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Gigante do swoosh derrete e atinge piso de uma década

Publicado em
2/4/2026
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Gigante do swoosh derrete e atinge piso de uma década
Gigante do swoosh derrete e atinge piso de uma década
Gigante do swoosh derrete e atinge piso de uma década

As ações da Nike (NKE) despencaram cerca de 14% na terça-feira (1), fechando abaixo de US$ 48 e atingindo o menor patamar desde 2015. O tombo veio depois que a empresa divulgou resultados do terceiro trimestre fiscal de 2026 com lucro líquido 35% menor e, principalmente, uma projeção sombria pro próximo trimestre: receita deve cair entre 2% e 4%, enquanto Wall Street esperava crescimento de quase 2%.

Pro investidor brasileiro que carrega NIKE34 na carteira, o estrago também chegou. O BDR acumula queda de aproximadamente 20% no ano, negociado na faixa dos R$ 27. E o cenário não inspira otimismo no curto prazo.

O que aconteceu com os resultados da Nike no 3T fiscal?

A Nike reportou receita de US$ 11,28 bilhões no trimestre encerrado em fevereiro de 2026, praticamente estável na comparação anual. Em base neutra de câmbio, a queda foi de 3%. O número até veio acima do esperado pelos analistas.

O problema não foi o trimestre em si. Foi o que vem pela frente.

O lucro líquido caiu pra US$ 520 milhões, contra US$ 794 milhões no mesmo período do ano anterior. O lucro por ação ficou em US$ 0,35, uma queda de 35%. A margem bruta recuou 130 pontos-base, pra 40,2%, pressionada justamente pelo aumento de tarifas na América do Norte.

Dois pontos chamaram atenção especial. O canal Nike Direct (vendas diretas ao consumidor) caiu 7% em base neutra de câmbio, sinalizando que a estratégia de reduzir dependência do atacado ainda não vingou. E a Converse, marca controlada pela Nike, teve um trimestre desastroso: receita de US$ 264 milhões (queda de 35%) e um prejuízo operacional de US$ 40 milhões. No mesmo trimestre do ano anterior, a Converse tinha dado lucro de US$ 39 milhões.

A China virou o maior problema

Se os números globais já preocupam, a China é onde a situação realmente assusta. O CFO Matt Friend alertou que as vendas na Grande China devem cair 20% no quarto trimestre fiscal. É a região com a perspectiva mais fraca do mundo pra Nike.

O CEO Elliott Hill reconheceu que a recuperação na China "está demorando mais do que ele gostaria". A marca enfrenta concorrência crescente de rivais locais como Anta e Li Ning, que ganharam relevância nos últimos anos enquanto o sentimento anti-marcas americanas cresceu entre os consumidores chineses.

Quem acompanha o desempenho das principais ações globais em 2026 já sabe que a China tem sido um fator decisivo pra várias multinacionais. No caso da Nike, o impacto é amplificado porque a empresa depende tanto do mercado chinês pra vender quanto pra fabricar.

Tarifas: a conta de US$ 1,5 bilhão

Aqui mora o risco estrutural que mais preocupa o mercado. A Nike fabrica a esmagadora maioria dos seus produtos na Ásia, e as novas tarifas comerciais dos EUA atingem em cheio os três principais polos de produção da marca.

O Vietnã, que responde por 50% de todo o calçado da Nike e 28% do vestuário, enfrenta tarifas de 46%. A Indonésia, com 27% do calçado, tem tarifa de 32%. E a China, ainda responsável por 18% dos calçados e 16% do vestuário, acumula uma tarifa efetiva de cerca de 54% (34% da nova rodada somados aos 20% já vigentes).

Analistas estimam que o custo adicional das tarifas pode chegar a US$ 1,5 bilhão por ano pra Nike. A empresa já está tentando reduzir a fabricação na China pra "dígito único alto" até o fim do ano fiscal, mas migrar cadeias de produção leva tempo e dinheiro.

Pra contextualizar: são 131 fábricas no Vietnã empregando quase 460 mil trabalhadores, e 45 fábricas na Indonésia com mais de 280 mil funcionários. Mudar essa estrutura não é algo que se faz de um trimestre pro outro.

Goldman Sachs e Bank of America abandonam a recomendação de compra

A reação dos analistas foi dura. Dois dos maiores bancos de investimento do mundo rebaixaram a Nike após os resultados.

O Goldman Sachs cortou a recomendação de Compra pra Neutra e derrubou o preço-alvo de US$ 76 pra US$ 52. O Bank of America fez movimento semelhante, também passando pra Neutra com alvo de US$ 55, contra US$ 73 anteriormente.

Outros bancos mantiveram suas recomendações, mas reduziram os alvos de forma significativa. O Barclays passou de US$ 73 pra US$ 67. A Truist Financial, de US$ 69 pra US$ 57. A Piper Sandler, de US$ 75 pra US$ 60. Até a BTIG, que manteve a nota de compra, cortou o alvo de US$ 90 pra US$ 75.

Quando Goldman e BofA rebaixam ao mesmo tempo, o mercado presta atenção. E o volume de venda na sessão de terça confirmou: muita gente decidiu sair da posição.

O que isso significa pro investidor de NIKE34

No Brasil, a NIKE34 começou 2026 cotada em torno de R$ 34 e já opera perto dos R$ 27. A queda de 20% no ano em reais embute tanto a desvalorização da ação em dólar quanto as variações cambiais.

A questão central pra quem tem o papel é: isso é oportunidade ou armadilha?

De um lado, a Nike perdeu mais de 70% do valor desde o pico de US$ 170 em novembro de 2021. É uma marca com reconhecimento global incomparável, contratos com os maiores atletas do planeta e um ecossistema digital que poucos concorrentes conseguem replicar. Historicamente, quedas desse porte em blue chips acabam sendo pontos de entrada pra quem tem horizonte longo.

Do outro, a turnaround do CEO Elliott Hill (que assumiu em outubro de 2024) ainda não produziu resultados concretos. A margem está comprimida, as tarifas podem piorar, a China não coopera e a Converse virou um peso no balanço. Não existe garantia de que o pior já passou.

Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Alguns enxergam o papel como uma oportunidade de longo prazo em ações de qualidade a preços descontados. Outros preferem esperar sinais mais claros de recuperação antes de montar posição.

O que esperar do pregão de hoje

Os futuros americanos operam mistos nesta manhã de quarta-feira (2). O impacto nos papéis da Nike deve se estender, já que o volume de negociação ontem foi muito acima da média e vários fundos provavelmente ainda estão ajustando posições.

Vale ficar de olho em dois fatores nos próximos dias. Primeiro, o desdobramento das tarifas: qualquer sinalização de negociação entre EUA e Vietnã pode dar algum alívio. Segundo, a temporada de resultados de outras empresas de consumo, que vai mostrar se o problema é específico da Nike ou se a demanda global está desacelerando de forma mais ampla.

Pra quem opera no curto prazo e acompanha ativos americanos, a situação da Nike é um caso clássico de como tarifas comerciais, fraqueza geopolítica e execução interna podem convergir e destruir valor de mercado em velocidade assustadora. Em menos de cinco anos, uma das marcas mais valiosas do mundo perdeu dois terços do seu valor de mercado.

Quem investe pensando em construir patrimônio no longo prazo precisa avaliar com frieza se a Nike ainda entrega o que promete ou se entrou em um ciclo de declínio estrutural. Os próximos dois trimestres vão ser decisivos pra responder essa pergunta.


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