
O BTG Pactual (BPAC11) confirmou nesta terça-feira, 8 de abril, a assinatura de documentos vinculantes para a aquisição do controle acionário do Banco Digimais, instituição digital controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. A operação acontece em meio a uma crise financeira severa no Digimais, que acumula um rombo estimado em R$ 8,5 bilhões e está sob monitoramento direto do Banco Central.
O valor da transação não foi divulgado. Em comunicado ao mercado, o BTG informou que "celebrou documentos vinculantes para a aquisição de participação de controle no Banco Digimais S.A.", com o objetivo de "estabelecer um valor de referência e condições específicas para a venda total das ações do Banco Digimais e outros direitos relacionados em um processo competitivo a ser lançado oportunamente".
Na prática, o BTG colocou uma oferta na mesa que vai servir como piso num leilão futuro organizado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). É o chamado mecanismo de stalking horse, comum em processos de venda de ativos em dificuldade: se outro banco apresentar proposta melhor, leva. Se ninguém superar, o BTG fica com o Digimais.
O Digimais não é um banco pequeno. Até setembro do ano passado, a instituição reportava R$ 9,3 bilhões em ativos e R$ 420 milhões de patrimônio líquido. O foco sempre foi crédito ao consumidor, especialmente financiamento de veículos usados, que representava cerca de 73% da carteira de crédito em dezembro de 2024.
O problema começou a ficar visível quando auditorias revelaram inconsistências graves. Das 55 mil operações de crédito consignado vendidas ao fundo EXP1, aproximadamente 22 mil contratos simplesmente não tinham lastro. Quase 40% dos contratos não existiam como operações reais. Esse dado sozinho já seria suficiente pra acender todos os alarmes do mercado.
A carteira de crédito do banco já vinha encolhendo: caiu 18% em 2024 em relação ao ano anterior, fechando em R$ 2,4 bilhões. A combinação de inadimplência elevada no pós-pandemia, inconsistências contábeis e a fraude nos consignados criou um buraco difícil de tapar.
A crise ganhou tração depois da liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, que revelou conexões societárias e práticas operacionais que passaram a ser auditadas com rigor. O Digimais entrou no radar do Banco Central, que passou a exigir mudanças na diretoria e aportes de capital.
Em dezembro de 2025, Edir Macedo injetou R$ 250 milhões de recursos próprios no banco, numa tentativa de estabilizar a operação. Mas o movimento foi insuficiente. Pior: o Grupo Record retirou cerca de R$ 2 bilhões que mantinha investidos na instituição, agravando a situação de liquidez.
À primeira vista, comprar um banco em crise parece um negócio arriscado. Mas o BTG Pactual não é exatamente um banco que faz apostas cegas.
O interesse principal está na carteira de crédito veicular. Financiamento de veículos usados é um segmento com demanda estável, ticket médio atrativo e inadimplência historicamente controlável quando a operação é bem gerida. Pra um banco que vem diversificando suas fontes de receita além do mercado de capitais, faz sentido estratégico absorver essa operação a um preço de liquidação.
Além disso, o BTG vive um momento de resultados excepcionais. No terceiro trimestre de 2025, o banco reportou receita de R$ 8,8 bilhões (alta de 37% na comparação anual) e lucro líquido de R$ 4,5 bilhões (crescimento de 42%). O retorno sobre patrimônio (ROE) bateu 28,1%, com analistas projetando sustentabilidade acima de 30% nos próximos anos.
Com esse nível de geração de caixa, absorver um banco em dificuldade e reestruturar a operação é uma manobra que o BTG tem capacidade financeira pra executar. A XP revisou pra cima suas estimativas de lucro do banco em 18% pra 2026 e 19% pra 2027, com preço-alvo de R$ 63 por ação.
Um detalhe importante: essa transação é a primeira a seguir as novas regras do FGC, estabelecidas após o escândalo do Banco Master no final de 2025. O caso Master expôs fragilidades na forma como o fundo garantidor lidava com bancos em dificuldade, e as novas diretrizes agora exigem um processo competitivo transparente.
O FGC não é apenas um espectador nessa história. Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, o fundo apoia a aquisição pelo BTG e está disposto a estender os prazos das dívidas que o Digimais mantém com a entidade, se necessário. A lógica é simples: uma venda ordenada custa muito menos ao FGC do que uma eventual liquidação, que acionaria o seguro de depósitos e poderia custar bilhões ao sistema.
Nos próximos meses, o FGC deve convocar um leilão formal pra que outros interessados possam apresentar propostas. Se outro banco ou grupo financeiro quiser disputar o Digimais, terá que superar a oferta do BTG. Quem conhece o mercado avalia que a chance de surgir um concorrente é baixa, dado o tamanho do rombo e a complexidade da reestruturação necessária.
A conclusão da operação está condicionada a três etapas obrigatórias:
Primeiro, o lançamento do processo competitivo pelo FGC, que deve acontecer nos próximos meses. Segundo, a declaração do BTG como vencedor desse processo, ou seja, ninguém apresentar oferta superior. Terceiro, as aprovações regulatórias do Banco Central e do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
Não há cronograma oficial divulgado. Processos regulatórios no setor bancário brasileiro costumam levar de três a seis meses, mas a urgência do caso Digimais pode acelerar a análise. O Banco Central tem acompanhado de perto a situação e tem interesse direto em resolver o problema antes que ele se agrave.
O mercado recebeu a notícia de forma relativamente tranquila. O BTG é um banco com histórico de aquisições bem executadas e capacidade de integração operacional comprovada. A incorporação do Digimais, se concretizada, adicionaria uma carteira de crédito ao consumidor ao portfólio do banco, diversificando receitas que hoje são concentradas em gestão de ativos, investment banking e wealth management.
O risco, claro, está no tamanho do rombo. R$ 8,5 bilhões é um número que exige atenção, mesmo pra um banco do porte do BTG. A due diligence vai ser decisiva pra determinar quanto desse rombo é recuperável e quanto é perda seca. Contratos de crédito sem lastro, por definição, não geram receita futura.
Pra o investidor que acompanha o setor bancário, o caso Digimais levanta questões mais amplas. A crise expôs fragilidades na supervisão de bancos digitais de médio porte no Brasil, e o Banco Central vem endurecendo os controles desde o caso Master. Quem investe em bancos ou ações do setor financeiro precisa ficar de olho nesse movimento regulatório.
O Digimais não é um caso isolado. Desde a liquidação do Banco Master em novembro de 2025, o mercado financeiro brasileiro vive um período de maior escrutínio sobre bancos médios e digitais. O FGC reformulou suas regras, o Banco Central intensificou as auditorias e investidores passaram a olhar com mais cuidado pra onde estacionam seu dinheiro.
Pra quem mantém controle detalhado da própria carteira, esse tipo de evento reforça a importância de diversificação e de entender o risco de crédito das instituições onde se investe. CDBs e outros produtos de renda fixa de bancos médios oferecem taxas mais altas justamente porque carregam mais risco. O FGC garante até R$ 250 mil por CPF por instituição, mas ninguém quer depender dessa garantia.
O desfecho da aquisição do Digimais pelo BTG vai ser acompanhado de perto pelo mercado. Se der certo, confirma a capacidade do maior banco de investimentos da América Latina de transformar problemas em oportunidades. Se não, abre uma discussão ainda mais séria sobre a saúde do sistema bancário brasileiro de médio porte. Nos próximos meses, o leilão do FGC vai definir o rumo dessa história.
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