
A Re.Green, empresa cofundada pelo cineasta João Moreira Salles e que tem o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga no conselho, arrematou a concessão de 59 mil hectares da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Porto Velho (RO), no primeiro leilão federal de concessão florestal voltado para crédito de carbono no Brasil. O certame aconteceu nesta quarta-feira (25) na sede da B3, em São Paulo, e a Re.Green foi a única proponente.
O investimento previsto é de R$ 86,7 milhões ao longo dos 40 anos de vigência do contrato. O critério de seleção foi o maior percentual de outorga oferecido ao governo federal, o que garante que parte dos recursos da preservação voltem aos cofres públicos e às comunidades locais. A titularidade da terra permanece com a União.
Diferente das concessões florestais tradicionais, que focam em manejo de madeira, o modelo adotado no Bom Futuro prevê que a principal fonte de receita venha da restauração florestal e da exploração de ativos ambientais. Em termos mais simples: a Re.Green vai reflorestar áreas degradadas, gerar créditos de carbono com essa regeneração e vender esses créditos pra empresas que precisam compensar suas emissões.
Cada crédito de carbono equivale a uma tonelada de CO2 que deixou de ser lançada na atmosfera. É uma moeda ambiental negociável, e o mercado global desse ativo tem crescido com a pressão regulatória sobre empresas poluentes. Pra quem quer entender melhor como funciona a precificação desse tipo de ativo, vale conferir o que é spread de crédito no mercado financeiro.
A Re.Green não é uma startup qualquer. A empresa foi criada em 2021 com a missão de restaurar florestas tropicais em larga escala e tem um conselho de peso. Além de Moreira Salles e Armínio Fraga, a companhia já captou centenas de milhões de reais pra projetos de restauração na Amazônia e na Mata Atlântica.
O fato de ter sido a única proponente no leilão chama atenção. Por um lado, mostra que o mercado de concessões florestais para carbono ainda é incipiente no Brasil. Por outro, revela que a Re.Green saiu na frente numa corrida que tende a esquentar com a regulamentação do mercado regulado de carbono brasileiro, aprovado pelo Congresso em dezembro de 2024.
Na comunidade da Traders, traders atentos ao segmento ESG estão de olho nesse movimento. A pergunta que circula é: com o mercado regulado de carbono avançando, quem são as próximas empresas a se posicionar nesse setor?
O pregão desta quarta-feira (26) opera com o Ibovespa na faixa dos 184 mil pontos, acumulando alta em relação ao fechamento anterior. O dólar comercial ronda os R$ 5,23, praticamente estável frente à cotação PTAX do dia anterior.
O leilão da Floresta do Bom Futuro não mexeu diretamente com os índices, mas se insere num contexto mais amplo de avanço da agenda ESG no Brasil. Investidores institucionais, fundos estrangeiros e gestoras locais estão cada vez mais obrigados a demonstrar compromisso com sustentabilidade. E o carbono é a peça que faltava pra transformar preservação ambiental em ativo financeiro com fluxo de caixa.
Pra investidores brasileiros, o mercado de carbono ainda é acessado de forma indireta. Não existe, por enquanto, um leilão em bolsa de créditos de carbono como os de ações. Mas o caminho tá sendo pavimentado.
O que já existe:
ETFs temáticos de ESG negociados na B3, que incluem empresas com boas práticas ambientais. BDRs de empresas internacionais do setor de energia limpa e tecnologia verde. E fundos de investimento dedicados a créditos de carbono no exterior, acessíveis via gestoras locais.
O mercado regulado de carbono brasileiro, quando estiver plenamente operacional, deve criar uma plataforma de negociação de CBEs (Certificados Brasileiros de Emissão) que poderá ser acessada por investidores. A expectativa é que isso aconteça entre 2027 e 2028, segundo o cronograma do Ministério do Meio Ambiente.
O mercado voluntário de créditos de carbono movimentou cerca de US$ 2 bilhões globalmente em 2023, segundo a Ecosystem Marketplace. Parece pouco perto de outros mercados financeiros, mas o mercado regulado europeu (EU ETS) já movimenta mais de US$ 900 bilhões por ano. É esse segundo estágio que o Brasil quer alcançar.
Com a maior floresta tropical do planeta, o Brasil tem um estoque de carbono que nenhum outro país consegue replicar. A concessão do Bom Futuro é um teste: se der certo, abre caminho pra dezenas de leilões semelhantes nos próximos anos. O Serviço Florestal Brasileiro já sinalizou que outras unidades de conservação federais podem seguir o mesmo modelo.
Pra entender como decisões macroeconômicas podem afetar o fluxo de capital pra ativos ESG no Brasil, vale acompanhar o que o Fed faz com os juros americanos. Juros altos nos EUA tendem a sugar capital de mercados emergentes, o que pode atrasar investimentos em projetos como esse.
Nem tudo são flores, mesmo quando o assunto é floresta. Existem riscos reais nessa tese:
Risco regulatório. O mercado regulado de carbono brasileiro ainda não tem regras definitivas. Mudanças no governo ou no Congresso podem alterar o cronograma ou as condições de operação.
Risco de precificação. O preço do crédito de carbono no mercado voluntário caiu de US$ 12 pra menos de US$ 5 por tonelada entre 2022 e 2024. Flutuações assim impactam diretamente a viabilidade financeira de projetos de restauração.
Risco operacional. Restaurar 59 mil hectares de floresta degradada em Rondônia, um dos estados com maior índice de desmatamento, exige logística, segurança e governança que poucos players têm condição de entregar.
Risco de "greenwashing". O rating de crédito ambiental de projetos como esse precisa de validação independente. A credibilidade dos créditos gerados depende de metodologias reconhecidas internacionalmente.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, acompanhou a batida do martelo junto com o diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, Garo Batmanian. A presença de Marina reforça o peso político que o governo Lula quer dar à agenda de carbono.
O leilão também é uma resposta concreta às cobranças internacionais. Com a COP30 marcada pra novembro de 2025 em Belém, o Brasil precisa mostrar que está saindo do discurso e entrando na execução. Conceder florestas degradadas pra restauração com geração de créditos é uma forma de transformar compromisso climático em dinheiro circulando.
O leilão do Bom Futuro é o primeiro de uma série. O governo federal já tem outras unidades de conservação mapeadas para o mesmo modelo de concessão, segundo fontes do Serviço Florestal Brasileiro. Se o mercado regulado de carbono sair do papel no cronograma previsto, a demanda por créditos brasileiros pode explodir.
Pra investidores, o recado é: carbono é o novo ativo. Ainda não dá pra comprar crédito de carbono no home broker, mas as empresas posicionadas nesse mercado, os ETFs temáticos e os fundos ESG são a forma de se expor à tese agora. A Re.Green, por não ser listada em bolsa, não é acessível diretamente. Mas empresas de energia, celulose e agro com programas robustos de crédito de carbono podem se beneficiar conforme o mercado amadurece.
O Brasil tem a floresta. Agora precisa provar que sabe transformar essa floresta em ativo financeiro sem destruí-la no processo.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.