
A JBS (JBSS3) reportou lucro liquido de US$ 415 milhoes no quarto trimestre de 2025, praticamente estavel em relacao aos US$ 413 milhoes do mesmo periodo de 2024. A receita liquida, por outro lado, bateu recorde historico: US$ 23,06 bilhoes, alta de 15,5% na comparacao anual. O resultado veio acompanhado da aprovacao de um dividendo de US$ 1 por acao, com pagamento previsto pra 17 de junho de 2026.
Na comparacao com o terceiro trimestre de 2025, quando a companhia havia lucrado US$ 581 milhoes, o resultado do 4T25 representa uma queda de 28,6%. A receita, porem, cresceu 2% na mesma base sequencial.
A receita de US$ 23,06 bilhoes superou o consenso dos analistas, que projetava algo entre US$ 22,4 bi e US$ 22,6 bi. Ate ai, boa noticia. O problema ta na ultima linha: o custo dos produtos vendidos subiu 18,8% no ano, pra US$ 20,2 bilhoes, corroendo a rentabilidade.
O EBITDA ajustado ficou em US$ 1,72 bilhao, queda de 7% na comparacao anual. A margem EBITDA recuou 1,8 ponto percentual, de 9,2% no 4T24 pra 7,4% no 4T25. Mesmo assim, o numero superou a estimativa de US$ 1,56 bilhao dos analistas.
O lucro por acao (LPA) ficou em US$ 0,40, marginalmente abaixo da expectativa de US$ 0,41. Nao chega a ser um miss relevante, mas mostra que o crescimento de receita nao se traduziu em expansao proporcional de lucro.
No acumulado de 2025, a JBS registrou receita liquida recorde de US$ 86,2 bilhoes, alta de 12% sobre 2024. O lucro liquido anual somou US$ 2,02 bilhoes, crescimento de 14,5%. O LPA anual ficou em US$ 1,89, contra US$ 1,64 no ano anterior.
A margem EBITDA anual, porem, cedeu de 9,3% pra 7,9%. A alavancagem subiu de 1,9x pra 2,39x (divida liquida sobre EBITDA), com a divida liquida alcancando US$ 16,3 bilhoes. Sao numeros que merecem atencao, especialmente num ciclo de margens apertadas.
O grande vilao dos resultados continua sendo a operacao de carne bovina nos Estados Unidos. A JBS USA Beef registrou EBITDA negativo de US$ 319 milhoes no ano, com margem de -1,1%. A explicacao e conhecida: o rebanho bovino americano esta no menor nivel em 75 anos, o que empurra o custo do gado pra patamares historicamente altos.
Mesmo com receita recorde de US$ 28 bilhoes no segmento, a conta simplesmente nao fecha quando a materia-prima ta tao cara. E segundo o CEO Gilberto Tomazoni, a situacao nao deve melhorar tao cedo. A expectativa da companhia e que a margem do beef norte-americano so comece a se recuperar a partir de 2027, quando a reconstrucao do rebanho ganhar tracao.
"Estamos perto do fundo do ciclo", disse Tomazoni. A frase pode soar otimista, mas na pratica significa que 2026 ainda sera um ano dificil pra esse segmento.
Se o beef americano pressiona, a diversificacao global da JBS segura o resultado. E aqui que a tese de investimento da companhia ganha forca.
A Pilgrim's Pride, operacao de frango nos EUA, entregou EBITDA anual de US$ 2,80 bilhoes, com margem de 15,2%. Foi o principal motor de lucratividade do grupo.
A Seara, braco de frango e processados no Brasil, registrou EBITDA de US$ 1,55 bilhao e a maior margem entre todos os segmentos: 16,9%. A operacao bateu recorde de volume de exportacao, mesmo enfrentando restricoes temporarias na China e na Europa.
A JBS Australia tambem contribuiu de forma relevante, com EBITDA de US$ 916 milhoes e margem de 11,3%. Volumes maiores no mercado domestico e na exportacao compensaram a alta de 20% no custo do gado por la.
A JBS Brasil (operacao de carne bovina local) registrou receita de US$ 4,38 bilhoes no 4T25, alta de 26% na comparacao anual. O volume de abate foi o maior da historia da empresa no pais. A margem EBITDA anual ficou em 6,2%, com crescimento de 21% na receita do ano.
A JBS USA Pork completou o quadro com receita recorde anual de US$ 8,4 bilhoes, impulsionada por demanda solida e expansao do portfolio de produtos de maior valor agregado.
O conselho da JBS aprovou o pagamento de US$ 1,00 por acao, com data de pagamento em 17 de junho de 2026. Nos ultimos 12 meses, a companhia distribuiu o equivalente a R$ 4,00 por acao em JBSS3, o que resulta num dividend yield de aproximadamente 7,7% sobre a cotacao atual de R$ 39,03.
Pra uma empresa do setor de proteinas, esse nivel de remuneracao e atrativo. A JBS se posiciona cada vez mais como uma acao de valor com geracao de caixa relevante, mesmo em ciclos adversos. O fluxo de caixa livre do 4T25 foi de US$ 990 milhoes, embora no acumulado do ano tenha ficado em US$ 400 milhoes.
As acoes da JBS acumulam valorizacao de cerca de 30% nos ultimos 12 meses. Os resultados vieram mistos: a receita e o EBITDA superaram o consenso, mas o lucro por acao ficou levemente abaixo. Esse tipo de resultado costuma gerar volatilidade de curto prazo, sem mudar a tese de longo prazo.
Analistas de casas como XP e BTG Pactual mantem recomendacao positiva pra JBS. A XP, por exemplo, trabalha com preco-alvo de US$ 112,20 pra JBSS32 (o papel listado nos EUA) ate o fim de 2026. O BTG mantem recomendacao de compra.
A leitura do mercado parece ser: a JBS provou que sua plataforma diversificada consegue entregar resultados solidos mesmo no pior momento do ciclo do gado americano. Quando esse ciclo virar, o upside pode ser relevante.
Esse e o ponto central do resultado. A JBS vendeu mais do que nunca, mas o custo pra produzir tambem foi o maior da historia. A companhia cresceu o topo da linha (receita) sem conseguir repassar integralmente a alta de custos pro consumidor final.
No beef americano, o gado esta caro porque os pecuaristas estao em fase de retencao de matrizes, reconstruindo o rebanho depois de anos de seca e abate elevado. Esse ciclo pecuario e bem documentado e costuma durar de 8 a 12 anos nos EUA. A JBS estima estar perto do ponto de inflexao, mas a recuperacao e gradual.
Enquanto isso, as operacoes de frango (Pilgrim's e Seara) e suinos (JBS USA Pork) operam em ciclos mais favoraveis, com custos de racao relativamente estaveis e demanda aquecida. E exatamente essa diversificacao entre proteinas e geografias que tem protegido o resultado consolidado.
O setor global de proteinas vive um momento de divergencia. Enquanto o frango e os suinos passam por um ciclo positivo, com margens saudaveis e demanda crescente, a carne bovina enfrenta restricoes de oferta em mercados-chave como os Estados Unidos.
Pra 2026, a expectativa e de continuidade desse cenario. O rebanho bovino americano nao deve crescer significativamente ate 2027. Isso significa que a JBS USA Beef provavelmente continuara com margens pressionadas ou negativas. Em compensacao, Pilgrim's, Seara e as operacoes de suinos devem seguir contribuindo positivamente.
Sobre tarifas comerciais, a JBS considera o impacto "imaterial", gracas a sua flexibilidade geografica. Com operacoes em Brasil, EUA, Australia e outros mercados, a companhia consegue redirecionar a producao conforme as barreiras comerciais mudam. Essa e uma vantagem competitiva relevante num mundo de crescente protecionismo.
A alavancagem de 2,39x merece monitoramento. Nao e um nivel critico pro setor, mas esta acima do 1,9x registrado em 2024. Se o ciclo do beef americano demorar mais que o esperado pra virar, a capacidade de distribuicao de dividendos pode ser afetada.
No fim das contas, o 4T25 da JBS conta a historia de uma empresa que usa escala e diversificacao pra navegar um dos piores momentos do ciclo do gado nos EUA. A receita recorde e o dividendo robusto mostram forca. A compressao de margens e o EBITDA negativo no beef americano mostram o desafio. Quem acompanha acoes ordinarias como JBSS3 precisa pesar esses dois lados da balanca antes de tomar qualquer decisao.
O proximo catalisador relevante sera a evolucao dos custos do gado nos EUA ao longo de 2026. Se houver sinais de recomposicao do rebanho mais rapida que o esperado, a tese de investimento em JBS ganha um impulso adicional. Ate la, a diversificacao global segue sendo o principal escudo da companhia. E pra quem olha acoes de crescimento no setor de alimentos, a JBS segue como referencia obrigatoria na America Latina.
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