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Tarifas travam corte nos juros? Wall Street teme cenário inédito

Publicado em
31/3/2026
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Tarifas travam corte nos juros? Wall Street teme cenário inédito
Tarifas travam corte nos juros? Wall Street teme cenário inédito
Tarifas travam corte nos juros? Wall Street teme cenário inédito

Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, admitiu nesta segunda-feira (30) que a economia americana enfrenta um terceiro choque inflacionário consecutivo. Em palestra para alunos de macroeconomia em Harvard, Powell reconheceu que a guerra no Irã, já na quinta semana, está gerando um choque energético cujo tamanho "ninguém sabe ainda". A declaração reforça que o Fed não tem pressa de mexer nos juros, mantidos na faixa de 3,50% a 3,75% desde a reunião de 18 de março.

A fala pegou o mercado num momento delicado. Os futuros do S&P 500 operam em alta nesta manhã de terça-feira (31) após sinais de que Trump estaria negociando o fim do conflito. Mas na Ásia, o estrago foi grande: o Kospi da Coreia do Sul caiu 4%, o Nikkei recuou 2,2% e o Hang Seng de Hong Kong caminha para o pior mês desde janeiro de 2024.

Os três choques que Powell listou em Harvard

Powell foi didático ao enumerar as ondas de pressão que atingiram a economia americana nos últimos anos. A primeira foi a colisão entre oferta e demanda pós-COVID, que ele classificou como o choque mais severo. A segunda foram as tarifas comerciais, que ele minimizou como "um choque muito menor". A terceira, e a mais recente, é o choque energético provocado pela guerra no Irã.

"Estamos recebendo agora um choque energético. Ninguém sabe qual será o tamanho. É cedo demais pra saber", disse Powell aos estudantes. A gasolina nos Estados Unidos já bateu US$ 4 por galão, o maior patamar desde agosto de 2022, e o petróleo caminha pra registrar o maior ganho mensal da história recente.

O problema é que esses choques não chegaram um de cada vez. As tarifas ainda não terminaram de impactar os preços, e a energia já está pressionando por cima. Powell admitiu a tensão: "Existe risco de queda no mercado de trabalho, o que sugere manter juros baixos. Mas existe risco de alta na inflação, o que sugere talvez não manter juros baixos. Você tem tensão entre os dois objetivos."

O que os números dizem sobre a inflação hoje

Os dados mais recentes mostram que a inflação americana ainda roda acima da meta de 2% do Fed. O CPI de fevereiro de 2026 veio em 2,4% no acumulado de 12 meses, com o núcleo (que exclui alimentos e energia) em 2,5%. Já o PCE de janeiro, o indicador preferido do Fed, marcou 2,8%, com o núcleo entre 3,0% e 3,1%.

Pra efeito de comparação: a meta do Fed é 2%. O próprio Powell reconheceu que a inflação está acima do objetivo há cerca de cinco anos. E agora, com o petróleo disparando por causa do conflito no Oriente Médio, o cenário ficou mais complicado antes de melhorar.

Na reunião de janeiro, Powell havia dito que a "inflação das tarifas vai atingir o pico nos trimestres do meio do ano". Mas essa projeção foi feita antes da escalada militar no Irã. Agora, o Fed precisa lidar com dois vetores inflacionários simultâneos: tarifas nos bens importados e energia mais cara em toda a cadeia produtiva.

Por que o Fed decidiu não fazer nada (por enquanto)

O comunicado da reunião de 18 de março foi claro: "A atividade econômica continua se expandindo em ritmo sólido", mas "a inflação permanece um pouco elevada" e "a incerteza sobre as perspectivas econômicas continua elevada". Resultado: juros mantidos em 3,50% a 3,75%.

Houve apenas um voto divergente. Stephen Miran preferiu um corte de 0,25 ponto percentual. O restante do comitê ficou com Powell na postura de espera.

O dot plot (projeção dos membros do FOMC) aponta juros na casa dos 3% baixos até 2027. Ou seja, o Fed ainda vê espaço pra cortar, mas não agora. A postura é de "esperar pra ver", como Powell repetiu mais de uma vez em Harvard: "Achamos que nossa política está num bom lugar pra esperarmos e ver como as coisas se desenrolam."

O dilema dos dois mandatos

O Fed tem dois mandatos: controlar a inflação e manter o pleno emprego. O problema é que os dois estão puxando em direções opostas. Se a guerra encarecer o petróleo por mais tempo, a inflação sobe e exige juros mais altos. Mas se a guerra desacelerar a economia e o emprego enfraquecer, os juros precisariam cair.

Powell comparou a situação atual com os anos 1970, quando choques do petróleo alimentaram uma espiral inflacionária. Mas fez questão de relativizar: "Talvez isso seja só eu", disse, minimizando a comparação. Ainda assim, o paralelo histórico está na mesa. Na comunidade da Traders, traders mais experientes estão justamente debatendo esse risco de estagflação, com posições divididas sobre como se posicionar.

Como os mercados estão reagindo nesta manhã

Os futuros americanos operam em alta na manhã desta terça (31), impulsionados por declarações de Trump sinalizando possível fim da guerra no Irã. Mas a cautela permanece.

Na Ásia, o cenário foi de aversão a risco. O Kospi sul-coreano despencou 4%, o Nikkei japonês recuou 2,2% e as bolsas asiáticas em geral registraram perdas significativas. O New York Times resumiu o momento com a manchete: "A Ásia está sendo esmagada entre os preços do petróleo e o dólar."

Na Europa, os futuros operam mistos, com investidores migrando pra títulos de renda fixa (bonds em alta) num movimento clássico de fuga pra segurança. O mercado de bonds subiu após os comentários de Powell, sinalizando que investidores não esperam altas de juros tão cedo.

Um dado importante: há poucos dias, os traders de juros futuros chegaram a precificar a possibilidade de o Fed subir os juros em 2026. Após a fala de Powell em Harvard, essa aposta perdeu força. O cenário base voltou a ser de manutenção, com possibilidade de um corte se a economia desacelerar.

O que esperar do pregão de hoje na B3

Pro investidor brasileiro, o cenário traz algumas implicações diretas. Com o Fed em modo de espera e o petróleo pressionado, o dólar tende a continuar forte, o que impacta diretamente empresas importadoras e a curva de juros local.

Por outro lado, se Trump realmente conseguir encaminhar o fim do conflito no Irã, os ativos de risco podem ter uma recuperação rápida. Os futuros americanos já estão sinalizando isso. A questão é se a diplomacia vai se concretizar ou se é apenas retórica.

O petróleo em alta beneficia diretamente produtores e exportadores de commodities, mas encarece custos pra praticamente todos os outros setores. E uma inflação global mais persistente pode forçar bancos centrais ao redor do mundo, incluindo o Banco Central brasileiro, a manter juros elevados por mais tempo.

O fator gasolina a US$ 4

Esse número não é trivial. Gasolina a US$ 4 por galão nos EUA corrói o poder de compra do consumidor americano, que responde por cerca de 70% do PIB do país. Se o consumo desacelerar, o crescimento econômico sofre. E se o crescimento sofre com inflação alta, o nome disso é estagflação: o pior cenário possível pra bancos centrais.

Powell sabe disso. Por isso está pisando em ovos. Cada palavra é calibrada pra não assustar o mercado nem dar margem pra interpretações apressadas. "As expectativas de inflação parecem estar bem ancoradas além do curto prazo", disse em Harvard, tentando passar confiança de que a situação não saiu do controle.

Mas a realidade é que o Fed está voando às cegas. A guerra no Irã é uma variável geopolítica que nenhum modelo econométrico consegue prever. E enquanto o conflito durar, a incerteza vai dominar.

O que observar nos próximos dias

Os dados econômicos desta semana e do início de abril serão cruciais pra calibrar as expectativas. O mercado vai monitorar de perto qualquer nova declaração de membros do Fed, dados de emprego (payroll) e sinais diplomáticos sobre o Irã.

Se o conflito se resolver rapidamente, o choque energético pode ser temporário e o Fed terá espaço pra retomar os cortes de juros no segundo semestre. Mas se a guerra se prolongar e o petróleo continuar subindo, o cenário de juros altos por mais tempo se consolida, tanto nos EUA quanto no Brasil.

A frase que resume o momento veio do próprio Powell: "Não sabemos." E quando o presidente do banco central mais poderoso do mundo admite que não sabe, o recado pro investidor é claro: prudência. É hora de proteger o patrimônio, diversificar e evitar apostas concentradas em cenários que ninguém consegue prever.


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