
Você montou uma posição que valorizou bem. Mas o mercado tá instável, a volatilidade subiu, e você não quer vender o ativo agora por questões fiscais, convicção ou simplesmente porque acredita que tem mais upside pela frente. O que fazer? É exatamente pra esse dilema que existe o collar, uma das estratégias com opções mais inteligentes pra quem quer dormir tranquilo sem precisar zerar a posição.
O collar é pouco falado nos conteúdos de finanças pessoais, mas é amplamente usado por gestores e traders profissionais no mundo inteiro. Neste guia, você vai entender como funciona o collar estratégia opções, como montar na prática com ações brasileiras, quando faz sentido usar, e quais os erros mais comuns que levam as pessoas a perder dinheiro mesmo usando a estratégia certa.
O collar é uma estrutura de opções composta por três elementos:
O resultado é uma espécie de "colarinho" ao redor da sua posição: você limita a perda máxima lá embaixo (pelo put comprado) e, ao mesmo tempo, limita o ganho máximo lá em cima (pelo call vendido). A posição fica protegida dentro de uma faixa.
Analogia simples: imagina que você tem um carro que valorizou muito. Você compra um seguro contra batidas graves (a put) e, pra bancar o seguro, aluga o carro nos finais de semana (a call vendida). Se o carro bater feio, o seguro cobre. Se alguém quiser comprar o carro por um preço alto, você pode ser obrigado a vender. Mas enquanto isso, você está protegido.
Se quiser entender primeiro como opções funcionam do zero, leia nosso artigo Como operar opções: guia para iniciantes antes de continuar aqui.
Vamos usar um exemplo real com uma ação brasileira pra deixar tudo concreto.
Suponha que você comprou 1.000 ações de VALE3 a R$60,00 cada. Hoje elas estão valendo R$80,00. Você tem um lucro não realizado de R$20.000. O mercado tá incerto, a Vale vai divulgar resultados daqui a 30 dias, e você quer manter a posição mas está preocupado com uma possível queda.
Você compra uma put com strike de R$75,00, vencimento em 30 dias, pelo prêmio de R$2,50 por ação.
Isso garante que, mesmo que a Vale caia pra R$60, R$50 ou qualquer valor abaixo de R$75, você pode exercer a opção e vender suas ações por R$75,00. Sua perda máxima a partir de hoje fica limitada.
Custo da proteção: 1.000 x R$2,50 = R$2.500.
Pra financiar (ou reduzir) o custo da put, você vende uma call com strike de R$87,00, vencimento em 30 dias, e recebe R$2,50 por ação de prêmio.
Isso significa que, se a Vale subir acima de R$87,00, você é obrigado a vender suas ações por R$87,00. Você abre mão do ganho acima desse nível.
Receita da call: 1.000 x R$2,50 = R$2.500.
Nesse exemplo, o prêmio recebido pela call vendida é exatamente igual ao prêmio pago pela put comprada. Isso é chamado de zero-cost collar, ou collar de custo zero. O custo líquido da estrutura é R$0.
Você está protegido sem desembolsar nada extra. Mas pagou um preço: abriu mão do ganho acima de R$87,00.
Com o collar montado no exemplo acima (posição em VALE3 a R$80, put R$75, call R$87), o payoff no vencimento fica assim:
Resumindo a estrutura:
O zero-cost collar é a versão mais popular da estratégia, exatamente porque parece "gratuita". E tecnicamente é: você não desembolsa nada além das margens da corretora.
O truque pra montar um collar de custo zero é encontrar strikes de call e put cujos prêmios sejam iguais ou muito próximos. Na prática, isso não é sempre possível no ponto exato que você quer, então há um trade-off:
A arte está em calibrar essa troca de acordo com o que você quer proteger e o quanto você aceita abrir mão de ganho.
O collar não é pra qualquer situação. Ele faz sentido em contextos específicos:
Quando a posição valorizou muito e você não quer vender agora (por motivos tributários, por exemplo), o collar trava o ganho mínimo enquanto você aguarda o momento certo pra sair.
Resultado trimestral, decisão do Copom, eleições, dado de inflação importante. Antes de eventos de risco, a volatilidade sobe e montar um collar protege a posição durante a incerteza.
Se você tem convicção no ativo mas sabe que o curto prazo pode ser turbulento, o collar deixa você manter a posição sem ansiedade. Essa é uma das abordagens de gestão de risco no trading mais inteligentes pra quem pensa no longo prazo.
O zero-cost collar resolve exatamente isso. O mercado financia sua proteção via call vendida.
Essa é uma das perguntas mais comuns. A resposta é: depende do que você quer.
Você comprou PETR4 a R$32 e hoje está em R$40. A Petrobras vai divulgar resultado daqui a 15 dias. Você monta um collar:
Você tem ITUB4 a R$28 com entrada a R$20. Volatilidade subiu e você quer proteger. Mas a call no strike que lhe interessa paga menos do que a put custa:
Esse é um collar com custo parcial. Vale a pena? Depende do quanto você valoriza a proteção no patamar de R$26.
Aqui muita gente se perde. A tributação de opções no Brasil funciona assim:
Operações com opções são tributadas como renda variável. O IR incide sobre o ganho líquido apurado no mês.
No collar, você tem três elementos pra calcular: o resultado da ação, o resultado da put e o resultado da call. Cada operação é apurada separadamente no mês, mas o conjunto forma o resultado final.
Se a call foi exercida e você vendeu suas ações pelo strike, o ganho de capital das ações (preço de venda menos custo de aquisição) entra no cálculo. O prêmio recebido pela call e o prêmio pago pela put também ajustam o custo ou o resultado final.
Atenção: a isenção de IR pra vendas de ações até R$20.000 por mês não se aplica a operações com opções. Opções são sempre tributadas, independente do volume.
Por isso é fundamental manter controle detalhado das operações e considerar consultar um contador especializado em renda variável pra não errar na declaração.
O collar dura até o vencimento das opções. Se você quer manutenção contínua da proteção, precisa "rolar" a estrutura antes do vencimento, comprando um novo collar no mês seguinte. Muita gente esquece e fica desprotegida sem perceber.
Quando o mercado tá com medo (VIX alto, por exemplo), os prêmios das opções ficam inflacionados. Isso significa que você paga mais pela put e recebe mais pela call. Em tese, o equilíbrio se mantém, mas os custos de transação e os spreads bid-ask ficam maiores. Montar collar em momentos de calmaria costuma ser mais eficiente.
Puts muito distantes não protegem de verdade. Calls muito próximas limitam demais o upside. A calibração dos strikes precisa refletir tanto o nível de proteção desejado quanto a sua expectativa de movimento do ativo.
No Brasil, o mercado de opções é concentrado em alguns ativos, principalmente PETR4, VALE3, ITUB4, BBDC4, BOVA11 e alguns outros. Pra ações com baixo volume de opções, o spread fica tão alto que o collar vira uma estrutura cara e ineficiente. Antes de montar, cheque a liquidez nos dois lados.
O collar não é uma estratégia pra gerar renda. É uma estratégia de proteção. Quem fica obcecado com o prêmio recebido pela call acaba escolhendo strikes muito baixos, travando o upside em excesso. O foco tem que ser na proteção, não no prêmio.
Corretagem, emolumentos e taxas de liquidação das opções reduzem o resultado líquido. Em um zero-cost collar, esses custos fazem o resultado líquido ser levemente negativo. Sempre inclua os custos no cálculo.
Quando você monta uma estrutura com múltiplas pernas como o collar, acompanhar o preço das ações e das opções em tempo real é fundamental pra tomar decisões rápidas, seja pra rolar a posição antes do vencimento ou pra encerrar parcialmente. No app da Traders, você acompanha cotações em tempo real de mais de 20.000 ativos, incluindo as opções mais líquidas do mercado. Tudo numa interface que facilita o monitoramento contínuo sem precisar ficar em frente ao computador o dia inteiro.
O collar é uma das ferramentas mais elegantes do mercado de opções. Não é pra especular, não é pra alavancar. É pra quem já ganhou e quer garantir que parte desse ganho vai continuar existindo, independente do que o mercado faça.
Com a estrutura certa (put no strike adequado, call no strike certo, vencimento que faça sentido pro seu horizonte), você consegue manter a posição em ativos que acredita, atravessar períodos de volatilidade sem perder o sono, e ainda ter potencial de ganho se o mercado continuar subindo.
Para aprofundar ainda mais no universo das opções pra proteção e geração de renda, confira nosso artigo completo sobre estratégias com opções para proteção e renda.
O mercado vai continuar volátil. Saber usar as ferramentas certas pra se proteger é o que separa quem sobrevive das tempestades de quem perde tudo esperando o tempo abrir. O collar é uma dessas ferramentas.
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