
O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, deixou claro nesta quarta-feira (8) que o ciclo de cortes na taxa Selic não deve ser confundido com afrouxamento monetário. Em evento promovido pelo Bradesco BBI, em São Paulo, David afirmou que o BC está fazendo uma "calibração" dos juros, e não uma flexibilização, porque pretende manter a política monetária em território restritivo até o fim do ciclo.
A declaração veio num dia em que o mercado brasileiro operou em forte euforia. O Ibovespa renovou máxima histórica acima dos 193 mil pontos, impulsionado pelo anúncio de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. O dólar despencou abaixo de R$ 5,10. Mas, apesar do clima de festa nas bolsas, o recado do diretor do BC foi de cautela: a Selic a 14,75% ao ano ainda está longe de ser considerada "frouxa".
David participou de um painel durante conferência do Bradesco BBI e fez questão de repetir o termo "calibração" várias vezes ao se referir ao movimento recente do Copom. Em março, o comitê cortou a Selic de 15% pra 14,75% ao ano, no primeiro corte em quase dois anos. Mas, segundo o diretor, isso não significa que o BC está abrindo a mão da postura restritiva.
Na prática, o que David quis dizer é o seguinte: o BC subiu os juros muito, percebeu que talvez tenha ido um pouco além do necessário pra conter a inflação, e agora está fazendo um ajuste fino pra baixo. Só que esse ajuste fino ainda vai terminar com os juros num patamar que segura a economia, não que estimula. É a diferença entre tirar o pé do freio e pisar no acelerador.
O diretor também reforçou que o nível de incerteza no cenário está mais alto do que o habitual, mas que o BC tem convicção de que a política monetária está funcionando. A desaceleração da atividade econômica, segundo ele, deve ficar mais evidente nos últimos meses do ano.
Um dos pontos mais relevantes da fala de Nilton David foi o uso do termo "gordura" pra descrever o espaço que a Selic atual dá ao BC. Na visão dele, os juros a 14,75% oferecem mais margem de manobra do que havia seis meses atrás, quando a taxa estava no auge de 15%.
Essa gordura significa que, se algum choque externo acontecer, o BC não precisa necessariamente subir os juros de imediato. Tem um colchão de segurança.
Mas David fez uma ressalva importante: o conflito no Irã age na direção oposta a essa folga. A guerra entre EUA/Israel e Irã provocou, nas semanas anteriores ao cessar-fogo, uma escalada no preço do petróleo e pressão sobre o câmbio. Isso gera um choque relevante de preços que pode corroer justamente a gordura que o BC acumulou.
Mesmo com o cessar-fogo anunciado nesta quarta, que derrubou o petróleo e animou os mercados, o diretor manteve o tom de cautela. Na visão do BC, a geopolítica continua sendo uma fonte de incerteza que exige o que David chamou de "serenidade". Segundo ele, serenidade "não significa inação, significa remover a emoção do tratamento dos dados".
A escolha de palavras não é acidental. Quando o BC usa "afrouxamento", o mercado entende que a autoridade monetária está entrando num ciclo prolongado de cortes, com juros caindo até um patamar neutro ou até estimulativo. Foi o que aconteceu no ciclo de 2023-2024, quando a Selic saiu de 13,75% e foi a 10,50%.
Já "calibração" transmite uma mensagem diferente: os cortes existem, mas são pontuais, medidos e vão parar num nível que ainda segura a inflação. O BC não quer que ninguém se empolgue achando que a Selic vai desabar pra 10% ou menos no curto prazo.
Pra entender melhor como a Selic afeta seus investimentos, vale lembrar que cada 0,25 ponto percentual de corte tem impacto direto na renda fixa, no custo do crédito e na atratividade relativa da bolsa.
O boletim Focus mais recente projeta a Selic em 12,50% ao final de 2026, o que significaria mais cortes ao longo do ano. Mas a fala de David sugere que o BC pode ser mais conservador do que o mercado espera, especialmente se a inflação não colaborar.
Nilton David também afirmou que o BC não pode procrastinar, mas também não pode se afobar. A ideia é que a autoridade monetária precisa distinguir sinais reais de ruído. Reagir a cada dado isolado pode gerar mais oscilação do que benefício.
Na prática, essa postura significa que:
Primeiro, o próximo corte na Selic, esperado pra reunião de maio do Copom, não está garantido. O BC vai olhar os dados que vierem até lá, em especial inflação corrente, expectativas do Focus, atividade econômica e o cenário externo.
Segundo, mesmo que haja mais cortes, o ritmo pode ser de 0,25 ponto percentual por reunião, e não de 0,50 como parte do mercado apostava. A palavra "calibração" sinaliza movimentos graduais.
Terceiro, o piso do ciclo de cortes deve ser mais alto do que em ciclos anteriores. Se o BC quer terminar em território restritivo, isso significa uma Selic terminal acima do juro neutro, que o próprio BC estima em torno de 9% ao ano em termos nominais.
Quem acompanha a curva de juros já percebeu que os vértices mais longos não caíram tanto quanto os mais curtos. Isso mostra que o mercado de renda fixa já estava precificando essa postura mais comedida do BC antes mesmo da fala de David.
Enquanto Nilton David falava de cautela no Bradesco BBI, o mercado fazia festa. O Ibovespa ultrapassou os 193 mil pontos pela primeira vez na história, puxado pela expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz e queda do petróleo com o cessar-fogo EUA-Irã. O dólar recuou pra perto de R$ 5,07.
Mas o contraste entre a euforia do pregão e o tom do BC é revelador. O cessar-fogo alivia o cenário de curto prazo, com petróleo mais barato e câmbio mais comportado. Isso, em tese, dá mais espaço pro BC continuar cortando. Porém, David fez questão de lembrar que conflitos geopolíticos são, por natureza, imprevisíveis, e que a trégua pode ser temporária.
Na comunidade da Traders, os traders já discutiam o impacto da fala de David sobre as posições em juros futuros. O consenso que se formava era de que o BC está jogando um jogo de expectativas: quer que o mercado não precifique cortes demais, justamente pra ter liberdade de agir conforme os dados forem chegando.
Se o ciclo de cortes é de "calibração" e não de "afrouxamento", os títulos pós-fixados como o Tesouro Selic continuam rendendo bem por mais tempo. Com a Selic a 14,75%, o Tesouro Selic entrega quase 1% ao mês em termos brutos. Mesmo com mais dois ou três cortes de 0,25 ponto, a rentabilidade segue atrativa.
Já os títulos prefixados e indexados à inflação exigem mais atenção. Se o mercado estava precificando um ciclo de cortes mais agressivo e o BC sinaliza menos espaço, pode haver ajuste nos preços desses papéis. Quem comprou NTN-B longa apostando em queda forte dos juros pode ver volatilidade.
Pra a bolsa, a mensagem é mista. Juros ainda altos em 2026 limitam o potencial de reavaliação de múltiplos, especialmente em setores sensíveis a crédito como varejo e construção. Por outro lado, a sinalização de que a inflação está sendo combatida é positiva pro longo prazo.
A próxima reunião do Copom acontece em maio. A expectativa majoritária do mercado é de mais um corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic pra 14,50%. Mas a fala de David nesta quarta deixou a porta aberta pra uma pausa, caso o cenário externo deteriore ou a inflação corrente surpreenda pra cima.
O próprio diretor reconheceu que a inflação deve piorar nos próximos 12 meses antes de melhorar, o que coloca um limite natural no ritmo dos cortes. É mais uma razão pela qual o BC prefere o termo calibração: cada decisão será tomada reunião a reunião, sem compromisso prévio com um destino final.
O que fica claro é que o BC de Gabriel Galípolo quer manter o controle da narrativa. Não quer que o mercado corra na frente e precifique uma Selic lá embaixo que pode não se materializar. E a fala de Nilton David nesta quarta foi mais um capítulo dessa estratégia de comunicação calculada.
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