
O dólar pode cair até R$ 4,50 antes do fim de 2026. A previsão é do economista Robin Brooks, ex-estrategista-chefe do IIF (Instituto Internacional de Finanças) e hoje pesquisador sênior da Brookings Institution, em relatório divulgado nesta segunda-feira (21). O número, publicado horas antes da abertura dos mercados nesta terça (22), choca por contrariar o consenso da Faria Lima, que projeta o câmbio na faixa de R$ 5,20 a R$ 5,40 nos próximos meses.
A moeda americana fechou a sessão de ontem cotada a R$ 5,32, com queda acumulada de 1,8% no mês. A projeção de Brooks implica um recuo adicional de mais de 15% até dezembro. Pro investidor brasileiro, o cenário muda completamente as contas de quem tem exposição internacional, opera commodities ou monta hedge cambial.
O argumento central do economista é estrutural. O Brasil acumulou superávit comercial recorde de US$ 96,5 bilhões em 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, e deve repetir o feito em 2026 graças à safra agrícola robusta e aos preços firmes de minério de ferro e petróleo. Esse fluxo de dólares entrando no país, na visão de Brooks, "não está sendo precificado corretamente pelo mercado".
O segundo pilar da tese é o diferencial de juros. Com a Selic em 14,75% e o Fed mantendo os Fed Funds entre 3,75% e 4%, o carry trade no Brasil oferece um dos prêmios mais atrativos do mundo. "Quando você combina conta corrente positiva com juros reais de quase 9% ao ano, a moeda tende a se valorizar. Esse é o livro-texto", escreveu o economista no X (antigo Twitter).
Brooks ficou conhecido no mercado global por ter chamado, ainda em 2022, a queda do real à frente do consenso pessimista da época. Antes do IIF, foi estrategista-chefe de câmbio do Goldman Sachs e economista do FMI. Tem histórico de apostar contra o consenso, nem sempre acertando. Em 2024, projetou que o euro chegaria à paridade com o dólar, o que não se materializou.
A reação inicial foi morna. Operadores ouvidos pela imprensa especializada lembraram que projeções de bancos brasileiros como Itaú, Bradesco e XP convergem para o dólar entre R$ 5,20 e R$ 5,30 no fim do ano. O Boletim Focus do Banco Central, divulgado segunda-feira, apontou mediana de R$ 5,28 para dezembro de 2026.
Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Parte vê a tese de Brooks como exagerada, dado o cenário fiscal ainda nebuloso e o risco eleitoral à frente. Outros lembram que o dólar já caiu de quase R$ 6 no início de 2025 pros atuais R$ 5,32, e que o movimento pode ter mais fôlego do que parece.
Os futuros do dólar abriram em leve queda nesta manhã. O contrato futuro de maio (DOLK26) recua 0,3%, cotado a R$ 5,318. Já o mini-dólar (WDO), mais usado por pessoa física, registra giro acima da média histórica para o horário, sinal de que a notícia mexeu com investidores menores.
Na Ásia, o iene se valorizou 0,4% contra o dólar após o Banco do Japão sinalizar nova rodada de aperto monetário. O índice DXY, que mede a moeda americana contra uma cesta de divisas, opera em leve baixa de 0,2%. Em Wall Street, os futuros do S&P 500 sobem 0,15% em pré-mercado, sustentados pela temporada de balanços que avança esta semana com Tesla e IBM divulgando resultados.
Há três grandes riscos no caminho do real forte. O primeiro é o cenário fiscal. O arcabouço continua sob pressão, com a meta de resultado primário de 2026 considerada otimista por boa parte do mercado. Qualquer sinalização de afrouxamento pode reverter o movimento de queda do câmbio em questão de dias.
O segundo risco é o ciclo eleitoral. Com a corrida presidencial esquentando, a percepção de risco político tende a aumentar nos próximos meses. Historicamente, anos eleitorais no Brasil vêm acompanhados de mais volatilidade cambial, e os fluxos de portfólio costumam ficar mais cautelosos.
O terceiro é o cenário externo. Se o Fed adiar cortes adicionais ou se houver deterioração do humor global, o fluxo pra emergentes pode secar rapidamente. A escalada da disputa comercial entre EUA e China, que voltou a ganhar tração nas últimas semanas, é outro fator capaz de derrubar a tese de Brooks da noite pro dia.
Um real mais forte tem efeito dúbio na bolsa brasileira. Empresas exportadoras, como Suzano (SUZB3), Embraer (EMBR3) e os frigoríficos JBS (JBSS3) e Marfrig (MRFG3), tendem a sofrer porque suas receitas em dólar viram menos reais quando convertidas. Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) também são afetadas, ainda que parcialmente compensadas pelos preços das commodities, que seguem firmes.
Do outro lado, varejistas com forte exposição a importação se beneficiam. Magazine Luiza (MGLU3), Mercado Livre (MELI34) e o setor de tecnologia importadora têm parte relevante do estoque dolarizado. Aéreas como Azul (AZUL4) também ganham fôlego, já que combustível e leasing de aeronaves são pagos em dólar. O efeito líquido na bolsa, segundo gestores ouvidos no mercado, tende a ser positivo, com o Ibovespa podendo testar os 140 mil pontos caso a tese se materialize.
Pra quem tem dívida em dólar ou exposição cambial relevante, o momento exige atenção. Estratégias de hedge com mini-dólar ganham relevância em janelas de incerteza como esta, especialmente pra exportadoras e importadoras que precisam travar margem em meio à oscilação do câmbio.
Já investidores com BDRs e fundos no exterior podem ver o impacto pelos dois lados. A queda do dólar reduz o valor da carteira em reais, mas pode ser compensada pela valorização do ativo subjacente caso o cenário macro global continue construtivo. A relação entre as principais moedas globais e a performance dos investimentos é mais complexa do que parece à primeira vista, e cada perfil precisa avaliar o próprio mix de risco antes de fazer movimentos bruscos.
A agenda desta terça-feira (22) tem dois eventos relevantes pro câmbio. Pela manhã, o IPCA-15 de abril sai às 9h, com expectativa de inflação em 0,38%. Um número abaixo do esperado pode reforçar a tese de espaço pra corte de Selic mais à frente, o que paradoxalmente fragiliza a moeda. À tarde, o presidente do Fed Jerome Powell discursa em Washington, e qualquer sinalização sobre o ritmo de cortes nos EUA pode mexer com o DXY e, por consequência, com o real.
O Ibovespa fechou ontem aos 137.420 pontos, em alta de 0,4%. Os futuros do índice operam estáveis nesta manhã, com investidores cautelosos antes da abertura. Entre as ações em destaque, Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3) devem reagir tanto ao câmbio quanto às cotações de petróleo e minério de ferro, que sobem em Londres.
A previsão de Brooks pode ou não se confirmar. Mas a discussão que ela traz pra mesa, sobre se o real está realmente subvalorizado depois de anos de pessimismo, é uma das mais relevantes do momento pro investidor brasileiro. O mercado vai começar a precificar essa hipótese nas próximas semanas, e quem estiver atento aos fluxos pode se posicionar antes da multidão.
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