
O New York Times publicou nesta terça-feira (8) uma investigação de mais de 10 mil palavras apontando o criptógrafo britânico Adam Back, CEO da Blockstream, como o provável criador do Bitcoin. A reportagem, assinada por John Carreyrou (o mesmo jornalista que derrubou a Theranos) e pelo especialista em IA Dylan Freedman, usou inteligência artificial para analisar 134.308 posts de três listas de e-mail cypherpunk ativas entre 1992 e 2008. Back negou. E a comunidade cripto, em peso, concorda com ele.
Nesta quarta-feira (9), o Bitcoin opera estável em torno de US$ 71.200, praticamente sem reação à reportagem. O Ibovespa abriu perto dos 192 mil pontos, e o dólar recuou pra cerca de R$ 5,15, ambos ainda digerindo o alívio geopolítico do cessar-fogo entre EUA e Irã anunciado ontem.
Carreyrou e Freedman compilaram uma base de dados massiva de posts publicados em fóruns cypherpunk, o movimento de criptógrafos e ativistas de privacidade que floresceu nos anos 90. Usando análise estilométrica com IA, ou seja, comparação de padrões de escrita, os pesquisadores concluíram que Adam Back foi o autor com maior semelhança linguística com os textos de Satoshi Nakamoto em três rodadas independentes de análise.
Os indícios levantados incluem hábitos de escrita peculiares: tanto Back quanto Satoshi usavam dois espaços entre frases, grafias britânicas e os mesmos padrões de uso incorreto de hífens. Além disso, Back descreveu praticamente todas as funcionalidades centrais do Bitcoin em posts entre 1997 e 1999, quase uma década antes da publicação do whitepaper em 2008.
Há também a conexão técnica mais óbvia: Back é o inventor do Hashcash, o sistema de prova de trabalho (proof-of-work) que serve de base direta pro mecanismo de mineração do Bitcoin e é citado no whitepaper original.
Não é a primeira vez que o nome de Back aparece nessa discussão. Ele é uma das figuras mais antigas do movimento cypherpunk, com décadas de pesquisa em criptografia aplicada. A Blockstream, empresa que ele fundou e dirige, é uma das maiores companhias de infraestrutura do ecossistema Bitcoin.
Mas a proximidade com a tecnologia é justamente o argumento de quem descarta a tese. Vários dos primeiros cypherpunks tinham ideias parecidas, e a sobreposição de vocabulário e conceitos entre pessoas do mesmo círculo acadêmico não é exatamente uma surpresa.
Back foi enfático na negativa. Em publicação no X (antigo Twitter), escreveu: "Eu não sou Satoshi, mas fui um dos primeiros a focar nas implicações positivas da criptografia pra privacidade e dinheiro eletrônico." Segundo ele, as coincidências refletem ideias compartilhadas dentro do movimento cypherpunk, não autoria escondida.
A reação do mercado e da comunidade cripto foi quase unânime: ceticismo. E não só por cortesia.
Robert Graham, pesquisador de cibersegurança, analisou o código-fonte escrito por Back e por Satoshi e concluiu que "não se parecem nem remotamente". Jameson Lopp, cofundador da Casa (empresa de custódia de Bitcoin), foi mais direto: disse que Satoshi "não pode ser identificado por análise estilométrica" e acusou o NYT de "pintar um alvo do tamanho de um sequestro nas costas de Back com evidências frágeis".
Alex Thorn, da Galaxy Digital, classificou o relatório como "lixo". Michael Saylor, da MicroStrategy e um dos maiores detentores institucionais de Bitcoin, lembrou que e-mails contemporâneos entre Satoshi e Back sugerem que eram pessoas distintas. "Até alguém assinar com as chaves de Satoshi, toda teoria é só narrativa", afirmou.
Na comunidade da Traders, o assunto dominou as discussões desde ontem à noite. O consenso entre os traders é que, independentemente de quem seja Satoshi, o que importa é a descentralização do protocolo, não a identidade de seu criador.
Um ponto que apareceu com força nos debates é o risco de segurança. Satoshi Nakamoto detém uma carteira estimada em cerca de 1 milhão de Bitcoins, o que equivale a mais de US$ 71 bilhões aos preços atuais. Identificar publicamente essa pessoa, verdadeira ou não, pode colocá-la em risco real de sequestro, extorsão ou violência.
Lopp e outros especialistas criticaram o NYT por publicar a investigação sem considerar adequadamente esse aspecto. "Mesmo que estivessem certos, deveriam ter se perguntado se vale a pena colocar a vida de alguém em risco por uma manchete", escreveu um desenvolvedor no fórum Bitcoin Talk.
É impossível separar essa investigação do histórico de Carreyrou. O jornalista ficou mundialmente famoso por expor a fraude da Theranos, a startup de exames de sangue fundada por Elizabeth Holmes. Naquele caso, Carreyrou revelou uma mentira. Aqui, ele tenta provar uma identidade que o próprio acusado nega, sem evidências conclusivas.
A análise linguística encomendada pelo próprio NYT, vale destacar, não confirmou de forma definitiva que Back é Satoshi. O resultado foi de "maior semelhança", não de certeza.
O preço do Bitcoin não reagiu à reportagem. A criptomoeda opera em torno de US$ 71.200, com variação de +0,04% nas últimas 24 horas. O movimento de alta recente, que levou o BTC de volta acima dos US$ 70 mil, está mais relacionado ao cessar-fogo entre EUA e Irã do que a qualquer revelação sobre Satoshi.
Pra quem investe em cripto pela bolsa brasileira, os BDRs de criptomoedas disponíveis na B3 acompanham esses movimentos sem necessidade de abrir conta em exchange estrangeira. É uma forma prática de ter exposição ao Bitcoin em reais, via corretora brasileira.
A resposta curta: nada. E isso é bom.
O Bitcoin foi desenhado pra funcionar sem depender de nenhuma pessoa ou instituição. Mesmo que Satoshi fosse identificado amanhã, o protocolo continuaria operando exatamente igual. Os blocos continuariam sendo minerados, as transações seguiriam sendo validadas pela rede descentralizada.
O risco real, caso a identificação fosse confirmada, seria de pressão de venda sobre os Bitcoins atribuídos a Satoshi. Se esses cerca de 1 milhão de BTC fossem movimentados ou vendidos, o impacto no mercado seria brutal. Mas essa carteira permanece intocada desde 2010, e analistas consideram improvável que seja movimentada, seja quem for o dono.
Pra quem quer entender se Bitcoin vale a pena em 2026, o fundamento segue o mesmo: escassez programada, adoção crescente e um ativo que opera 24 horas sem intermediários.
Adam Back é apenas o mais recente numa longa lista de suspeitos. Ao longo dos anos, jornalistas e pesquisadores já apontaram nomes como Hal Finney (falecido em 2014), Nick Szabo, Craig Wright (que chegou a reivindicar o título na Justiça e perdeu) e até Elon Musk, que negou repetidamente.
O que diferencia essa tentativa é a escala da análise: 134 mil posts processados com IA é um volume que nenhuma investigação anterior conseguiu cobrir. Ainda assim, estilometria tem limitações conhecidas. Pessoas do mesmo círculo intelectual, lendo e respondendo os mesmos textos por anos, naturalmente convergem em estilo.
Entender mecanismos como short selling e venda a descoberto pode ser útil pra quem quer se proteger de eventuais movimentos bruscos em ativos de cripto, caso alguma revelação futura traga volatilidade real.
A reportagem do NYT deve continuar gerando debates, mas o mercado já deu sua resposta: seguiu em frente. O Bitcoin opera com base em fundamentos de oferta, demanda e liquidez global, não em quem escreveu o código original.
O que realmente está movendo os preços hoje é o cenário geopolítico: o cessar-fogo entre EUA e Irã trouxe alívio pras commodities e pro câmbio, enquanto o mercado de cripto surfou o sentimento positivo. O Ibovespa bateu novo recorde acima dos 193 mil pontos ontem e opera hoje numa leve acomodação, perto dos 192 mil.
Pra o investidor brasileiro, a lição é simples: fatos movem preços, narrativas movem manchetes. Manter o foco nos dados e na gestão de risco é mais produtivo do que apostar em quem é ou não Satoshi Nakamoto.
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