
O Tesouro Nacional realizou nos últimos dias uma recompra de quase R$ 50 bilhões em títulos públicos, a maior operação do tipo desde a pandemia de Covid-19. A ação, que incluiu R$ 43,6 bilhões numa primeira rodada e mais R$ 5,41 bilhões em prefixados na manhã da última quarta-feira (18), aconteceu na mesma semana em que o Copom reduziu a Selic para 14,75%, primeiro corte de juros desde 2024. Pra quem investe, a mensagem é clara: a curva de juros estava saindo do controle, e o governo decidiu agir antes que o estrago fosse maior.
A coincidência de timing não é acidental. O Tesouro normalmente evita atuar em semana de Copom pra não gerar ruído na formação de expectativas. O fato de ter atuado assim mesmo indica que o nível de preocupação com a desorganização da curva de juros futuros superou qualquer cuidado protocolar.
Dois fatores principais pressionaram os juros longos ao mesmo tempo. No cenário externo, a guerra no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel gerou uma alta forte do petróleo e reacendeu preocupações inflacionárias globais. Juros internacionais subiram, e o fluxo de capital para emergentes secou.
No cenário doméstico, ruídos fiscais seguem pesando. A percepção de risco sobre as contas públicas brasileiras aumentou nas últimas semanas, e isso se refletiu diretamente na abertura da curva de juros. Quando os juros futuros sobem rápido demais, o crédito fica mais caro pra todo mundo: empresas, consumidores e o próprio governo.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, classifica o momento como uma "quebra de normalidade no mercado". Segundo ele, a liquidez desaparece, os spreads aumentam e os preços deixam de refletir os fundamentos da economia.
Na prática, o Tesouro foi ao mercado e comprou de volta títulos que havia emitido, principalmente prefixados. Quando faz isso em volume relevante, reduz a pressão de venda sobre esses papéis. Com menos gente querendo se desfazer dos títulos, os preços sobem e as taxas implícitas caem.
André Matos, CEO da MA7 Negócios, explica que não se trata de "controlar juros" no sentido clássico. "A função é garantir que o mercado continue operando, evitando movimentos desordenados que podem contaminar toda a economia", afirma. Crédito mais caro, fuga de investidores e deterioração fiscal são os riscos em cascata que o Tesouro tenta evitar.
Paulo Fernando Machado, gestor de crédito da Drýs Capital, lembra que em situações de estresse agudo é comum que compradores simplesmente sumam do mercado. "Os atores ficam sem referência de qual taxa é adequada pra cada vencimento. O governo intervém provendo liquidez pros vendedores, eliminando a sensação de nunca conseguir vender um papel", relata.
Intervenções do Tesouro no mercado de juros não são inéditas, mas costumam aparecer em momentos de crise séria. As referências mais recentes são a pandemia de 2020, a greve dos caminhoneiros de 2018 e os protestos de 2013.
Em 2013 e 2018, os gatilhos foram domésticos: instabilidade política e risco fiscal elevado. Na greve dos caminhoneiros, a desorganização logística gerou risco inflacionário imediato. Machado conta que naquela época a liquidez das Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) ficou tão baixa que "se tornou bem difícil vender esse ativo no primeiro dia da greve".
Na pandemia, o cenário foi extremo: fuga global de capital, travamento de liquidez e incerteza sem precedentes sobre a atividade econômica. Em todos esses casos, o Tesouro agiu como estabilizador de última instância.
A diferença em 2026 é a magnitude. O volume de quase R$ 50 bilhões reflete um ambiente que combina incerteza doméstica com volatilidade internacional, algo que os analistas consideram mais complexo que episódios anteriores isolados.
Na mesma semana da intervenção, o Copom decidiu por um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, levando a taxa básica de 15% para 14,75%. Foi o primeiro corte desde 2024, e veio no piso das expectativas do mercado, que se dividia entre manutenção e redução de 0,25 p.p.
O corte tímido mostra que o Banco Central também está cauteloso. O Brasil segue como o segundo maior juro real do mundo, com 9,50%, atrás apenas da Turquia (10,38%). Pra quem acompanha renda fixa, isso significa que os títulos do Tesouro ainda pagam prêmios elevados, mas a volatilidade na curva exige atenção redobrada.
É importante entender que a decisão do Copom sobre a Selic e a intervenção do Tesouro agem em pontas diferentes. A Selic influencia o juro de curtíssimo prazo. Já a recompra de títulos pelo Tesouro atua nos vencimentos mais longos da curva. São instrumentos complementares, mas independentes.
Se você tem títulos prefixados ou Tesouro IPCA+ na carteira, a intervenção do Tesouro tende a ser positiva no curto prazo. A recompra reduz a pressão sobre os preços desses papéis, o que pode gerar marcação a mercado favorável pra quem carrega posições.
Mas atenção: a volatilidade nos juros segue elevada. O conflito no Oriente Médio não dá sinais de arrefecimento, o petróleo continua pressionado e o cenário fiscal doméstico ainda gera desconfiança. Isso significa que os prêmios nos vencimentos longos podem voltar a subir se o cenário piorar.
Na comunidade da Traders, os traders têm debatido bastante essa janela. Muitos apontam que prefixados longos oferecem taxas atrativas, mas que o momento pede posições menores e mais diversificadas, dado o nível de incerteza.
Três variáveis vão ditar o tom do mercado de juros daqui pra frente. A primeira é o desdobramento geopolítico no Oriente Médio, que influencia diretamente o preço do petróleo e a aversão a risco global. A segunda é a trajetória fiscal do governo brasileiro, que segue como principal fator de risco doméstico. E a terceira é a comunicação do Banco Central sobre os próximos passos da política monetária.
O Copom sinalizou cautela no comunicado da última reunião. Se a inflação seguir em 4,10% (projeção do Boletim Focus mais recente) e a atividade econômica moderar, há espaço pra novos cortes ao longo de 2026. Mas cada decisão vai depender do cenário naquele momento.
A intervenção do Tesouro foi um sinal claro de que o governo está disposto a usar ferramentas extraordinárias pra evitar uma espiral nos juros. Funcionou no curto prazo. Mas a sustentabilidade dessa estabilização depende de fatores que estão, em boa parte, fora do controle do Tesouro Nacional.
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