
Os futuros de milho na B3 abriram a semana em alta generalizada nesta segunda-feira (31), com o contrato de janeiro/2027 subindo 1,55% e fechando a R$ 76,77 por saca. O maio/26 avançou 1,52% (R$ 73,27), o julho/26 ganhou 1,09% (R$ 72,10) e o setembro/26 subiu 1,18% (R$ 72,71). O movimento reflete um cenário que o mercado de grãos não via há tempos: três setores disputando o mesmo milho ao mesmo tempo.
O consultor Vlamir Brandalizze, da Brandalizze Consulting, acredita que o contrato de janeiro/27 vai ultrapassar os R$ 80,00 por saca nos próximos meses. A lógica dele é simples: a esse preço, o milho ainda é viável tanto pra produção de etanol quanto pra ração animal, e a demanda de exportação segue firme. Ou seja, não falta comprador.
O grande protagonista dessa história é o etanol de milho. Há dez anos, essa indústria praticamente não existia no Brasil. Hoje, ela responde por 25% de toda a produção nacional de etanol, segundo dados da CNN Brasil. A projeção é que o setor consuma cerca de 34 milhões de toneladas de milho por ano até 2027. Isso é quase um terço do consumo doméstico total projetado de 97 milhões de toneladas.
Some a isso a demanda do setor de proteína animal. A indústria de ração (frangos, suínos, bovinos confinados) segue como a maior consumidora de milho no país e não dá sinais de arrefecimento. Com a exportação de carnes aquecida, quem produz ração precisa de milho. Muito milho.
E tem o terceiro vetor: as exportações de grão in natura. A ANEC (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais) revisou pra cima a estimativa de embarques de milho em março, adicionando 104.700 toneladas ao número anterior. O total projetado pro mês ficou em 801.700 toneladas, o que representa um salto de aproximadamente 69% na comparação com março de 2025. Na terceira semana de março, o ritmo diário de embarques atingiu 52.270 toneladas, 14% acima do ano passado.
Na Bolsa de Chicago, os contratos de milho fecharam a segunda-feira em leve acomodação, mas mantendo patamares elevados. O maio/26 ficou em US$ 4,55 por bushel, o julho/26 em US$ 4,67 e o dezembro/26 em US$ 4,84. Os contratos mais longos (março/27 a US$ 4,94 e maio/27 a US$ 5,01) seguem sinalizando que o mercado internacional também precifica demanda firme.
O relatório WASDE de março do USDA apontou estoques recordes de milho no Brasil e na Ucrânia, criando uma narrativa de "superávit global". Isso pressionou pontualmente os preços em Chicago. Mas, na prática, a demanda interna brasileira tá absorvendo a produção de forma tão intensa que o excedente exportável pode ser menor do que o previsto. O Brasil é o segundo maior exportador mundial de milho, com projeção de 1,69 bilhão de bushels na safra 2025/26, atrás apenas dos EUA (3,3 bilhões).
O plantio da safrinha 2025/26 no Centro-Sul atingiu 97,6% dos 15,675 milhões de hectares estimados até 27 de março. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul já completaram 100% do plantio. O Paraná tá em 97,2% e Goiás em 95,9%.
Em tese, o plantio quase concluído é uma boa notícia. Mas o mercado não tá relaxado. Dois riscos pesam sobre a produtividade. O primeiro é a regularidade das chuvas nas próximas semanas, período crítico de desenvolvimento das lavouras. Chuvas pesadas em fevereiro e início de março causaram atrasos pontuais em regiões do Sul e Centro-Oeste.
O segundo risco é fitossanitário: a cigarrinha-do-milho continua sendo a principal ameaça. O inseto transmite doenças que podem causar perdas de produtividade superiores a 70% nas áreas afetadas, gerando prejuízos bilionários. É o tipo de fator que pode apertar ainda mais a oferta e jogar os preços pra cima.
O dólar comercial operou na faixa de R$ 5,24 a R$ 5,25 nesta segunda. Na semana passada, a moeda americana oscilou entre R$ 5,21 (mínima de 25/3) e R$ 5,31 (máxima de 23/3). Pra quem acompanha o mercado americano e câmbio, essa volatilidade do dólar é relevante porque afeta diretamente a formação de preço do milho em reais.
A recente queda do dólar (de R$ 5,31 pra R$ 5,25 em uma semana) moderou parcialmente os ganhos do milho na B3. Se a moeda americana tivesse se mantido nos R$ 5,30, os futuros de milho estariam ainda mais caros em reais. Ainda assim, o movimento de alta prevaleceu, o que mostra que a pressão de demanda é o fator dominante neste momento.
Pra quem opera commodities agrícolas ou acompanha o setor, os pontos de atenção pras próximas semanas são claros. Primeiro, a evolução climática sobre a safrinha. Qualquer sinal de estresse hídrico em abril pode acelerar a alta dos futuros. Segundo, o ritmo das exportações em abril, que historicamente marca o início da janela forte de embarques pós-colheita da primeira safra. Terceiro, os dados de consumo de etanol de milho, que continuam surpreendendo pra cima.
Entender como indicadores macroeconômicos afetam o mercado é fundamental. Quem quer se aprofundar pode conferir como a Selic afeta seus investimentos, já que juros altos impactam diretamente o custo de carregamento de estoques de commodities.
A projeção de Brandalizze de R$ 80 pro contrato de janeiro/27 não é absurda quando você olha os números. O contrato já tá em R$ 76,77, o que significa que falta uma alta de apenas 4,2% pra atingir o alvo. Com a safrinha ainda em fase de desenvolvimento (e todos os riscos que isso envolve), com etanol consumindo cada vez mais milho e com exportações crescendo 69% na comparação anual, o cenário de oferta apertada tem fundamento.
O contra-argumento é que o USDA aponta estoques globais recordes, o que poderia limitar a alta em Chicago e, por consequência, conter os preços na B3. Mas existe uma desconexão crescente entre o preço internacional e o doméstico: o Brasil tem tanta demanda interna que o milho pode subir aqui mesmo que Chicago ande de lado.
Na comunidade da Traders, os traders de commodities estão de olho exatamente nesse spread. A pergunta que circula é se o prêmio doméstico (diferença entre preço na B3 e preço equivalente de exportação) vai continuar abrindo, o que sinalizaria aperto de oferta local. Se abrir, R$ 80 pode vir antes do esperado.
Milho mais caro tem efeito cascata. Encarece ração, que pressiona o custo de produção de frangos e suínos, que pode chegar no preço da proteína animal no supermercado. Também afeta a competitividade do etanol de milho frente ao de cana. E, pra quem acompanha o Ibovespa e empresas do agro listadas, esse movimento de preços impacta diretamente as margens de frigoríficos (que pagam mais caro pela ração) e favorece produtores e tradings de grãos.
O cenário de fundo é de um milho estruturalmente mais valorizado no Brasil. A revolução do etanol de milho, que transformou o Centro-Oeste num polo sucroalcooleiro de grãos, criou um piso de demanda que não existia uma década atrás. E isso muda o jogo pra todos os participantes da cadeia.
Pra investidores, o recado é: milho virou uma commodity com três motores de demanda simultâneos no Brasil. E quando três setores disputam a mesma safra, o preço só tem um caminho natural.
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