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Golfo Pérsico em tensão: fertilizantes já subiram 40%

Publicado em
20/4/2026
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Golfo Pérsico em tensão: fertilizantes já subiram 40%
Golfo Pérsico em tensão: fertilizantes já subiram 40%
Golfo Pérsico em tensão: fertilizantes já subiram 40%

O cessar-fogo entre Estados Unidos e Ira expira nesta terca-feira (21) e o Estreito de Ormuz, praticamente fechado desde o inicio de marco, continua no centro das atencoes de quem investe no Brasil. O motivo e simples: por ali passam 40% das exportacoes mundiais de ureia, 30% da amonia, 24% dos fosfatos e 50% do enxofre consumidos no planeta. E o Brasil, que importa entre 85% e 90% de todo fertilizante que usa, esta sentindo o golpe no bolso.

O preco medio de importacao de adubos em marco de 2026 bateu US$ 382,60 por tonelada, alta de 22,8% em relacao ao mesmo mes de 2025, segundo dados compilados pela FarmNews. Enquanto isso, o petroleo Brent voltou a operar acima de US$ 95 o barril nesta semana, depois de ter oscilado entre US$ 56 e US$ 119 desde janeiro. Esse sobe e desce tem nome: crise de Ormuz.

O que esta acontecendo no Estreito de Ormuz agora?

Em meados de fevereiro, o conflito entre Washington e Teera escalou ao ponto de travar a navegacao pelo estreito, por onde transita mais de 20% de todo o petroleo consumido no mundo. Desde entao, os dois lados vem alternando momentos de negociacao e tensao.

Na semana passada, a Marinha americana apreendeu um cargueiro iraniano na regiao, e o Ira prometeu retaliacao. As negociacoes avancaram o suficiente pra produzir um cessar-fogo de duas semanas, que expira amanha (21). O presidente Trump concordou com a tregua em troca da reabertura parcial do estreito ao trafego comercial, mas Teera segue tentando manter o controle sobre as rotas de navegacao.

Na sexta-feira (17), o Ibovespa fechou em queda de 0,55%, aos 195.733 pontos, no terceiro pregao consecutivo no vermelho. A Petrobras (PETR4) chegou a cair 7,6% no pior momento da semana, quando o Ira anunciou a reabertura do estreito e o petroleo despencou, antes de reverter parte do movimento. O papel encerrou a sexta cotado a R$ 46,22.

Como o estreito afeta o agronegocio brasileiro?

A cadeia e mais direta do que parece. Ormuz fechado significa petroleo mais caro, que significa diesel mais caro, que significa frete mais caro, que significa alimento mais caro na gondola do supermercado. Mas tem um segundo canal, menos obvio e talvez mais perigoso: os fertilizantes.

O Brasil e o maior importador de fertilizantes do mundo. Cerca de 36% de toda a ureia que o pais comprou no ano passado veio do Oriente Medio. Com o estreito travado, os navios precisam fazer rotas alternativas mais longas e caras, ou simplesmente nao saem dos portos do Golfo Persico.

O Ministerio da Agricultura ja trabalha com um cenario de deficit de 1 a 3 milhoes de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026. E a previsao de consumo total de adubos no pais caiu pra 47,2 milhoes de toneladas, abaixo do que o setor projetava antes da crise.

Se voce quer entender melhor como a inflacao funciona e como ela corroi o poder de compra, vale dar uma olhada no nosso glossario. A mecanica de Ormuz e um exemplo classico de choque de oferta que vira pressao inflacionaria.

Diesel a R$ 7,50 e frete subindo: quem paga a conta?

O diesel S10 subiu 13,6% em marco em relacao a fevereiro, com preco medio de R$ 7,10 por litro. Em algumas regioes, ja bate na casa dos R$ 7,50. O diesel comum (S500) avancou 12,34% no mesmo periodo.

O reflexo no frete foi imediato. O preco medio por quilometro rodado fechou marco em R$ 7,99, alta de 3,36% sobre fevereiro. E a expectativa e de nova alta no fechamento de abril, justamente no momento em que o pais escoa a safra de graos.

A Conab estima a safra 2025/26 em 353,4 milhoes de toneladas. E uma supersafra, mas com margens cada vez mais apertadas. Simulacoes do setor indicam que cada R$ 1,00 a mais no litro de diesel pode elevar significativamente o custo de rotas criticas, como a do Mato Grosso ate o porto de Santos.

Pra quem investe no setor, os FIAgros sao uma forma de acompanhar de perto essa dinamica. Mas e importante lembrar que, com custos subindo, a rentabilidade das cadeias do agro pode ser pressionada nos proximos meses.

A inflacao de alimentos ja esta acelerando

Os numeros do IPCA de marco confirmam o que o consumidor sente no dia a dia. A inflacao oficial ficou em 0,88% no mes, acima dos 0,70% de fevereiro. No acumulado de 12 meses, o indice esta em 4,14%.

Os dois viloes foram exatamente os que a crise de Ormuz pressiona: transportes (puxados pela gasolina, que subiu 4,59%) e alimentacao e bebidas (com alta de 1,56%). Juntos, esses dois grupos responderam por 76% de toda a inflacao de marco.

A alimentacao no domicilio subiu 1,94%, refletindo tanto problemas de oferta em alguns produtos quanto o encarecimento do frete, que e consequencia direta do diesel mais caro. E o ciclo se retroalimenta: petroleo sobe, diesel sobe, frete sobe, comida sobe.

E se o cessar-fogo nao for renovado?

Se as negociacoes falharem e o estreito voltar a fechar completamente, analistas projetam que o Brent pode revisitar a faixa de US$ 110 a US$ 120, patamar que ja foi tocado em marco. Nesse cenario, a Petrobras teria dificuldade em segurar os precos domesticos de combustiveis por muito tempo, e o repasse pra bomba viria mais cedo ou mais tarde.

A FAO (Organizacao das Nacoes Unidas pra Alimentacao) ja alertou que uma crise prolongada em Ormuz pode levar a uma "catastrofe agroalimentar global", dado o volume de insumos que passam por ali. Pra o Brasil, que e ao mesmo tempo o celeiro e o maior importador de adubos do mundo, a situacao e particularmente delicada.

O que o investidor deve monitorar?

A semana que comeca amanha (21) e decisiva. O vencimento do cessar-fogo coloca tres variaveis no radar de quem opera:

Petroleo e Petrobras: se o Brent disparar acima de US$ 100, a PETR4 tende a se beneficiar no curto prazo, mas o custo politico de reajustes nos combustiveis pode limitar a alta. Na semana passada, o papel mostrou volatilidade extrema, oscilando mais de 7% em um unico pregao.

Agronegocio e commodities: empresas do setor como SLC Agricola, BrasilAgro e frigorificos podem sofrer com a compressao de margens se o custo dos insumos continuar subindo. Por outro lado, commodities agricolas em dolar tendem a se valorizar em cenarios de restricao de oferta global.

Inflacao e juros: se o IPCA continuar acelerando por causa de combustiveis e alimentos, o Banco Central pode ter menos espaco pra cortar a Selic adiante. Isso impacta diretamente ativos de risco e o S&P 500, ja que o diferencial de juros entre Brasil e EUA e uma variavel importante pro fluxo de capital estrangeiro.

Na comunidade da Traders, os traders vem discutindo bastante a relacao entre a crise em Ormuz e as oportunidades em papeis ligados a energia e agro. O consenso parece ser de cautela: a volatilidade ta alta demais pra montar posicoes grandes sem protecao.

O quadro geral: vulnerabilidade estrutural

A crise de Ormuz escancara uma fragilidade que o Brasil conhece, mas nunca resolveu de fato. O pais que alimenta boa parte do planeta depende de navios atravessando um estreito de 33 quilometros de largura pra manter sua producao agricola funcionando. E uma equacao que nao fecha.

O Plano Nacional de Fertilizantes, lancado em 2022, tinha como meta reduzir a dependencia externa de 85% pra 45% ate 2050. Quatro anos depois, o numero praticamente nao se mexeu. E enquanto essa dependencia existir, qualquer tensao geopolitica no Golfo Persico vai reverberar direto no custo da safra brasileira, no preco do arroz, do feijao, da carne.

Pra quem investe, a licao e que risco geopolitico nao e algo abstrato. Ele aparece no IPCA, no preco do frete, na margem das empresas listadas e, no fim do dia, na sua carteira. Acompanhar os desdobramentos de Ormuz nesta semana nao e opcional. E pra quem quer entender como o mercado americano reage a esses movimentos, vale conferir nosso guia sobre o Dow Jones e como ele se relaciona com crises energeticas globais.


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