
O Banco do Brasil (BBAS3) registrou lucro líquido de R$ 4,9 bilhões no primeiro trimestre de 2026, uma alta de 33% em relação ao trimestre anterior. O número confirma a trajetória de recuperação que o banco estatal iniciou no 4T25, quando lucrou R$ 5,7 bilhões após o traumático terceiro trimestre de 2025, que entregou apenas R$ 3,78 bilhões e assustou o mercado.
Na comparação anual, porém, o cenário ainda exige cautela. O lucro do 1T26 ficou cerca de 34% abaixo dos R$ 7,37 bilhões registrados no mesmo período de 2025, que já havia sido um trimestre fraco frente ao 1T24 (R$ 9,3 bilhões). Ou seja, o BB segue em modo de reconstrução.
O crescimento sequencial do lucro reflete uma combinação de fatores que vinham se desenhando desde o fim de 2025. O principal deles é a estabilização gradual das provisões para crédito rural, que foram o grande vilão dos resultados do banco ao longo de todo o ano passado.
Em 2025, a carteira de agronegócio do BB foi severamente impactada por safras frustradas, queda nos preços de commodities agrícolas e aumento expressivo da inadimplência entre produtores rurais. O custo do crédito disparou para R$ 61,9 bilhões no ano, forçando o banco a revisar seu guidance duas vezes e a suspender projeções durante o 1T25.
No 1T26, embora o agro ainda pressione, os contratos mais problemáticos da safra anterior estão sendo gradualmente renegociados ou encerrados. A nova política de risco implementada pela gestão reduziu a exposição a operações de maior risco, e a margem financeira começou a se beneficiar do novo mix de crédito, com maior peso em pessoas físicas e menor em agronegócio.
O BB projetou para 2026 um crescimento modesto da carteira de crédito total, entre 0,5% e 4,5%. A estratégia é clara: crescer em pessoas físicas (projeção de 6% a 10% de expansão), segurar empresas (entre -3% e +1%) e reduzir a exposição ao agro (entre -2% e +2%).
A inadimplência total do banco encerrou 2025 em torno de 5,35%. A expectativa do mercado é que esse indicador atinja um pico de 5,8% no segundo trimestre de 2026, para depois começar a recuar. É uma dinâmica importante porque enquanto a inadimplência não cede, as provisões continuam consumindo parte relevante do resultado.
Analistas do Citi apontam que a visibilidade sobre a qualidade dos ativos do BB deve melhorar a partir do final do primeiro semestre de 2026. Isso porque os contratos remanescentes da safra problemática de 2024/2025 vão vencendo e sendo substituídos por operações estruturadas sob as novas regras de risco.
Um dos pontos que mais preocupam investidores é o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE). O BB projetou um ROE entre 10% e 13% para 2026. Pra dar contexto, o Itaú Unibanco (ITUB4) entregou um ROE anualizado de 24,4% em 2025. Bradesco e Santander também operam com rentabilidade superior.
Esse gap não é novo, mas se acentuou com a crise do agro. Historicamente, o BB operava com ROE na faixa dos 20%, comparável ao dos grandes bancos privados. A recuperação desse indicador é o que o mercado quer ver antes de reavaliar o papel com mais otimismo.
Quem acompanha o P/L (Preço/Lucro) do BB sabe que a ação negocia com desconto relevante em relação aos pares. Com o guidance de R$ 22 a 26 bilhões de lucro para 2026 e a cotação atual, o múltiplo continua entre os mais baixos do setor bancário. A questão é se o desconto é justificado pelo risco do agro ou se já é oportunidade.
Junto com os resultados do 4T25, divulgados em fevereiro, o Banco do Brasil apresentou suas projeções para o ano:
Lucro líquido ajustado: entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões. Se o banco entregar o ponto médio (R$ 24 bilhões), representaria crescimento de 16% sobre 2025. Se entregar o topo, avançaria 26%.
Margem financeira bruta: crescimento projetado de 4% a 8%, indicando que o banco espera uma melhora gradual no spread, em parte pela Selic ainda elevada, que beneficia bancos com grande base de depósitos a prazo.
Custo do crédito: projetado entre R$ 53 e R$ 58 bilhões. A redução em relação aos R$ 61,9 bilhões de 2025 seria um sinal importante de que a fase aguda do agro ficou pra trás.
A CEO Tarciana Medeiros afirmou em fevereiro que 2026 será "um novo ano desafiador", mas que o banco está posicionado pra entregar resultados melhores. A gestão adotou tom conservador nas projeções, o que o mercado interpretou como uma banda inferior realista e uma banda superior alcançável caso o agro melhore.
Pra quem investe pensando em Lucro por Ação (LPA) e renda passiva, a notícia não é das mais animadoras. O BB manteve o payout em 30% dos lucros, sem previsão de dividendos extraordinários em 2026.
A decisão faz sentido. O banco precisa reforçar capital e manter solidez no balanço enquanto atravessa a normalização do crédito rural. Mesmo assim, com um lucro projetado de R$ 22 a 26 bilhões e payout de 30%, estamos falando de R$ 6,6 a 7,8 bilhões em dividendos no ano, o que ainda oferece um yield razoável dado o valuation comprimido da ação.
O investidor precisa entender que o BB está priorizando a saúde do balanço sobre a distribuição. É uma escolha racional, mas que pode afastar quem compara com Itaú ou Bradesco em termos de remuneração ao acionista no curto prazo.
O setor bancário brasileiro vive um momento de bifurcação. Enquanto os bancos privados navegam 2026 com resultados sólidos e inadimplência controlada, o BB e a Caixa enfrentam desafios específicos ligados a suas carteiras de crédito direcionado (agro e habitação, respectivamente).
A Selic elevada, que pressiona o custo de captação, ao mesmo tempo beneficia as margens dos bancos com forte base de depósitos. O BB se encaixa nesse perfil, com mais de 70 milhões de clientes e uma das maiores bases de depósitos do sistema financeiro. Mas o benefício é parcialmente anulado pelo custo de crédito ainda alto.
Para quem quer entender a tributação de investimentos no Brasil, é importante lembrar que dividendos de ações são isentos de IR, o que torna papéis como BBAS3, mesmo com yield menor, atrativos do ponto de vista fiscal.
Os analistas estão divididos. De um lado, quem acredita que o pior ficou pra trás aponta que o 4T25 e agora o 1T26 mostram uma tendência de estabilização. A nova safra está sendo contratada com critérios mais rígidos, e a inadimplência do agro deve começar a ceder no segundo semestre.
Do outro, há quem argumente que o BB ainda precisa provar que consegue reconstruir a rentabilidade. Um ROE de 10% a 13% não justifica uma reavaliação significativa do múltiplo, especialmente quando pares privados entregam o dobro. A escolha da plataforma de trading e o acompanhamento constante dos indicadores do banco são essenciais pra quem opera o papel.
O 2T26 será crucial. Se a inadimplência atingir o pico esperado de 5,8% e começar a reverter, o mercado pode antecipar uma melhora mais forte no segundo semestre. Se os números surpreenderem negativamente, a tese de recuperação perde força.
O lucro de R$ 4,9 bilhões no 1T26 é, acima de tudo, um sinal de que o Banco do Brasil está voltando a respirar após um 2025 sufocante. Não é celebração. É estabilização. E, nesse contexto, já é bastante.
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