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Comprar casa ficou 40% mais difícil do que há dois anos

Publicado em
9/4/2026
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Comprar casa ficou 40% mais difícil do que há dois anos
Comprar casa ficou 40% mais difícil do que há dois anos
Comprar casa ficou 40% mais difícil do que há dois anos

A prestação de um imóvel financiado no Brasil custa hoje quase 50% mais do que custava em 2021. Com a Selic a 14,75% ao ano, o maior patamar desde 2006, as taxas de financiamento imobiliário passaram de cerca de 7% ao ano para a faixa de 11% a 12%, dependendo da linha de crédito. E o cenário ficou ainda mais complicado: o governo estuda usar recursos do FGTS no Desenrola 2.0 para renegociar dívidas de famílias inadimplentes, o que pode drenar a principal fonte de crédito habitacional do país.

Na prática, quem quer comprar a casa própria em 2026 enfrenta um cerco triplo: juro alto, crédito mais escasso e regras mais duras de financiamento. O resultado é um mercado que, apesar de continuar lançando imóveis em ritmo forte, exclui cada vez mais compradores da equação.

Como a Selic a 14,75% encarece o financiamento imobiliário

Pra entender o impacto, basta fazer uma conta simples. Um imóvel de R$ 400 mil, financiado em 30 anos com 20% de entrada (R$ 320 mil de saldo devedor), tinha uma prestação inicial de aproximadamente R$ 2.130 por mês quando a taxa era de 7% ao ano, em 2021. Com a taxa atual na faixa de 11,5%, essa mesma prestação salta pra R$ 3.170. São R$ 1.040 a mais todo mês no bolso do comprador.

Ao longo de 30 anos, a diferença no custo total do financiamento passa de R$ 440 mil. É como se você comprasse o imóvel e, de brinde, pagasse mais um apartamento inteiro só de juros extras.

As linhas vinculadas à poupança (SBPE) já operam com taxas entre 10,49% e 12,49% ao ano, dependendo do banco e do relacionamento do cliente. As linhas com recursos do FGTS, voltadas pra imóveis de até R$ 350 mil, ainda praticam taxas menores (na faixa de 8% a 9,5%), mas é justamente esse recurso que está sob ameaça. Quem está pensando em como começar a investir em 2026, precisa considerar que o custo de oportunidade de imobilizar capital num imóvel nunca foi tão alto.

O FGTS no Desenrola 2.0: crédito habitacional sob risco

O governo estuda incluir recursos do FGTS no programa Desenrola 2.0, voltado à renegociação de dívidas de famílias inadimplentes. A proposta reacende um debate antigo: o fundo deve financiar moradia ou servir como instrumento de emergência econômica?

A ABRAINC (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) já se posicionou contra. Em nota, a entidade disse que a medida "exige cautela para não comprometer o acesso à moradia no país" e que "mudanças que comprometam a sustentabilidade do FGTS afetam diretamente o financiamento imobiliário de longo prazo".

Os números sustentam a preocupação. Entre 2020 e 2025, as operações de alienação do FGTS somaram R$ 236 bilhões, segundo dados do Ministério do Trabalho. Dos 42 milhões de trabalhadores ativos com conta no fundo, 21,5 milhões (51%) haviam aderido ao saque-aniversário. Desses, cerca de 70% anteciparam o saldo junto a instituições financeiras.

Ou seja: o fundo já está sendo drenado por múltiplas frentes. Adicionar o Desenrola à equação pode reduzir ainda mais a capacidade do FGTS de abastecer linhas de crédito habitacional, especialmente aquelas voltadas à baixa renda.

A economista Juliana Inhasz, professora do Insper, foi direta: "Quanto mais a gente mexe nesse FGTS, menor é essa nossa segurança. Para os setores que utilizam o FGTS, isso também é um problema, porque eles bebem muito dessa fonte. É um tipo de recurso relativamente barato, mas que pode ficar cada vez mais caro."

A contradição do governo: proteger ou gastar o FGTS?

A ironia não passa despercebida. Há menos de seis meses, o próprio governo alterou as regras do saque-aniversário sob o argumento de preservar a sustentabilidade do FGTS e evitar a erosão do fundo. O discurso era claro: proteger a função original do fundo para habitação e infraestrutura.

Agora, esse mesmo fundo que "precisa ser preservado" volta à mesa como ferramenta de alívio social de curto prazo. A lógica mudou, mas a conta continua a mesma: menos dinheiro no FGTS significa crédito imobiliário mais caro e mais escasso.

Em ano pré-eleitoral, a tentação é grande. Aliviar a inadimplência melhora rápido a percepção econômica. Mas o custo é transferido pro futuro. E quem paga a conta é a construção civil e, no fim, quem quer comprar a casa própria. Esse tipo de decisão política influencia diretamente o cenário de mercado em ano eleitoral.

Caixa apertou as regras: entrada maior e menos financiamento

Como se o juro alto e a ameaça ao FGTS não bastassem, a Caixa Econômica Federal endureceu as regras de financiamento desde novembro de 2024. As principais mudanças foram:

Pela tabela SAC, a entrada mínima passou de 20% para 30% do valor do imóvel. Num apartamento de R$ 400 mil, isso significa tirar R$ 120 mil do bolso em vez de R$ 80 mil. Pra muita gente, esse aumento de R$ 40 mil na entrada é a diferença entre conseguir ou não comprar.

Pela tabela Price, a entrada mínima subiu de 30% para 50%. E o banco passou a restringir o financiamento a apenas um imóvel por CPF, ou seja, quem já tem um financiamento ativo não consegue abrir outro.

A Caixa tomou essas medidas porque a demanda por crédito imobiliário superou a capacidade de captação via poupança. Com os juros altos, os depósitos na caderneta não crescem no ritmo necessário pra sustentar o volume de financiamentos, e o banco precisou racionar.

Mesmo assim, o mercado não para de lançar

O paradoxo do momento é que, apesar de todas essas dificuldades pro comprador, o mercado imobiliário segue aquecido do lado da oferta. Dados do Anuário do Mercado Imobiliário, realizado pelo DataZAP, mostram que São Paulo registrou aumento de 19% nas unidades lançadas em 2025. O segmento econômico (Minha Casa Minha Vida e similares) cresceu 24% e segue como principal motor da atividade.

O Índice FipeZap de venda residencial subiu 0,48% em março de 2026, acumulando alta consistente. Já o índice de locação subiu 1,01% no mesmo mês, mostrando que o aluguel continua pressionado, o que, paradoxalmente, alimenta a demanda por compra.

A questão é: pra quem essa oferta toda está sendo construída? Com crédito mais caro e restrito, o público que efetivamente consegue financiar está encolhendo. Incorporadoras que lançaram com base na demanda de 2024 podem encontrar dificuldade de absorção nos próximos trimestres.

Qual o impacto nos fundos imobiliários?

Pra quem investe em FIIs (fundos imobiliários), o cenário tem dois lados. Por um lado, a Selic alta atrai investidores pra renda fixa e pressiona o IFIX. Por outro, fundos de recebíveis (CRIs) se beneficiam dos juros elevados, já que suas carteiras são indexadas ao CDI ou ao IPCA mais spread.

Fundos de tijolo, especialmente os de lajes corporativas e shoppings, sofrem com a desvalorização das cotas em bolsa, mesmo que a receita de aluguéis continue saudável. É o famoso desconto sobre o valor patrimonial, que faz muita gente questionar se FII vale a pena neste momento.

Na comunidade da Traders, os traders estão divididos: parte enxerga oportunidade justamente nas cotas descontadas de FIIs de qualidade, enquanto outra parte prefere esperar um sinal mais claro de corte na Selic antes de aumentar posição.

O que esperar pro resto de 2026

O mercado de juros futuros precifica que a Selic pode começar a cair no segundo semestre de 2026, mas o ritmo esperado é lento. Se o Copom iniciar cortes em setembro ou outubro, as taxas de financiamento imobiliário só sentiriam o efeito no primeiro semestre de 2027.

Enquanto isso, o comprador que pode esperar provavelmente vai esperar. E quem não pode, precisa se planejar com mais cuidado do que nunca: juntar uma entrada maior, comparar taxas entre bancos, considerar a portabilidade de crédito e, principalmente, fazer as contas pra saber se a prestação cabe no orçamento com folga.

O cenário não é de crise, mas é de seleção. O investidor que acompanha os setores mais promissores sabe que o imobiliário brasileiro continua sendo um mercado gigante e resiliente. Mas 2026 vai separar quem se preparou de quem tomou decisão por impulso. E no crédito imobiliário, decisão por impulso cobra caro por 30 anos.


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