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Bancão revela bastidores do crédito rural em meio à crise

Publicado em
1/5/2026
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Bancão revela bastidores do crédito rural em meio à crise
Bancão revela bastidores do crédito rural em meio à crise
Bancão revela bastidores do crédito rural em meio à crise

Hoje é feriado de 1º de maio e a B3 não opera, mas a discussão que o mercado financeiro vai retomar na segunda-feira já tem nome e sobrenome: inadimplência no agronegócio. Em entrevista publicada pela The AgriBiz, executivos do Santander detalharam a estratégia do banco pra segurar a onda de calotes no setor que mais cresceu nos balanços bancários da última década e que agora dá sinais claros de fadiga.

O recado é direto. O banco tá apostando em três frentes pra evitar que o problema vire crise sistêmica: renegociação ampla com alongamento de prazos, reforço de garantias com CPR e CRA, e um sistema de incentivos pra quem antecipa pagamentos. Pra quem investe em ações de bancos, fundos do agro ou CRAs, a leitura é importante: o setor entrou num ciclo de ajuste que vai pesar nos próximos balanços e mexer com o apetite de risco do crédito rural.

O que está acontecendo no agro brasileiro

O agronegócio brasileiro saiu de um ciclo dourado entre 2020 e 2022, quando commodities dispararam, o dólar ajudou a margem do produtor e o crédito rural cresceu em ritmo recorde. A virada veio rápido. Preços de soja e milho caíram em relação aos picos, custo de insumos continuou alto, taxa de juros subiu, e o resultado foi previsível: produtor descapitalizado, fluxo de caixa apertado e dificuldade pra honrar dívidas contraídas no auge do boom.

O número de pedidos de recuperação judicial de produtores rurais explodiu nos últimos dois anos. Estados como Mato Grosso, Goiás e Paraná concentram a maior parte dos casos, com produtores grandes e médios entrando na fila. A inadimplência no crédito rural, que historicamente rodava bem abaixo da média do crédito total no Brasil, virou e ultrapassou em algumas categorias.

O Santander, que ampliou de forma agressiva sua exposição ao agro nos últimos anos pra rivalizar com Banco do Brasil e Itaú, sentiu o golpe. O agro é hoje uma das fatias mais importantes da carteira de crédito do banco no Brasil, e qualquer deterioração ali bate forte no ROE consolidado.

O tripé da estratégia do Santander

Pelo que foi exposto na entrevista, o plano do banco se apoia em três pilares que fogem da receita tradicional de provisionar e correr atrás do produtor na justiça.

1. Renegociação preventiva

Em vez de esperar o vencimento e a inadimplência se concretizar, o banco tá indo até o cliente antes do problema estourar. A ideia é alongar prazos, repactuar parcelas e oferecer carência. O argumento dos executivos é simples: melhor manter o produtor produzindo e pagando devagar do que liquidar garantia, comprometer a próxima safra e contabilizar prejuízo no balanço.

Esse movimento de renegociar antes do default é o mesmo que vimos nos grandes bancos americanos durante a crise imobiliária de 2008, quando ficou claro que execução de garantia em massa destrói valor pra todo mundo, inclusive pro credor.

2. Reforço de garantias com CPR e CRA

O Santander vem usando Cédulas de Produto Rural (CPR) e operações estruturadas via Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) pra pulverizar risco e dar mais segurança ao crédito. A CPR transforma a safra futura do produtor em garantia líquida, e o CRA permite securitizar a operação e levar o risco pro mercado de capitais.

Esse formato muda completamente a dinâmica do crédito rural. Até pouco tempo atrás, o banco carregava o risco sozinho até o vencimento. Agora, ele estrutura, distribui e fica com uma fatia. É o mesmo modelo que reorganizou o crédito imobiliário no Brasil na última década.

3. Bônus pra quem antecipa

A terceira frente é mais comportamental. O banco tá oferecendo descontos relevantes pra produtores que conseguirem quitar dívidas antecipadamente, mesmo que parcialmente. A lógica é tirar passivos do balanço a um custo menor do que o esperado em caso de inadimplência. É uma forma elegante de fazer aquilo que os americanos chamam de liability management.

O que isso significa pro investidor

O investidor que tem SANB11, BBDC4, ITUB4 ou BBAS3 em carteira precisa olhar com atenção pros próximos resultados trimestrais. A linha que vai ditar o humor do mercado não é mais a margem financeira, e sim o custo de crédito e o índice de inadimplência da carteira agro.

Se a estratégia do Santander funcionar, o banco evita um pico de provisionamento e mantém o ROE rodando. Se não funcionar, vai ter ajuste pesado nos próximos trimestres, com aumento de PDD (provisão pra devedores duvidosos) puxando o lucro pra baixo.

Já quem tem posição em FIAgros ou CRAs precisa ler com atenção a qualidade da originação. Os fundos com originação bancária estruturada e recebíveis pulverizados tendem a sofrer menos. Os que se concentraram em poucos produtores grandes podem amargar prejuízo. É hora de revisitar a tese e os relatórios mensais. Vale também repensar a alocação dentro do cenário cíclico atual, já que o agro entrou claramente numa fase contracionista do seu próprio ciclo.

O contexto macro que ninguém pode ignorar

A crise do agro não tá descolada do resto da economia. Ela é fruto de uma combinação de fatores: juro alto no Brasil que encarece o custo do dinheiro, commodities em patamar mais baixo em dólar, câmbio volátil que afeta tanto custo de insumos quanto receita de exportação, e uma safra anterior que em várias regiões veio abaixo do esperado por causa do clima.

O Plano Safra ajuda, mas não resolve. Ele oferece linhas subsidiadas, e nem todo produtor consegue acessar nas condições que precisa. A maior parte do crédito rural no Brasil já roda fora do funding subsidiado, então o produtor depende cada vez mais do bolso do banco privado, com taxa de mercado.

Na comunidade da Traders, vários traders e investidores que acompanham agro têm discutido essa onda nos últimos meses. A leitura predominante é que o pior ainda não chegou nos balanços, mas que os bancos que se anteciparam ao problema, como parece ser o caso do Santander, vão sair menos machucados quando o ajuste for total.

O que esperar nos próximos meses

O mercado vai monitorar de perto algumas variáveis. A primeira é o ritmo de novos pedidos de recuperação judicial no agro, que precisa desacelerar pra a tese dos bancos se confirmar. A segunda é o comportamento da safra atual, que se vier forte pode aliviar o caixa do produtor e dar fôlego pra renegociação. A terceira é o preço internacional de soja, milho e algodão, que dita receita.

Pra quem opera ações de bancos no curto prazo, vale acompanhar a divulgação de resultados de bancos privados e públicos. Estratégias de trading baseadas em momentum dos releases ainda funcionam bem nesse setor, especialmente nos dias de divulgação de balanço, quando a volatilidade dispara.

Pra quem pensa em proteção de carteira, há instrumentos que ajudam a mitigar exposição setorial. Estratégias de collar com opções em ações de bancos brasileiros têm sido usadas por alguns gestores pra travar perdas em caso de surpresa negativa nos próximos balanços. E quem busca um ativo pra operar tatica e contra a tendência pode olhar setups de reversão à média, sobretudo em movimentos de exagero pós-divulgação.

O risco invisível: efeito dominó

O ponto que assusta o regulador é o contágio. Crise no agro não fica no agro. Se o produtor não paga o banco, o banco aperta o crédito. Se o banco aperta, o fornecedor de insumos sente. Se o fornecedor sente, a indústria de máquinas agrícolas sente. E por aí vai. A cadeia agroindustrial brasileira é grande demais pra um soluço passar despercebido.

Bancos como o Santander estão tentando, na prática, evitar que o efeito dominó se materialize. A entrevista publicada hoje deixa claro que a aposta é em solução estruturada, não em execução em massa. Resta saber se o tempo vai cooperar e se a próxima safra vai dar a margem necessária pra essa engenharia financeira fechar a conta.

Quando a B3 reabrir na segunda-feira, papéis de bancos e empresas ligadas ao agro devem voltar pro radar. O movimento de hoje em mercados internacionais, com Wall Street precificando dados de emprego americanos divulgados ontem, dá pista de como o humor externo vai abrir o pregão brasileiro. Mas a história doméstica que vai mandar no preço dos bancos brasileiros nos próximos meses é essa: o agro consegue se reerguer, ou os balanços vão sangrar?


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