Notícias

Captação em crédito privado triplicou em 14 meses

Publicado em
9/4/2026
Compartilhar:
Captação em crédito privado triplicou em 14 meses
Captação em crédito privado triplicou em 14 meses
Captação em crédito privado triplicou em 14 meses

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) estão prestes a cruzar a marca de R$ 1 trilhão em patrimônio líquido em 2026. Com crescimento de 30,3% só em 2025, quando saltaram de R$ 639,7 bilhões pra R$ 833,5 bilhões, a indústria de recebíveis deixou de ser nicho e virou peça central na alocação de investidores institucionais e, cada vez mais, de pessoas físicas.

Segundo dados da Uqbar, o setor já soma 3.729 fundos operacionais e mais de R$ 820 bilhões sob gestão. A projeção é que o primeiro trilhão chegue ainda no primeiro semestre deste ano. Pra se ter ideia da dimensão: os FIDCs já representam 6,9% do mercado de fundos no Brasil, superando o patrimônio total dos fundos de ações.

O que explica o boom dos FIDCs em 2026?

A combinação é quase perfeita pra esse tipo de fundo. Com a Selic em patamar elevado, o crédito bancário ficou mais caro e mais restritivo. Empresas que antes dependiam dos bancos pra financiar capital de giro passaram a securitizar seus recebíveis via FIDCs, oferecendo retornos atrativos pros investidores.

Do lado da demanda, investidores procuram alternativas de renda fixa com retorno acima do CDI, mas com risco controlado. E é exatamente isso que os FIDCs multicedente e multisacado entregaram em 2025: rentabilidade de 14,66% ao ano, contra 13,95% do CDI no mesmo período. Em uma janela mais longa, de 2020 a 2025, esse segmento acumulou valorização de 164,5%, contra 44,7% do CDI.

Outro fator importante é a Resolução CVM 175, que desde outubro de 2023 permitiu que investidores de varejo acessem FIDCs. Antes, era um produto restrito a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão em investimentos). Agora, qualquer pessoa física pode comprar cotas seniores de FIDCs abertos, desde que o fundo tenha rating e invista apenas em crédito performado.

Rentabilidade acima do CDI com inadimplência controlada

O dado que mais chama atenção no mercado de FIDCs é o equilíbrio entre risco e retorno. Enquanto a rentabilidade se manteve consistentemente acima do CDI, a inadimplência não disparou junto com o crescimento do setor.

Segundo estudo divulgado no início de 2026, a inadimplência dos FIDCs multicedente e multisacado se manteve estável ao redor de 10% durante 2025. O indicador começou o ano acima de 11%, melhorou pra 9,04% em agosto e fechou dezembro em 10,16%. Pra um mercado que dobrou de tamanho em três anos, manter inadimplência estável é sinal de maturidade.

Mas é preciso cautela. Nem todo FIDC é igual. A diferença entre uma cota sênior de um fundo com carteira pulverizada de recebíveis comerciais e uma cota subordinada de um fundo concentrado em poucos sacados é enorme. Na comunidade da Traders, os traders mais experientes alertam que o investidor precisa entender a estrutura de subordinação antes de entrar.

Como funciona a estrutura de cotas?

Todo FIDC tem pelo menos dois tipos de cota: a sênior, que recebe primeiro e tem menor risco, e a subordinada, que absorve as primeiras perdas. Quanto maior a subordinação do fundo (ou seja, quanto mais cotas subordinadas existem em relação às seniores), mais protegido fica o cotista sênior.

Pra o investidor de varejo que está começando a explorar esse mercado, o foco deve ser nas cotas seniores de fundos com boa subordinação, carteira diversificada e rating de agência reconhecida. É uma lógica parecida com a de quem está avaliando o melhor investimento pra iniciantes: entender o risco antes de olhar só pro retorno.

CVM 240: o ajuste fino que impulsiona o setor

Em março de 2026, a CVM editou a Resolução 240, que fez ajustes pontuais no Anexo Normativo II da Resolução 175 (o que regula especificamente os FIDCs). A norma refina aspectos operacionais dos fundos, facilitando a criação de estruturas mais sofisticadas sem comprometer a proteção ao investidor.

Esse tipo de evolução regulatória é o combustível silencioso do boom. Gestoras já projetam que o número de FIDCs no mercado pode saltar dos atuais 3.003 pra 10.768 fundos até 2030, segundo a Uqbar. Em patrimônio, a expectativa é chegar a R$ 2,584 trilhões em cinco anos.

A desbancarização do crédito no Brasil, que vinha sendo discutida há mais de uma década, finalmente ganhou tração. Grandes empresas, fintechs e até cooperativas de crédito estão usando FIDCs como instrumento pra financiar operações que antes ficavam presas no sistema bancário tradicional.

Quem são os maiores e onde está o dinheiro

O ranking dos 20 maiores FIDCs do Brasil mostra uma concentração em setores como energia, agronegócio, automotivo e consumo. Fundos ligados a grandes cadeias de fornecedores, como os de antecipação de recebíveis de montadoras e varejistas, lideram em patrimônio.

Mas a grande novidade é o crescimento dos FIDCs de recebíveis pulverizados, especialmente os ligados a cartões de crédito, boletos e duplicatas de pequenas e médias empresas. Esses fundos diversificam o risco em milhares de sacados diferentes, reduzindo a dependência de um único pagador.

Pra quem acompanha os setores mais promissores pra investir em 2026, vale prestar atenção em como o crédito estruturado está redistribuindo capital na economia real. A tese não é apenas de rendimento: é de transformação na infraestrutura financeira do país.

Os riscos que o investidor não pode ignorar

Apesar dos números animadores, FIDCs não são livres de risco. E com a popularização do produto, o cuidado precisa ser redobrado.

O primeiro ponto é o risco de crédito. Se os devedores dos recebíveis não pagam, o fundo sofre. A inadimplência média de 10% em FIDCs multicedente pode parecer alta, mas é compensada pela subordinação e pelos spreads cobrados. O problema é quando um fundo concentra exposição em poucos sacados ou setores em dificuldade.

Há também o risco de liquidez. Muitos FIDCs são fechados, o que significa que o investidor não pode resgatar antes do vencimento. Mesmo os abertos podem ter prazos de resgate longos. Não é o tipo de investimento pra quem precisa de acesso rápido ao dinheiro.

E existe um risco menos óbvio: o de complexidade. FIDCs são estruturas sofisticadas, com regulamentos extensos e mecânicas de cascata de pagamento que nem todo investidor entende. A abertura pro varejo trouxe oportunidade, mas também trouxe responsabilidade. O número de contas de pessoa física em FIDCs disparou desde a CVM 175, e nem todos esses novos investidores compreendem o que estão comprando.

FIDC vs. outras opções de renda fixa

Com a Selic projetada pra se manter em patamares elevados ao longo de 2026, o investidor tem várias opções de renda fixa competindo pela atenção: Tesouro Direto, CDBs, LCIs, LCAs, debêntures e agora FIDCs.

A vantagem do FIDC é o prêmio de crédito. Como o fundo investe em recebíveis de empresas (e não em títulos do governo), ele paga um spread acima do CDI. Cotas seniores de bons FIDCs têm entregado entre 105% e 120% do CDI, dependendo do perfil de risco.

A desvantagem é que, diferente do Tesouro Direto, não há garantia soberana. E diferente de CDBs até R$ 250 mil, não há cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). O retorno maior vem acompanhado de risco maior, e isso precisa estar claro na cabeça de quem aloca.

Pra investidores que já têm exposição a ações do Ibovespa e querem diversificar a parcela de renda fixa com algo mais rentável, os FIDCs podem fazer sentido como complemento. Não como base da carteira.

O que esperar pro resto de 2026

A tendência é clara: os FIDCs vão continuar crescendo. A marca de R$ 1 trilhão deve ser atingida entre o segundo e o terceiro trimestre, consolidando o produto como a terceira maior classe de fundos do país (atrás apenas dos multimercados e dos fundos de renda fixa tradicionais).

A digitalização da originação de crédito, com fintechs criando plataformas que conectam cedentes diretamente aos FIDCs, deve acelerar ainda mais o fluxo. Fundos multissetoriais, que investem em recebíveis de diversos segmentos ao mesmo tempo, estão ganhando espaço como alternativa pra quem quer diversificação dentro do próprio FIDC.

Pra quem está acompanhando como o cenário político pode impactar os mercados em 2026, vale lembrar que o crédito privado tende a ser menos sensível a ruídos eleitorais do que a bolsa. Mas não é imune: uma deterioração fiscal severa ou uma crise de confiança poderia apertar as condições de crédito e afetar a qualidade dos recebíveis.

O mercado de FIDCs vive seu melhor momento. Mas, como toda boa oportunidade, exige estudo, seletividade e respeito ao risco. O trilhão que se aproxima é resultado de uma transformação estrutural no crédito brasileiro. Cabe ao investidor decidir se quer fazer parte dela, e em que proporção.


Aviso Legal

O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.

As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.

Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.

Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.

A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.