
As ações da Netflix (NFLX) despencaram 9,7% nesta quinta-feira (17), fechando a US$ 97,31 em Nova York, mesmo depois de a empresa ter reportado um trimestre espetacular. O motivo? Uma combinação de guidance decepcionante pro segundo trimestre e o anúncio de que o cofundador Reed Hastings vai deixar a presidência do conselho na assembleia de junho. O mercado não perdoou.
A queda contrasta com o desempenho das bolsas americanas no dia. O S&P 500 subiu cerca de 1%, renovando máxima histórica nos 7.126 pontos. O Nasdaq avançou 1,2%, emplacando o 13o pregão consecutivo de alta, a maior sequência desde 1992. O Dow Jones saltou quase 1.000 pontos. No meio de toda essa euforia, a Netflix foi na contramão.
Os resultados do primeiro trimestre de 2026, divulgados após o fechamento de quarta-feira (16), foram objetivamente fortes. A receita atingiu US$ 12,25 bilhões, crescimento de 16% em relação ao mesmo período do ano passado e acima da estimativa de US$ 12,18 bilhões dos analistas.
O lucro por ação (EPS) foi de US$ 1,23, contra US$ 0,76 esperados pelo consenso. Uma alta de 86% que, em tese, deveria ter animado o mercado. Mas uma parte relevante desse salto veio de um item não recorrente: uma taxa de rescisão de US$ 2,8 bilhões paga pela Warner Bros. Discovery em um acordo de licenciamento encerrado.
Na frente de publicidade, a empresa agora conta com mais de 4.000 anunciantes, 70% mais que no ano anterior. A receita com anúncios caminha pra bater US$ 3 bilhões em 2026, o dobro de 2025. Números impressionantes pra uma vertical que a Netflix só começou a explorar em 2022.
O problema está no que vem pela frente. A Netflix projetou receita de US$ 12,57 bilhões pro segundo trimestre, abaixo dos US$ 12,64 bilhões que os analistas esperavam. O lucro por ação estimado ficou em US$ 0,78, também abaixo do consenso de US$ 0,84.
Pra piorar, a empresa manteve o guidance anual de US$ 50,7 a US$ 51,7 bilhões em receita sem revisão pra cima. Depois de um trimestre tão forte, o mercado esperava que a Netflix elevasse suas projeções. A manutenção foi lida como sinal de desaceleração no crescimento, com a empresa sinalizando expansão de apenas 13% no segundo tri.
Na comunidade da Traders, muitos traders estão debatendo se essa queda representa uma oportunidade de compra ou um sinal de alerta. É o tipo de movimento que exige sangue frio e análise.
Reed Hastings, que cofundou a Netflix em 1997, anunciou que vai deixar o conselho de administração quando seu mandato atual expirar na assembleia anual de junho de 2026. Hastings já havia deixado o cargo de co-CEO em 2023, passando o bastão pra Greg Peters e Ted Sarandos. Agora, ele se afasta completamente da governança da empresa.
O motivo declarado: foco em filantropia. Hastings tem doado volumes significativos de ações da Netflix pra causas sociais. Só pra Silicon Valley Community Foundation foram quase US$ 500 milhões. Ele também destinou US$ 50 milhões pro Bowdoin College investir em pesquisa de inteligência artificial e US$ 5 milhões pra caridade na Ucrânia.
Com patrimônio estimado em US$ 5,8 bilhões, Hastings deixa uma empresa que vale cerca de US$ 410 bilhões em capitalização de mercado. Mas a saída do fundador, mesmo simbólica, gera incerteza. O mercado costuma reagir mal quando figuras icônicas se desligam de empresas que criaram.
Apesar da queda de quase 10%, a maioria dos analistas manteve recomendação positiva. O JPMorgan reduziu o preço-alvo de US$ 120 pra US$ 118, mas manteve recomendação de compra, dizendo que a empresa "continua executando bem". O banco recomendou comprar na queda.
A Evercore ISI, com o analista Mark Mahaney, manteve recomendação de outperform e preço-alvo de US$ 115. Mahaney se mostrou decepcionado com a falta de revisão no guidance anual, mas não vê mudança estrutural no negócio.
O BMO manteve preço-alvo de US$ 135 e o Morgan Stanley também recomendou comprar a queda. Nenhuma casa de análise relevante fez downgrade. O consenso é que a reação foi exagerada em relação aos fundamentos, mas isso não significa que o papel se recupere rápido.
Pra quem acompanha fundos de ações com exposição a tech americano, esse tipo de volatilidade é parte do jogo. Movimentos de 10% em um único pregão mostram como posições concentradas podem doer.
Enquanto Wall Street celebrava, o Ibovespa recuou 0,55%, fechando aos 195.734 pontos. O índice brasileiro foi pressionado pela queda abrupta do petróleo, que despencou mais de 10% depois que o Irã anunciou que o Estreito de Ormuz está "completamente aberto" ao tráfego comercial, aliviando tensões geopolíticas com os Estados Unidos.
A Petrobras (PETR4), com peso de cerca de 15% no Ibovespa, sofreu diretamente com a queda da commodity e puxou o índice pra baixo. É o tipo de dia em que o Ibovespa se descola completamente de Nova York.
O dólar fechou em queda de 0,19%, cotado a R$ 4,9833, o menor patamar de fechamento desde março de 2024. Na mínima do dia, a moeda americana chegou a tocar R$ 4,9502. Pra quem investe em ações do Ibovespa, o câmbio mais baixo pode ajudar empresas importadoras, mas pressiona exportadoras.
A Netflix é negociada na B3 por meio de BDRs (NFLX34). Quem tem esse papel na carteira sentiu o impacto da queda diretamente. Pra investidores que estão montando posição em tech americano, a questão agora é avaliar se o guidance fraco é temporário ou estrutural.
Os números de publicidade são animadores e mostram uma segunda avenida de crescimento. Mas a desaceleração da receita e a saída do fundador criam um cenário de incerteza no curto prazo. Quem opera ações pensando em dividendos sabe que tech americana raramente é o caminho, mas a tese de crescimento da Netflix ainda está de pé, segundo a maioria dos analistas.
O mercado vai ficar de olho em três coisas. Primeiro, se o volume de vendas de NFLX se estabiliza ou se fundos grandes aproveitam pra realizar mais lucro. Segundo, se a empresa faz algum comunicado adicional sobre a transição no conselho e quem pode substituir Hastings. Terceiro, se os dados de assinantes do segundo trimestre confirmam ou desmentem o guidance conservador.
Pra o Ibovespa, a atenção continua no petróleo e no câmbio. A combinação de dólar abaixo de R$ 5,00 com queda forte do petróleo pode redesenhar a carteira de vários investidores nas próximas semanas. O dia de hoje mostrou que, no mercado, resultado recorde e queda de 10% podem acontecer na mesma empresa, no mesmo dia. É o lembrete de que preço e fundamento nem sempre andam juntos no curto prazo.
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