
O petróleo Brent fechou nesta sexta-feira (20) cotado a US$ 112,19 o barril, alta de 3,26% no dia, no maior patamar desde julho de 2022. Com o Estreito de Ormuz efetivamente fechado há 19 dias pelo conflito no Irã, o mercado precifica uma interrupção prolongada de 20% do fornecimento global de crude. E enquanto o barril caro pressiona inflação e bolsas mundo afora, no Brasil ele tem um efeito colateral bilionário: uma enxurrada de receita pública.
Somando as participações governamentais projetadas pela ANP (royalties de R$ 69,4 bilhões e participação especial de R$ 33 bilhões) com o novíssimo imposto de 12% sobre exportações de petróleo instituído por medida provisória no dia 12 de março, o setor de óleo e gás deve injetar algo próximo de R$ 134 bilhões nos cofres da União, estados e municípios ao longo de 2026. É um salto relevante frente aos R$ 61,2 bilhões que só a Petrobras recolheu em royalties e participação especial no ano passado.
A resposta curta: guerra. O conflito envolvendo o Irã levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo. São 19 dias com essa rota praticamente bloqueada, e infraestruturas energéticas no Oriente Médio foram danificadas.
Petroleiras sauditas já projetam o barril acima de US$ 180 a médio prazo se a situação não se resolver. O mercado, por enquanto, trabalha com um cenário de US$ 100 a US$ 120, mas a incerteza é altíssima. Qualquer escalada adicional pode jogar os preços pra patamares que não se viam desde a invasão da Ucrânia em 2022.
O Rio de Janeiro é, de longe, o maior beneficiário. O estado e seus municípios concentram 75% de toda a renda petroleira distribuída no país. A estimativa pra 2026 é de R$ 21,52 bilhões só pro estado fluminense, entre royalties e participação especial.
No ranking municipal, Maricá lidera com folga: a cidade recebeu R$ 4,24 bilhões em royalties em 2024/2025, o que representou 63% de toda a receita do município. Niterói (R$ 2,23 bi), Saquarema (R$ 2,01 bi), Macaé (R$ 1,40 bi) e Campos dos Goytacazes (R$ 706 milhões) completam o top 5. Só em março de 2026, Maricá já recebeu R$ 104,3 milhões em transferências mensais de royalties.
A novidade deste ano é o imposto de exportação de 12%, que o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) estima em R$ 32,1 bilhões de arrecadação. O governo justificou a medida como forma de conter o repasse do barril caro pro preço interno do diesel. Na mesma tacada, Lula zerou o imposto sobre diesel e montou um pacote de renúncia fiscal de R$ 30 bilhões pra amortecer o choque nos combustíveis. As petroleiras, como era de se esperar, foram à Justiça contestar a MP.
Pra ter dimensão, só a Petrobras recolheu R$ 277,6 bilhões em tributos e participações governamentais em 2025, equivalente a R$ 1,1 bilhão por dia útil. A estatal é responsável por cerca de 7% de toda a arrecadação nacional.
Se o petróleo caro é bom pros cofres públicos, pro Ibovespa o dia foi de sangria. O índice fechou aos 176.219 pontos, queda de 2,25%, acumulando recuo de 0,8% na semana. Em fevereiro, o índice havia batido recorde histórico nos 187 mil pontos, e março vem devolvendo parte desse rali.
Dois fatores pesaram. O externo: a escalada da guerra no Irã e o petróleo disparando, que derrubaram Wall Street e aumentaram a aversão a risco global. O interno: preocupações com uma possível delação do empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, que adicionaram incerteza política ao cenário. Pra completar, o dia foi de vencimento de opções sobre ações na B3, o que amplificou a volatilidade.
A Braskem (BRKM5) liderou as perdas com tombo de 14,21%, fechando a R$ 10,20, depois de mudanças em benefícios fiscais que atingiram a petroquímica em cheio. A Cyrela caiu 8,93%.
Do lado positivo, quem surfou foi o setor de petróleo. A Prio (PRIO3) subiu 3,14%, fechando a R$ 67,89, impulsionada tanto pelo barril caro quanto pela abertura do primeiro poço no campo de Wahoo, que reforça a estratégia da empresa de dobrar a produção. Vivara (+2,20%) e Yduqs (+1,38%) também fecharam no azul.
Quem acompanha as melhores ações do Ibovespa em 2026 sabe que o setor de óleo e gás tem sido protagonista neste ano, justamente pelo cenário geopolítico que mantém o barril nas alturas.
O dólar comercial fechou cotado a R$ 5,3092, alta de 1,79% no dia. Na quinta-feira, a moeda americana havia fechado a R$ 5,2206. A combinação de petróleo caro, tensão geopolítica e política monetária restritiva nos EUA empurrou o câmbio pra cima.
A alta do dólar pressiona a inflação brasileira pelo canal de importações e combustíveis, o que pode complicar a vida do Banco Central na condução da política monetária. Quanto mais tempo o petróleo ficar acima de US$ 100 e o dólar acima de R$ 5,30, maior a chance de o Copom manter a Selic elevada por mais tempo.
Existe um paradoxo no cenário atual. O petróleo caro é ótimo pra arrecadação: mais royalties, mais participação especial, mais imposto de exportação. Mas ao mesmo tempo, ele pressiona o preço dos combustíveis, encarece o frete, contamina a inflação de alimentos e serviços, e corrói o poder de compra da população.
O governo tentou resolver essa equação com o pacote de março: taxa exportação em 12%, zera imposto sobre diesel. Mas o equilíbrio é frágil. Se o barril for pra US$ 150 ou mais, como algumas projeções sauditas sugerem, a renúncia fiscal pode ficar insustentável. E se as petroleiras ganharem na Justiça contra o imposto de exportação, a conta fecha diferente.
Há ainda o debate sobre a eficiência do uso dos royalties. Um dado que chama atenção: 12 dos principais municípios que mais recebem royalties no Brasil têm qualidade de vida abaixo da média nacional. Ou seja, o dinheiro chega, mas nem sempre se traduz em serviços públicos melhores.
O cenário continua dominado pela geopolítica. A situação no Estreito de Ormuz é o fator número um pra qualquer projeção de curto prazo. Enquanto a passagem estiver bloqueada, o petróleo não vai ceder.
Na B3, o setor de óleo e gás tende a continuar se beneficiando. Quem investe em setores estratégicos precisa acompanhar de perto os desdobramentos do conflito e seus efeitos em toda a cadeia produtiva.
Do lado macro, o dólar pressionado e o petróleo nas alturas colocam o Banco Central numa posição delicada. O mercado vai monitorar sinais do Copom sobre os próximos passos da Selic, especialmente se a inflação de março vier mais salgada que o esperado.
Na comunidade da Traders, os traders estão divididos: parte vê oportunidade nas petroleiras e em ETFs ligados a commodities, enquanto outra parte prefere cautela diante da volatilidade extrema. O consenso, se é que existe um, é que navegar esse mercado exige gestão de risco apertada e olho nos fundamentos, não na euforia.
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