
O Pará concentra mais de 85% da produção brasileira de óleo de palma, com 230 mil hectares plantados e um ecossistema que gera 20 mil empregos diretos. O estado se tornou o coração do biodiesel no Brasil, atraindo investimentos bilionários e protagonizando histórias de crescimento meteórico. Mas o que uma reportagem da Forbes Brasil publicada nesta terça-feira (08) retrata como caso de sucesso esconde uma realidade mais complexa: o setor de biodiesel paraense vive um momento de turbulência intensa, com falências, aquisições estrangeiras e apostas de alto risco que dizem muito sobre os rumos do agronegócio no Norte do Brasil.
Pra quem acompanha o mercado de commodities e biocombustíveis, os movimentos recentes no Pará são um retrato fiel do que acontece quando capital abundante encontra um setor promissor, mas volátil. Em poucos meses, a maior produtora de óleo de palma da América Latina teve a falência decretada, a segunda maior foi vendida a um grupo colombiano, e o governo ainda discute se consegue implementar a mistura obrigatória B16 no prazo.
O Grupo BBF (Brasil BioFuels) é talvez o exemplo mais emblemático da montanha-russa do biodiesel paraense. Fundada em 2008 por Milton Steagall, que saiu da posição de office boy pra criar uma empresa de biocombustíveis na Amazônia, a BBF chegou a cultivar mais de 75 mil hectares de palma de óleo nos estados do Pará e Roraima, empregando mais de 6 mil pessoas diretamente e 18 mil indiretamente.
A empresa anunciou investimentos de R$ 2,2 bilhões na construção da primeira biorrefinaria do país, na Zona Franca de Manaus, com capacidade de produzir 500 milhões de litros por ano de Diesel Verde (HVO) e Combustível Sustentável de Aviação (SAF). Era pra ser o marco da transição energética brasileira.
Só que em julho de 2025, a BBF entrou com pedido de recuperação judicial. A dívida total sujeita ao processo: R$ 1,26 bilhão. Entre os credores, nomes como Itaú, Safra, BTG Pactual e Vórtx. Nos três primeiros trimestres de 2025, a empresa reportou prejuízo de R$ 518 milhões, queda de 10,5% na receita líquida (de R$ 427 milhões pra R$ 382 milhões) e recuo de 33% nas vendas de óleo de palma.
A situação piorou. A Justiça decretou a falência da BBF em Belém, a empresa começou a dispensar quase metade da força de trabalho e paralisou a produção no complexo industrial de Acará (PA). Pediu também o cancelamento do registro de companhia aberta junto à CVM.
A empresa alega que uma combinação de fatores detonou a crise: conflitos fundiários, furtos e violência nas propriedades, estiagem severa em 2023 que causou perda de 40% na produção, e restrição de crédito agravada pela pandemia. A história da BBF mostra como mesmo setores com fundamentos sólidos podem implodir quando a execução não acompanha a ambição.
Enquanto a BBF naufragava, outro gigante do dendê paraense mudava de mãos. A Agropalma, fundada em 1982 em Tailândia (PA) e maior produtora de óleo de palma do Brasil por décadas, foi adquirida pelo grupo colombiano Daabon em março de 2026.
O valor estimado da transação: cerca de US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 500 milhões). Parece muito, mas ativos que já foram avaliados em mais de US$ 1 bilhão saíram por um décimo do preço. A venda faz parte do plano de desinvestimento da AlfaPar, holding da família Faria que controlava a operação.
A Agropalma opera uma área total de 107 mil hectares, dos quais 39 mil são de palma plantada e 64 mil são reservas florestais. A estrutura inclui seis extratoras de óleo, duas refinarias (uma em Belém, outra em Limeira/SP) e uma usina de biodiesel recém-inaugurada com capacidade de 36 mil metros cúbicos por ano. Essa usina, aliás, marcou o retorno da empresa ao setor de biocombustíveis depois de 15 anos fora, usando tecnologia 100% enzimática, que substitui reagentes químicos tradicionais por enzimas naturais.
Pro investidor brasileiro, a entrada de capital colombiano no setor de palma do Pará é um sinal duplo. Por um lado, confirma que o ativo tem valor estratégico global. Por outro, levanta a questão: por que empresários brasileiros estão se desfazendo dessas operações justamente quando o mercado de biodiesel cresce?
O contexto macro explica boa parte da efervescência no setor. O Brasil opera desde agosto de 2025 com a mistura obrigatória B15, o que significa que todo diesel vendido no país contém 15% de biodiesel. Pra atender essa demanda, são necessários quase 10 bilhões de litros de biodiesel por ano.
O próximo passo seria o B16 (16% de mistura), originalmente previsto pra março de 2026. Mas o Ministério de Minas e Energia sinalizou que o prazo pode não ser cumprido, repetindo o que aconteceu com o próprio B15, que deveria ter entrado em vigor em março de 2025 e só foi implementado em agosto, por preocupações com inflação.
Se o B16 for implementado, a demanda pode ultrapassar 11 milhões de metros cúbicos, exigindo aproximadamente 8,9 milhões de toneladas de óleo de soja, segundo projeções da StoneX. Isso porque a soja responde por mais de 75% da matéria-prima do biodiesel brasileiro. E é aí que a palma do Pará entra como alternativa estratégica: a produtividade do dendê pode chegar a 8 a 10 toneladas de óleo por hectare, muito acima da soja.
Entender como as taxas de juros afetam investimentos em setores como o agro é fundamental pra quem avalia essas oportunidades. A Selic elevada foi, inclusive, um dos fatores que estrangulou o crédito da BBF.
Além da Agropalma (agora sob controle colombiano) e dos restos da BBF, outros players mantêm operações relevantes no estado. A Oleoplan instalou uma fábrica em Tomé-Açu com capacidade de 288 milhões de litros de biodiesel por ano, usando óleo de palma e sebo bovino como matérias-primas. O projeto contou com incentivos do governo estadual.
No plano nacional, grandes produtores como a Be8 (antiga BSBios), que lidera o mercado com 14,24% de participação e produção de 889 mil metros cúbicos, e a Biopower (da JBS), que investiu R$ 140 milhões pra projetar produção recorde de 650 milhões de litros, mostram que o setor segue atraindo capital pesado.
O Grupo Potencial, do Paraná, foi ainda mais agressivo: anunciou investimento de R$ 2 bilhões pra construir a maior usina de biodiesel do mundo, também no Paraná. A corrida por escala é global, e o Brasil está no centro dela.
Um dado que poucos estão observando: a produção global de óleo de palma deve cair até 5 milhões de toneladas em 2026, segundo projeções da Exame. Isso torna o Brasil, e especificamente o Pará, uma peça ainda mais estratégica no xadrez dos biocombustíveis mundiais.
Na comunidade da Traders, os traders que acompanham o Ibovespa e seus setores já discutem o impacto dessa dinâmica nas ações de empresas ligadas ao agro e à energia. Empresas como JBS (JBSS3), por conta da Biopower, e Vibra Energia (VBBR3), parceira da BBF no projeto da biorrefinaria, estão diretamente expostas a esses movimentos.
A história do biodiesel no Pará é um estudo de caso sobre o agronegócio brasileiro em sua forma mais intensa. De um lado, fundamentos poderosos: demanda crescente por biocombustíveis, mistura obrigatória em expansão, produtividade da palma superior à soja e produção global em queda. Do outro, riscos concretos: crédito caro, conflitos fundiários, clima imprevisível e gestão que nem sempre acompanha o ritmo dos investimentos.
A BBF, que chegou a ser a maior produtora de óleo de palma da América Latina, virou sinônimo de recuperação judicial. A Agropalma, referência há 42 anos, foi vendida a estrangeiros por uma fração do valor de pico. E enquanto isso, o governo debate se consegue ou não subir a mistura de 15% pra 16%.
Pra quem investe em mercados globais via BDRs, vale lembrar que o setor de biocombustíveis é uma tendência mundial. Empresas como Neste (finlandesa, líder em diesel renovável) e Darling Ingredients (americana, matéria-prima pra SAF) são referências lá fora. No Brasil, o setor ainda é dominado por empresas de capital fechado ou em crise, o que limita as opções na bolsa, mas não diminui a relevância do tema pra entender pra onde o dinheiro está fluindo.
O Pará continua sendo o estado com maior potencial pra biodiesel de palma no Brasil. A questão não é se o setor vai crescer. É quem vai sobreviver pra colher os frutos.
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