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Câmbio toca piso inédito e recua: euforia já acabou?

Publicado em
18/4/2026
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Câmbio toca piso inédito e recua: euforia já acabou?
Câmbio toca piso inédito e recua: euforia já acabou?
Câmbio toca piso inédito e recua: euforia já acabou?

O dólar chegou a bater R$ 4,9506 na manhã de sexta-feira (17), menor cotação intradiária de 2026, impulsionado pelo anúncio do Irã de que o Estreito de Ormuz estava "completamente aberto" para o tráfego comercial. Mas a euforia durou pouco. Ao longo da tarde, a moeda americana devolveu boa parte da queda e fechou a R$ 4,9836, recuo de apenas 0,20%. Mesmo assim, foi o menor fechamento desde 27 de março de 2024, e o menor valor do ano. No acumulado de 2026, o dólar já cai mais de 9% contra o real.

O motivo do recuo parcial é simples: a trégua tem prazo. O chanceler iraniano Abbas Araghchi condicionou a reabertura ao cessar-fogo entre Líbano e Israel, válido apenas até quarta-feira (22). E neste sábado (18), o Irã já anunciou o restabelecimento do controle militar sobre todo o tráfego no Estreito, alegando "repetidas violações" dos Estados Unidos. Traduzindo: o alívio que derrubou o petróleo e fortaleceu o real pode ser revertido a qualquer momento.

O que aconteceu com o petróleo e por que importa

A reabertura de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, provocou uma queda de 9% no Brent, que fechou a US$ 90,38 o barril. O WTI recuou na mesma magnitude, para a casa dos US$ 86. É a maior queda diária do petróleo desde que o bloqueio iraniano começou, em fevereiro, quando os conflitos regionais transformaram o Estreito em zona de exclusão.

Pra ter dimensão: antes da ofensiva militar de EUA e Israel sobre o Irã no fim de fevereiro, o Brent estava perto de US$ 70. Mesmo com a queda de sexta, o barril ainda opera 30% acima daquele patamar. Isso significa que o prêmio de risco geopolítico diminuiu, mas não sumiu.

Na comunidade da Traders, muitos traders estavam de olho exatamente nesse ponto: a queda do petróleo é oportunidade ou armadilha? Com o Irã já sinalizando que pode fechar Ormuz de novo, a resposta depende do que acontecer até quarta.

Petrobras no olho do furacão: PETR4 caiu 4,86%

Se pra quem opera câmbio a sexta foi positiva, pra quem carrega Petrobras foi um dia pra esquecer. As ações preferenciais (PETR4) recuaram 4,86%, enquanto as ordinárias (PETR3) perderam 5,31%. Com peso combinado de cerca de 14% no Ibovespa, a petroleira sozinha drenou o índice.

O Ibovespa fechou a sexta em queda de 0,55%, aos 195.733 pontos. Foi o terceiro pregão consecutivo de baixa, depois de ter encostado nos 199 mil pontos na segunda-feira (14), quando marcou o 11o recorde de fechamento seguido. Mesmo assim, no acumulado de 2026, o índice ainda acumula alta superior a 22%.

A ironia da sessão ficou evidente: o mesmo evento que fortaleceu o real (queda do petróleo e alívio geopolítico) foi o que derrubou a bolsa. A correlação inversa entre dólar e bolsa brasileira ficou escancarada. Quem fez hedge com mini-dólar viu a proteção funcionar dos dois lados.

A retrospectiva da semana: do recorde à correção

A semana de 14 a 18 de abril teve dois atos bem distintos. No primeiro, o Ibovespa ainda surfava a onda de otimismo que vinha da semana anterior, quando subiu 4,93%, o melhor desempenho semanal desde janeiro. Na segunda-feira (14), o índice renovou máxima histórica aos 198.657 pontos, chegando a tocar 199.354 pontos durante o pregão.

No segundo ato, veio a realização. O peso de Petrobras puxou o índice pra baixo na quarta e na quinta, e a sexta consolidou a correção. O fluxo estrangeiro, que vinha sustentando a festa com mais de R$ 65 bilhões líquidos no ano, encontrou um motivo pra fazer pausa.

Já o dólar fez o caminho inverso. Começou a semana na casa de R$ 5,06 e terminou abaixo dos R$ 5,00 pela primeira vez em mais de dois anos. A combinação de carry trade favorável (com a Selic ainda em patamar elevado), fluxo de capital estrangeiro e a queda do petróleo empurraram o real pra cima.

Os números da semana

O dólar acumulou queda de 2,07% na semana. Olhando o quadro mais amplo, a moeda americana já perdeu 12,75% em 12 meses frente ao real. Quem entende de como as moedas globais afetam investimentos sabe que esse movimento não é exclusivo do Brasil: o dólar está fraco contra praticamente todas as moedas emergentes de alto rendimento, como peso colombiano e rand sul-africano.

DI futuro: juros caíram forte na sessão

O alívio geopolítico respingou direto na curva de juros. As taxas dos contratos futuros de DI registraram queda firme na sexta-feira, refletindo a expectativa de que a redução do prêmio de risco global pode abrir espaço pro Banco Central acelerar os cortes da Selic.

Hoje, o mercado precifica 75,5% de probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom de 29 de abril. A Anbima projeta Selic a 12,5% ao final de 2026, e a mediana do Focus aponta algo entre 12,13% e 12,50%. Se o cenário geopolítico continuar se acalmando, a porta pra cortes maiores pode se abrir.

Por que o alívio pode não durar

A reabertura de Ormuz é, por enquanto, uma trégua com data marcada pra acabar. Três riscos concretos estão no radar:

Primeiro: o Irã já deu sinais de que pode fechar o Estreito novamente. O anúncio de sábado (18) sobre retomada do controle militar é o mais claro deles. Os Emirados Árabes e a União Europeia exigem reabertura total e incondicional, mas Teerã impõe condições. O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou a reabertura como "passo na direção certa", mas ninguém tá tratando como vitória definitiva.

Segundo: o bloqueio naval americano nos portos iranianos continua em vigor. Mesmo com Ormuz aberto pro trânsito comercial, as sanções e o cerco militar não foram suspensos. Ou seja, o fluxo de petróleo iraniano segue restrito.

Terceiro: o Brent a US$ 90 ainda é um patamar alto. Antes da escalada, o barril estava a US$ 70. A queda de 9% em um dia parece muito, mas o petróleo ainda embute um prêmio de guerra de mais de 25%. Pra isso sair do preço, seria necessário um acordo de paz mais amplo, e não uma trégua de cinco dias.

O que o investidor pode esperar na próxima semana

A semana de 21 a 25 de abril vai ser decisiva. Na quarta-feira (22), vence a trégua de Ormuz. Se o Irã não estender a abertura, o petróleo pode devolver toda a queda, e a dinâmica de sexta se inverte: dólar sobe, Petrobras se recupera, bolsa tenta subir de novo.

Na terça-feira (29), tem reunião do Copom, e o mercado vai chegar nela com uma posição muito definida: corte de 0,25 p.p. Qualquer sinalização diferente pode mexer bastante com os contratos de mini-dólar.

Também vale ficar de olho nos dados de fluxo estrangeiro. O saldo de R$ 65 bilhões no ano é impressionante, mas o apetite do gringo depende diretamente da percepção de risco global. Se Ormuz fechar de novo, o carry trade fica menos atrativo e parte desse fluxo pode reverter.

O real a R$ 4,95 foi bonito de ver, mas quem opera sabe: mínima intradiária sem sustentação é sinal, não convicção. O mercado testou, gostou do número, mas recuou quando lembrou que a trégua tem prazo. Pra quem opera câmbio ou carrega posição em commodities, a prudência segue sendo o melhor indicador técnico da semana.


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