$ 20,7 bilhões, uma queda de 45,4% frente aos R$ 37,8 bilhões de 2024. A inadimplência na carteira agro do banco atingiu 6,09%, e as provisões pra devedores duvidosos (PCLD) saltaram 48,7%, chegando a R$ 47,1 bilhões nos primeiros nove meses do ano.

Pra 2026, o BB sinalizou cautela: projeta crescimento da carteira agro entre -2% e +2%, praticamente estável. A meta é ofertar R$ 400 bilhões ao setor, mas com garantias reforçadas e portfólio reestruturado. A normalização, segundo o próprio banco, só deve vir no segundo semestre de 2026.

Quem acompanha BBAS3 e quer entender melhor a tese, vale conferir a análise sobre como investir em Banco do Brasil. O papel continua gerando discussão na comunidade da Traders, com parte dos investidores vendo oportunidade nos múltiplos deprimidos e outra parte preferindo esperar a inadimplência estabilizar.

Bradesco aposta na direção contrária

Enquanto o BB pisa no freio, o Bradesco segue a estratégia oposta. O banco planeja expandir sua carteira agro em 15% a 20% em 2026 e projeta mais de R$ 50 bilhões pro Plano Safra 2025/2026. A plataforma digital E-Agro, que cresceu de R$ 2,4 bilhões pra R$ 5,6 bilhões em originação entre 2024 e 2025, mira mais 25% de expansão neste ano.

A lógica é simples: com o BB mais restritivo, sobra espaço pra quem quiser ocupar. Mas o risco também é real. A própria diretoria do Bradesco já reconheceu que a onda de recuperações judiciais no agro "acende alerta no sistema financeiro".

CNJ muda as regras do jogo pra recuperação judicial rural

Em 13 de março de 2026, o Conselho Nacional de Justiça publicou o Provimento 216, unificando em todo o país as regras pra recuperação judicial de produtores rurais. A norma veio a pedido do Ministério da Agricultura, que alertou sobre a crise crescente no setor.

As principais mudanças incluem: exigência de pelo menos dois anos de atividade comprovada, apresentação de Livro Caixa Digital e declaração de imposto de renda, além de perícia prévia obrigatória com ferramentas de geoprocessamento. Uma proteção importante: créditos de CPR (Cédula de Produto Rural) e contratos com cooperativas não podem ser incluídos na recuperação sem consentimento do credor.

Na prática, a norma dificulta que produtores com pouca documentação ou atividade recente usem a RJ como escudo contra dívidas legítimas, o que era uma queixa frequente dos bancos e fundos.

Crédito rural entra em nova fase: menos banco, mais mercado

O Plano Safra 2025/2026 já mostra a transição. Até fevereiro de 2026, foram contratados R$ 354,4 bilhões em crédito rural, alta de 7% sobre o mesmo período do ano anterior. Mas a composição mudou: as CPRs responderam por R$ 163,4 bilhões, um salto de 39%. Já os recursos livres de LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) caíram 36%.

O mercado de capitais, que movimentou R$ 838,8 bilhões em ofertas em 2025 (alta de 6,4%), ganha relevância estratégica à medida que o crédito bancário subsidiado encolhe. Pra o investidor, isso significa mais instrumentos de dívida agro circulando, mas também mais risco de crédito pra avaliar.

Entender como funciona o rating de crédito se torna essencial nesse cenário. O rating é o que diferencia um CRA de uma empresa sólida de um papel tóxico disfarçado de investimento conservador.

O que esperar da semana (30 de março a 4 de abril)

Com o mercado reabrindo na segunda-feira, a semana traz indicadores importantes tanto no Brasil quanto nos EUA:

Terça (31): sai o IPP (Índice de Preços ao Produtor) do IBGE, referente às indústrias extrativas e de transformação. Dado relevante pra quem acompanha pressão de custos no agro e na indústria.

Quarta (1o de abril): publicação da balança comercial de março. O agro é responsável por parcela significativa do superávit brasileiro, então qualquer sinal de desaceleração nas exportações agrícolas pode pressionar o câmbio.

Quinta (2): PIM-PF (Produção Industrial Mensal) de fevereiro, indicador que mostra o pulso da atividade econômica.

Sexta (3): o grande evento da semana: payroll americano de março. Mercado de trabalho forte nos EUA pode adiar cortes de juros pelo Fed, fortalecendo o dólar e pressionando ativos de risco no Brasil. Já um dado mais fraco alimenta a tese de cortes, o que tende a beneficiar emergentes.

Pra quem quer se preparar, vale ter no radar também a próxima reunião do Copom, nos dias 28 e 29 de abril. O mercado projeta mais um corte de 0,50 ponto percentual, levando a Selic pra 14%. O último Boletim Focus traz projeções de IPCA em 4,17%, PIB em 1,84% e Selic em 12,25% a 12,50% no fim de 2026. Entender como a política monetária afeta o custo do crédito rural é fundamental pra avaliar se o pior já passou ou se ainda vem mais pressão pela frente.

Qual o risco real pro investidor?

A crise no crédito agro não é um problema isolado do campo. Ela contamina balanços de bancos (como vimos com o BB), Fiagros que carregam CRAs de empresas em dificuldade, e até fundos de renda fixa que alocam em papéis ligados ao setor.

Pra quem investe em renda variável, o impacto aparece nos múltiplos dos bancos com exposição relevante ao agro. Pra quem investe em renda fixa privada, o risco está no spread de crédito: quanto maior a inadimplência no setor, maior o prêmio exigido, e maior o risco de eventos de crédito (calote, reestruturação).

As projeções indicam que os pedidos de recuperação judicial devem permanecer elevados ao longo de 2026, com estabilização projetada apenas pra meados de 2027. Com a Selic ainda em dois dígitos e safras sujeitas a intempéries climáticas, a combinação permanece desafiadora.

Na comunidade da Traders, a discussão entre investidores tem sido intensa. Parte vê o momento como oportunidade pra entrar em papéis de bancos a preços descontados, enquanto outros preferem esperar sinais mais claros de que a inadimplência atingiu o pico. Uma coisa é consenso: quem tem exposição ao agro via CRAs ou Fiagros precisa revisar a qualidade do crédito na carteira com urgência.

A nova fase do crédito rural no Brasil está só começando. Menos subsídio público, mais mercado de capitais, mais risco, mais sofisticação na análise. Quem entender essa transição antes sai na frente. Quem ignorar pode descobrir da pior forma: olhando o extrato.


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