
O petróleo Brent voltou a subir nesta segunda-feira (30) e opera a US$ 115,45 o barril, alta de 2,5%, depois que os Houthis do Iêmen entraram oficialmente na guerra disparando mísseis balísticos contra Israel no sábado. O WTI americano acompanha a alta e negocia a US$ 101,17 (+1,5%). Com o Estreito de Hormuz praticamente fechado desde o início de março e agora uma ameaça concreta ao Bab al-Mandab no sul do Mar Vermelho, o cenário pra commodities energéticas ficou ainda mais tenso.
Pra quem opera na B3, o recado é claro: o dia promete volatilidade. Na sexta-feira, o Ibovespa oscilou perto da estabilidade com o conflito no radar, e o dólar se manteve na faixa dos R$ 5,25. A entrada dos Houthis adiciona uma camada de risco que o mercado ainda não precificou totalmente.
Na madrugada de sábado (28), os rebeldes Houthis lançaram dois mísseis balísticos contra o que chamaram de "alvos militares sensíveis" em Israel. Ambos foram interceptados, sem danos ou vítimas. Mas o significado geopolítico é enorme: os Houthis vinham ameaçando entrar no conflito há semanas, e agora cumpriram a promessa.
O brigadeiro-general Yahya Saree, porta-voz militar do grupo, declarou que os ataques continuarão "até que a agressão contra todas as frentes da resistência cesse". A referência direta ao Irã e ao Hezbollah confirma o que os analistas temiam: o conflito, que começou em 28 de fevereiro com os ataques conjuntos de EUA e Israel ao Irã, está se regionalizando.
E tem um ponto que preocupa ainda mais o mercado de energia: os Houthis ameaçaram fechar o Estreito de Bab al-Mandab, a passagem no sul do Mar Vermelho. Se isso acontecer, seria o segundo gargalo marítimo crítico a ser bloqueado em menos de um mês, depois do fechamento do Hormuz.
Pra entender a gravidade, vale recapitular. Após os ataques de 28 de fevereiro, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã emitiu avisos proibindo a passagem de navios pelo Estreito de Hormuz. O tráfego de petroleiros caiu 70% nos primeiros dias e depois foi praticamente a zero.
Por ali passavam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, algo como 20% da oferta mundial. A Agência Internacional de Energia (IEA) classificou como a "maior disrupção de oferta da história do mercado global de petróleo". Não é exagero. É maior que a crise de 1973.
O resultado nos preços foi brutal. O Brent, que estava em torno de US$ 74 no final de fevereiro, rompeu os US$ 100 em 8 de março e chegou a tocar US$ 126 no pico. Em termos mensais, março caminha pra registrar a maior alta mensal do Brent da história, com valorização superior a 55%.
Em 19 de março, as Forças Armadas dos EUA iniciaram uma campanha militar pra reabrir o estreito, mas os resultados até agora são parciais. A infraestrutura de refinarias, gasodutos e terminais no Golfo Pérsico sofreu danos com os ataques e contra-ataques, o que significa que mesmo um cessar-fogo não normalizaria a oferta rapidamente.
O mês de março foi uma montanha-russa. O S&P 500 acumula queda de cerca de 2% no mês, com o Nasdaq entrando em território de correção. O setor de energia subiu 18,2% no período, com petroleiras americanas surfando o Brent acima de US$ 90. Ações de defesa subiram 14,7%, com destaque pra RTX (+22,1%) e Lockheed Martin (+19,4%).
Na outra ponta, o consumo discricionário caiu 12,3%, o pior setor de março. A lógica é simples: petróleo caro significa gasolina cara, que significa menos dinheiro no bolso do consumidor.
O ouro surpreendeu negativamente. Depois de bater recorde histórico acima de US$ 5.600 a onça em janeiro, despencou pra cerca de US$ 4.100, uma queda de quase 17% em março. É o pior mês pro metal desde outubro de 2008. Liquidação forçada e busca por caixa explicam parte do movimento.
O choque não é só nos combustíveis. Os preços de fertilizantes subiram até 40% desde o início do conflito. Ureia subiu 50%, amônia 20%. Isso porque cerca de 40% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados passam pelo Hormuz. O impacto na inflação global e no custo dos alimentos já começa a aparecer.
A Organização Mundial do Comércio (OMC) alertou que, se os preços de petróleo e gás permanecerem elevados pelo resto do ano, o crescimento do PIB global em 2026 pode ser 0,3 ponto percentual menor que o previsto. A Europa, grande importadora de energia, pode crescer pelo menos 1 ponto a menos. A Índia, com reservas mais magras e forte dependência de crude do Oriente Médio, é ainda mais vulnerável.
No Golfo Pérsico, os danos são severos. Se a guerra continuar até o fim de abril, Kuwait e Catar podem ver seu PIB encolher 14% em 2026. Arábia Saudita e Emirados sofreriam quedas de 3% e 5%, respectivamente.
Economistas de diversos bancos já revisaram projeções de inflação pra cima e falam abertamente em risco de estagflação, aquele cenário desconfortável de inflação alta com crescimento fraco.
O Ibovespa teve semana volátil. Na terça (25), subiu mais de 1% e superou os 185 mil pontos, embalado por declarações de Trump sobre "conversas produtivas" com o Irã. Na quarta (26), devolveu tudo: caiu 1,45% pra 182.732 pontos, com o dólar subindo a R$ 5,2562 (+0,69%), depois que Teerã negou qualquer negociação.
Essa gangorra deve continuar. Na comunidade da Traders, os traders estão acompanhando de perto o comportamento de PETR4 e PRIO3, que se beneficiam do petróleo alto, contra papéis de aéreas e varejo, que sofrem com combustível e inflação em alta.
O Goldman Sachs publicou relatório na semana passada apontando o Brasil como um dos emergentes mais bem posicionados nesse cenário. Os motivos: correlação positiva com petróleo (somos exportadores líquidos de crude), valuations razoáveis na bolsa e um ciclo de flexibilização monetária ainda em andamento. Mas esse último ponto pode mudar se a inflação importada apertar.
E é aí que entra a Selic. O Banco Central já sinalizou cautela. Se o choque de petróleo contaminar as expectativas de inflação, o ciclo de cortes pode desacelerar ou até pausar. O mercado de juros futuros já precifica essa possibilidade.
A segunda-feira (30) começa com o mercado digerindo a entrada dos Houthis na guerra. Os futuros americanos operam mistos na pré-abertura. Na Ásia, as bolsas fecharam majoritariamente em baixa, com Tóquio caindo mais de 1%.
Pra o investidor brasileiro, os pontos de atenção são:
Petróleo acima de US$ 115 favorece Petrobras e petroleiras juniores, mas pressiona companhias aéreas (Azul, Gol), varejo e qualquer empresa com forte componente de frete nos custos.
Dólar na faixa de R$ 5,25 pode se manter ou subir dependendo do apetite por risco global. Exportadoras se beneficiam, mas importadoras sofrem.
Fertilizantes em alta podem impactar o agronegócio brasileiro na segunda safra. Empresas como SLC Agrícola e BrasilAgro merecem atenção.
A grande incógnita do dia é se os Houthis vão de fato tentar bloquear o Bab al-Mandab. Se isso acontecer, seria um segundo choque logístico global em menos de um mês, e o petróleo pode buscar os US$ 120 novamente. Se houver sinais de desescalada, por outro lado, podemos ver uma correção rápida nos preços de energia e um alívio nos mercados.
O conflito completa um mês nesta segunda-feira. E a única certeza é que a volatilidade não vai embora tão cedo.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.