
A Petrobras (PETR4) já acumulou quase R$ 100 bilhões em ganho de valor de mercado desde o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro de 2026. A estatal brasileira se tornou a petroleira que mais se valorizou entre as grandes globais no período, com alta superior a 50% no ano e dez recordes consecutivos de capitalização. Mas a reabertura do Estreito de Ormuz, anunciada na última sexta-feira (17), trouxe uma correção brusca que acendeu o alerta do mercado.
Pra quem acompanha PETR4, o cenário é de montanha-russa. A ação saiu de cerca de R$ 30,82 no início de janeiro pra bater R$ 50,69 na máxima do ano, antes de recuar pra R$ 46,22 no último pregão. O valor de mercado da companhia chegou ao recorde histórico de R$ 673,22 bilhões em 27 de março, o décimo recorde desde que os bombardeios americanos e israelenses começaram.
Tudo começou em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva aérea coordenada contra o Irã. A resposta iraniana foi imediata: o país fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. O resultado foi uma disparada nos preços da commodity.
O petróleo Brent saltou quase 50% desde o início do conflito, chegando a superar os US$ 100 por barril em diversos momentos de março e abril. E quem surfou essa onda com mais intensidade foi justamente a Petrobras.
Nos primeiros 25 dias de guerra, a estatal já havia adicionado cerca de R$ 95 bilhões ao seu valor de mercado. Nos pregões seguintes, esse número se aproximou dos R$ 100 bilhões, um ganho que coloca a Petrobras como vice-líder mundial em valorização entre petroleiras, atrás apenas da norte-americana ConocoPhillips em termos de dólares.
O motivo é relativamente simples. Enquanto grandes produtoras do Oriente Médio tiveram suas operações diretamente afetadas pelo conflito, a Petrobras opera a milhares de quilômetros da zona de guerra. Com produção recorde no pré-sal e custos de extração entre os mais baixos do mundo, a empresa se beneficiou duplamente: petróleo mais caro e operação intacta.
Nem tudo foram flores. No dia 8 de abril, a Petrobras perdeu R$ 27,9 bilhões em valor de mercado num único pregão, a maior queda intradiária em quatro anos. O gatilho foi a sinalização de uma possível desescalada no conflito, com rumores de negociações entre Washington e Teerã.
Naquele dia, o valor de mercado da companhia caiu de R$ 662,8 bilhões pra R$ 634,8 bilhões. Mas no pregão seguinte, a estatal recuperou boa parte da perda e ajudou o Ibovespa a voltar acima dos 195 mil pontos.
Esse tipo de volatilidade no mercado virou rotina pra quem acompanha PETR4 nas últimas semanas. Cada declaração diplomática, cada movimentação militar, cada rumor sobre o Estreito de Ormuz mexe com as cotações de forma violenta.
Na sexta-feira, 17 de abril, o Ministro das Relações Exteriores do Irã anunciou que o Estreito de Ormuz estava "totalmente aberto ao tráfego comercial" durante o período de cessar-fogo. A reação do mercado foi imediata: os futuros do Brent despencaram 10% num único dia, caindo abaixo de US$ 90 o barril.
A trégua, no entanto, tem prazo de validade. O cessar-fogo atual expira na quarta-feira, 22 de abril. Ou seja, até você ler esta matéria, o cenário pode ter mudado completamente.
Pra PETR4, a consequência direta foi uma correção de preço. A ação fechou a R$ 46,22 na sexta, abaixo dos R$ 48,58 da véspera. Mesmo assim, o papel ainda acumula alta expressiva no ano e continua sendo um dos grandes destaques do Ibovespa.
Um levantamento da CNN Brasil mostrou que o valor de mercado da Petrobras subiu 18,9% desde o início da guerra, o maior avanço percentual entre as dez maiores companhias de petróleo do mundo. Em termos absolutos, só a ConocoPhillips ganhou mais em dólares no período.
Três fatores explicam essa liderança:
Distância geográfica do conflito. A Petrobras opera no Atlântico Sul, longe das rotas de petróleo que passam pelo Golfo Pérsico. Enquanto produtoras como Saudi Aramco e ADNOC enfrentam riscos logísticos e operacionais diretos, a estatal brasileira segue produzindo normalmente.
Custo de extração competitivo. O pré-sal brasileiro tem um dos menores custos de extração do mundo, abaixo de US$ 6 por barril em alguns campos. Com o Brent acima de US$ 90, a margem de lucro da companhia é extraordinária.
Política de preços que ainda favorece. Apesar de a Petrobras ter abandonado a paridade internacional de preços (PPI) há alguns anos, a defasagem atual entre preços internos e externos ainda é relativamente pequena. Isso significa que a empresa captura boa parte da alta do petróleo global nos seus resultados.
Pra dimensionar o que aconteceu com as ações da Petrobras em 2026, vale olhar os números frios:
PETR4 acumulou alta de mais de 50% no ano até a máxima histórica. Só no último mês, a valorização passou de 16%. Já a PETR3 (ação ordinária) disparou mais de 18% no mesmo intervalo.
No primeiro trimestre de 2026, as ações da Petrobras na B3 subiram cerca de 57%, o maior crescimento trimestral em quase 30 anos. Pra ter uma ideia, isso supera até o rally pós-eleição de 2022, quando o papel disparou com a expectativa de mudança na gestão da empresa.
O valor de mercado da companhia foi de cerca de R$ 570 bilhões no fim de fevereiro pra R$ 673 bilhões no pico de março. Mesmo com a correção recente, a estatal segue valendo mais de R$ 640 bilhões.
O cenário não é exclusivo da Petrobras. Segundo levantamento publicado pelo Poder360, as grandes petroleiras do mundo estão lucrando, em média, US$ 30 milhões extras por hora desde o início da guerra no Irã. No total, a estimativa é de que o conflito gere US$ 234 bilhões em receitas adicionais pro setor até o fim de 2026.
Esses números colocam a indústria petroleira como a grande beneficiária econômica do conflito. E dentro desse grupo, a Petrobras se destaca pela combinação de escala de produção, baixo custo operacional e distância da zona de risco.
Em menos de 50 dias de guerra, a economia global já perdeu mais de US$ 50 bilhões em custos adicionais de petróleo bruto, segundo estimativas internacionais. É um jogo de soma negativa pro mundo, mas positiva pra quem produz a commodity.
O investidor que acompanha Petrobras (PETR4) precisa ficar atento a três variáveis nas próximas semanas.
Primeiro, a trégua no Irã. O cessar-fogo expira em 22 de abril. Se as negociações avançarem pra um acordo mais duradouro, o petróleo tende a cair mais e, com ele, as ações da Petrobras. Se a guerra recomeçar, o Brent pode voltar acima de US$ 100 rapidamente.
Segundo, a política de preços da Petrobras. Com o petróleo em patamares elevados por tempo prolongado, cresce a pressão política pra que a estatal segure os preços internos de combustíveis. Qualquer sinalização de intervenção na política de preços pode assustar o mercado e derrubar a ação, independentemente do que aconteça com o Brent.
Terceiro, o câmbio. O dólar fechou a R$ 4,98 na última sessão. Como a Petrobras vende petróleo em dólar e tem custos majoritariamente em reais, um dólar forte amplifica seus resultados. Se o real se valorizar com a queda do petróleo, o efeito câmbio pode reduzir parte dos ganhos da companhia.
Outro ponto que o mercado acompanha de perto são os dividendos. Com o petróleo nas alturas, a expectativa é de que a Petrobras distribua proventos robustos nos próximos trimestres. A empresa já pagou dividendos generosos em 2025, e o cenário atual de preços elevados sugere que a tendência deve continuar.
No entanto, vale lembrar que dividendos passados não garantem distribuições futuras. O governo federal, como acionista controlador, tem influência direta sobre a política de dividendos da empresa. E em ano de pressão inflacionária por conta do petróleo caro, a tentação de segurar caixa pra investimentos ou subsidiar combustíveis existe.
A valorização da Petrobras é ótima notícia pra quem tem PETR4 na carteira. Mas o Brasil, como país, vive um paradoxo. O petróleo caro encarece combustíveis, pressiona a inflação e corrói o poder de compra da população. Ao mesmo tempo, aumenta a arrecadação federal (via royalties e participações especiais) e valoriza a maior empresa do país.
É o tipo de situação em que o investidor ganha e o consumidor perde. E pra quem opera na bolsa, entender essa dinâmica é fundamental pra antecipar movimentos do governo que podem afetar diretamente o preço da ação.
A marcação a mercado dos ativos de renda variável reflete exatamente esse tipo de incerteza. O preço de PETR4 hoje embute tanto a expectativa de lucros gordos com petróleo caro quanto o risco de interferência política. Quem compra aceita as duas coisas.
Com a trégua no Irã no fio da navalha e o petróleo ainda acima de US$ 86 o barril mesmo após a reabertura de Ormuz, a Petrobras segue como protagonista do Ibovespa em 2026. O ganho de quase R$ 100 bilhões em valor de mercado em menos de dois meses é um feito que pouquíssimas empresas latino-americanas já alcançaram. A questão agora é se esse valor se sustenta ou se a paz no Oriente Médio vai devolver parte dos ganhos ao mercado.
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