
A Cemig (CMIG4) reportou lucro líquido de R$ 1,88 bilhão no quarto trimestre de 2025, uma alta de 88% em relação ao mesmo período de 2024. O número chamou atenção do mercado e fez a ação liderar os ganhos do Ibovespa no pregão seguinte, subindo mais de 2% mesmo num dia em que o índice caiu quase 2%.
Mas tem um detalhe importante por trás desse salto: boa parte do resultado veio de um efeito não recorrente. Um acordo trabalhista homologado pelo TRT gerou um impacto positivo de R$ 788 milhões no lucro e R$ 1,19 bilhão no EBITDA. Sem esse efeito, o lucro ajustado ficou em torno de R$ 1 bilhão, uma queda de 12% na comparação anual.
Ainda assim, o mercado gostou. Os números ajustados vieram acima do consenso dos analistas, e o resultado operacional mostrou controle de custos melhor do que o esperado.
A receita líquida consolidada da Cemig no quarto trimestre foi de R$ 11,50 bilhões, um crescimento de 2,9% em relação ao 4T24. A distribuição de energia respondeu por 69% da receita total, enquanto a comercialização ficou com 20%.
O crescimento mais modesto da receita contrasta com o salto do EBITDA. O EBITDA consolidado atingiu R$ 2,95 bilhões, alta de 53,9% na base anual. Mas, de novo, o acordo trabalhista respondeu por R$ 1,19 bilhão desse total. O EBITDA ajustado ficou em R$ 1,81 bilhão, uma queda de 6,5% frente aos R$ 1,94 bilhão do 4T24.
No acumulado de 2025, o EBITDA consolidado somou R$ 8,28 bilhões, com o ajustado em R$ 7,30 bilhões. O lucro líquido anual chegou a R$ 4,90 bilhões no consolidado e R$ 4,15 bilhões no ajustado.
Um ponto que agradou o mercado foi o controle de despesas operacionais. O PMSO (pessoal, materiais, serviços e outros) veio abaixo do esperado pelos analistas, sinalizando disciplina na gestão de custos.
As despesas operacionais de distribuição totalizaram R$ 3,7 bilhões no trimestre, alta de 4,6% na comparação anual, mas abaixo da inflação do período. É um sinal positivo pra quem acompanha a eficiência da companhia.
Por outro lado, os custos principais subiram 8%, acima do crescimento de 2,9% da receita. Essa diferença mostra que a Cemig ainda enfrenta pressão de custos operacionais, algo que investidores precisam monitorar nos próximos trimestres.
A Cemig segue como uma das empresas mais generosas em distribuição de proventos no setor elétrico. O dividend yield dos últimos 12 meses chegou a 13,49%, um patamar que coloca a ação entre as mais atrativas pra quem busca renda passiva na bolsa.
Em dezembro de 2025, a companhia anunciou R$ 677,4 milhões em juros sobre capital próprio (JCP), equivalente a R$ 0,2368 por ação, com pagamento em duas parcelas ao longo de 2026. Além disso, foram distribuídos R$ 417,3 milhões em dividendos (R$ 0,14 por ação) em dezembro.
No total, entre março de 2024 e abril de 2025, a Cemig distribuiu mais de R$ 1,8 bilhão em proventos. É muito dinheiro voltando pro bolso do acionista.
Um ponto de atenção, porém: segundo análise da XP, o payout da Cemig está limitado a 50% até 2028. Isso significa que, mesmo com lucros crescentes, a distribuição tem um teto definido. Pra quem compara com outras elétricas que distribuem 80% ou mais do lucro, esse detalhe faz diferença.
A Cemig investiu R$ 6,63 bilhões em 2025, um recorde histórico que representou alta de 16% em relação a 2024. A maior parte, R$ 5,1 bilhões, foi direcionada à distribuição de energia, com R$ 411 milhões em geração.
O plano de investimentos da companhia é ambicioso: R$ 43,7 bilhões entre 2026 e 2030, com R$ 6,7 bilhões previstos só pra 2026. Esse nível de investimento é importante pra modernizar a rede e atender à demanda crescente, mas tem um custo.
A dívida bruta consolidada chegou a R$ 19,5 bilhões, com caixa de R$ 2,7 bilhões, resultando numa dívida líquida de R$ 16,8 bilhões. A alavancagem (dívida líquida/EBITDA) subiu de 1,3x em 2024 para 2,3x em 2025.
Esse salto na alavancagem é o principal ponto de atenção levantado por analistas. Um endividamento de 2,3x ainda está dentro de níveis confortáveis pro setor elétrico, mas a trajetória de alta preocupa. Se os investimentos continuarem nesse ritmo sem geração de caixa proporcional, a alavancagem pode pressionar ainda mais.
No pregão de 20 de março, a CMIG4 subiu mais de 2% e liderou os ganhos do Ibovespa, cotada em torno de R$ 16,00. O contraste foi notável: enquanto o índice recuava quase 2%, a Cemig caminhava na direção oposta.
O mercado interpretou o resultado como positivo por três motivos. Primeiro, os números ajustados vieram acima do consenso. Segundo, o controle de custos surpreendeu positivamente. Terceiro, o dividend yield acima de 13% continua sendo um forte atrativo num cenário de juros altos.
Para quem acompanha as melhores ações do Ibovespa em 2026, a Cemig se mantém no radar justamente por essa combinação de resultado operacional sólido e distribuição generosa de proventos.
Um tema que segue no horizonte da Cemig é a questão da privatização. O governo de Minas Gerais propõe transformar a companhia em uma corporação sem controlador definido, com o Estado como acionista de referência.
Esse modelo, inspirado em empresas como Embraer e Vale, poderia destravar valor significativo pra ação. A tese é que uma gestão mais independente traria mais eficiência e atrairia investidores institucionais que hoje evitam empresas com controle estatal.
Mas o processo ainda é incerto. A privatização depende de aprovação legislativa e enfrenta resistência política. Por enquanto, é mais um catalisador em potencial do que uma realidade concreta.
O setor elétrico brasileiro vive um momento interessante. Com a Selic em patamares elevados, empresas com fluxo de caixa previsível e bons dividendos ganham protagonismo nas carteiras. A Cemig se encaixa perfeitamente nesse perfil.
Além disso, o setor de distribuição tem se beneficiado do crescimento do consumo de energia, impulsionado pela atividade econômica. A Cemig, como maior distribuidora de Minas Gerais, captura diretamente esse movimento.
O P/L (Preço/Lucro) da Cemig segue abaixo da média histórica, o que sugere que o mercado ainda não precificou totalmente o potencial de crescimento da companhia. Mas é sempre bom lembrar: múltiplos baixos nem sempre significam oportunidade. O Lucro por Ação (LPA) precisa ser analisado em conjunto com a qualidade dos resultados e a sustentabilidade dos proventos.
Pra frente, alguns pontos merecem atenção. O plano de investimentos de R$ 6,7 bilhões em 2026 vai continuar pressionando a alavancagem. A capacidade da companhia de gerar caixa suficiente pra financiar esses investimentos sem comprometer os dividendos é a grande questão.
A XP calcula uma TIR real de aproximadamente 13,1% pro papel, considerada "razoável" mas não excepcional. A casa recomenda cautela no curto e médio prazo, principalmente pelo payout limitado a 50% até 2028.
Do lado positivo, a Cemig tem uma base regulatória sólida, atua num mercado com demanda crescente e mantém uma política de dividendos consistente. Se a privatização avançar, pode ser o catalisador que falta pra destravar mais valor.
No balanço geral, o 4T25 da Cemig mostrou uma empresa que cresce, investe pesado e devolve dinheiro ao acionista. O lucro bilionário chamou atenção, mas o investidor atento precisa separar o que é recorrente do que é extraordinário. A foto é bonita, mas o filme é o que vai ditar o preço da ação nos próximos meses.
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