
Uma empresa com capital social de R$ 10 mil, aberta em fevereiro de 2025, recebeu R$ 3 milhões do Banco Master no mesmo ano. O dono? João André Calvino Marques Pereira, ex-chefe do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central, o setor responsável por criar as regras que regem bancos como o Master. A informação, obtida pela CNN Brasil a partir de documentos da Receita Federal em posse da CPI do Crime Organizado no Senado, adiciona mais um nome à lista de ex-servidores do BC que receberam valores milionários da instituição financeira de Daniel Vorcaro.
Calvino não é caso isolado. Com ele, já são três ex-funcionários de alto escalão do BC ligados a pagamentos que somam mais de R$ 15 milhões. O caso escancara uma possível rede de captura regulatória dentro da autoridade monetária brasileira, num escândalo que já é considerado a maior fraude bancária da história do país.
Calvino chefiou o Departamento de Regulação do Sistema Financeiro entre 2018 e 2023, período que abrange as gestões de Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto na presidência do BC. Na prática, ele era o responsável por elaborar e revisar as normas que regulam o funcionamento de todas as instituições financeiras do país, incluindo o Banco Master.
Após uma licença, pediu exoneração em junho de 2025. Antes de sair, consultou a Comissão de Ética Pública sobre potenciais conflitos de interesse, afirmando que pretendia atuar com consultoria em gestão de risco. A empresa JGM Solutions, registrada em Taguatinga (DF) com sua esposa Manuela Bezerra, foi aberta meses antes da saída oficial.
O contraste é gritante: uma empresa recém-criada, com capital de R$ 10 mil e sem histórico de mercado, faturar R$ 3 milhões de um único cliente que era, até pouco tempo, regulado pelo próprio dono da consultoria. Em sua defesa, Calvino afirmou que nunca tratou de assuntos relativos ao Banco Master durante sua passagem pelo BC.
As investigações da Polícia Federal e da CGU já haviam identificado outros dois ex-servidores do BC envolvidos com o Master, ambos da gestão Campos Neto.
Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-Diretor de Fiscalização do BC, é acusado de ter recebido aproximadamente R$ 8 milhões em propinas. O esquema envolveu a simulação da venda de um sítio em Minas Gerais a uma empresa controlada pelo pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. O pagamento teria sido disfarçado de transação imobiliária.
Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, recebeu cerca de R$ 4 milhões por meio de dois contratos com a Varajo Consultoria, de propriedade de Leonardo Palhares, identificado pela PF como operador financeiro de Vorcaro. Segundo os investigadores, Belline funcionava como uma espécie de "funcionário" do Master dentro do BC, fornecendo informações privilegiadas e influenciando decisões de supervisão.
A CGU abriu processos administrativos contra ambos em meados de março de 2026, avaliando a expulsão do serviço público. Com Calvino, o total de pagamentos conhecidos do Master a ex-servidores do BC ultrapassa R$ 15 milhões.
A semana foi intensa no Senado. Na terça-feira (8), o presidente do BC, Gabriel Galípolo, depôs na CPI do Crime Organizado e defendeu o sigilo de oito anos imposto aos documentos da liquidação do Master, classificando-o como procedimento padrão previsto em normas de 2018. Galípolo negou ter atuado pessoalmente em favor do banco junto ao STF e afirmou que não havia base técnica para suspender as atividades do Master antes do fim de 2025.
Na quarta (9), surgiram revelações sobre o alcance político dos pagamentos do Master. Segundo declarações à Receita Federal, o banco fez pagamentos a nomes de peso: R$ 10 milhões ao escritório do ex-presidente Michel Temer (que alega ter recebido R$ 7,2 milhões por serviços advocatícios), R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria ligada a ACM Neto, além de valores a Antonio de Rueda (presidente do União Brasil), ao ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski e ao ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.
Na quinta (10), os detalhes sobre a propina de R$ 4 milhões a Belline Santana ganharam mais contornos, com a revelação de que ele usava relatórios falsos de consultoria para justificar os pagamentos. E na sexta (11), veio a bomba sobre Calvino.
O escândalo do Master não é apenas uma questão de corrupção no BC. Ele afeta diretamente o sistema financeiro e, por extensão, qualquer pessoa que tenha dinheiro aplicado em bancos no Brasil.
O Banco Master foi liquidado extraordinariamente pelo BC em 18 de novembro de 2025, quando a instituição tinha apenas 10% das reservas de caixa necessárias. O banco atraiu 1,6 milhão de clientes oferecendo CDBs com retornos muito acima do mercado, alguns superiores a 20% ao ano. A conta dessa imprudência caiu no colo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A exposição total do FGC ao conglomerado Master chegou a R$ 51 bilhões, o equivalente a mais de um terço do patrimônio líquido estimado do fundo (R$ 122 bilhões). Até março de 2026, o FGC já havia desembolsado R$ 38,9 bilhões em garantias aos depositantes. Pra bancar essa sangria, as instituições financeiras associadas tiveram que antecipar R$ 32,5 bilhões em aportes emergenciais, o equivalente a 60 meses de contribuições regulares.
Na prática, bancos de todo o país estão pagando a conta. O Banestes, banco estadual do Espírito Santo, por exemplo, precisou desembolsar R$ 120 milhões só em aportes emergenciais ao FGC. Esse custo, no fim, se reflete em spreads e condições de crédito pra todo mundo.
Quem investe em renda fixa e acompanha a Selic precisa ficar atento: a ANBIMA já revisou seu código de distribuição de produtos para proibir o uso da cobertura do FGC como principal argumento de venda de CDBs e outros depósitos bancários. A era do "pode aplicar tranquilo, tem FGC" acabou.
Outro capítulo devastador envolve o Banco de Brasília (BRB), que tentou comprar 58% do capital total do Master por R$ 2 bilhões. O BC rejeitou a operação em setembro de 2025, citando "ação sem diligência e prudência".
Mas o estrago já estava feito. O BRB concentrou 95% de suas compras de carteiras de crédito no Banco Master, acumulando R$ 30,4 bilhões em ativos adquiridos a partir de julho de 2024. Grande parte dessas carteiras era fraudulenta: o Master adquiria portfólios da consultoria Tirreno sem pagar nada e revendia imediatamente ao BRB, que pagou R$ 12,2 bilhões por esses ativos podres.
O dado mais alarmante: mesmo depois de detectar a fraude em março de 2025, o BRB continuou comprando, adicionando mais R$ 20,7 bilhões em carteiras. O BC determinou um provisionamento de R$ 2,6 bilhões, e o banco sequer conseguiu publicar suas demonstrações financeiras de 2025 no prazo. Nesta semana, um fundo está negociando a compra de ativos do Master que estão com o BRB por até R$ 15 bilhões.
O efeito Master contaminou o Ibovespa em diversas sessões. Nos piores dias, ações de grandes bancos caíram juntas: Santander (SANB11) recuou 2,27% e Banco do Brasil (BBAS3) caiu 1,90%. O "efeito Master" também elevou o custo de captação de bancos médios e pequenos, que passaram a pagar mais caro pra atrair depósitos.
Na comunidade da Traders, os traders estão debatendo intensamente o risco de contágio sistêmico. O consenso que emerge das discussões é que os grandes bancos (Itaú, Bradesco, BB) não correm risco de solvência, mas o encarecimento do crédito e a desconfiança com instituições menores podem pressionar resultados no curto prazo.
Pra quem acompanha o mercado americano, vale lembrar que crises bancárias localizadas (como o Silicon Valley Bank nos EUA em 2023) podem criar oportunidades de compra em papéis sólidos que caem por contágio. Quem investe via BDRs na bolsa brasileira consegue diversificar a exposição geográfica sem depender exclusivamente do sistema bancário local.
A CPI do Crime Organizado continua convocando depoimentos. Roberto Campos Neto, presidente do BC durante o período em que os três ex-servidores atuaram e receberam pagamentos, também foi chamado a depor. A Polícia Federal segue com a Operação Compliance Zero, cuja terceira fase, em março de 2026, levou à segunda prisão de Daniel Vorcaro.
Três perguntas seguem sem resposta satisfatória. Primeira: como o BC não identificou a deterioração do Master enquanto seus próprios servidores recebiam milhões da instituição? Segunda: por que o BRB continuou comprando carteiras fraudulentas mesmo após detectar irregularidades? Terceira: o sigilo de oito anos sobre os documentos da liquidação protege o sistema ou encobre responsabilidades?
O caso Master é um teste de estresse pra governança do sistema financeiro brasileiro. Não pelo tamanho do banco (classificado como S3, representando 0,57% dos ativos totais do sistema), mas pelo que revelou: que a linha entre regulador e regulado pode ser mais tênue do que qualquer investidor gostaria de acreditar.
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