
A Microsoft está vivendo o pior trimestre em quase duas décadas. Com as ações negociadas a US$ 370 nesta terça-feira (1), a gigante de tecnologia acumula uma queda de aproximadamente 25% em 2026 e já perdeu cerca de US$ 1,4 trilhão em valor de mercado desde o pico de US$ 4,15 trilhões registrado no fim de 2025. O motivo? Uma combinação de gastos astronômicos em inteligência artificial, retorno lento desses investimentos e uma crise de confiança com sua principal parceira no setor, a OpenAI.
Pra quem acompanha o mercado americano, o recado é claro: ter a melhor tecnologia não basta se o modelo de negócio não converte. E é exatamente isso que está acontecendo com o Copilot, a aposta da Microsoft pra monetizar a IA generativa no dia a dia das empresas.
Dos 450 milhões de usuários do Microsoft 365 no mundo, apenas 15 milhões contrataram o Copilot. Isso representa uma taxa de adesão de míseros 3,3%. Pior: a participação do Copilot no mercado americano de assinantes de IA paga caiu 39% nos últimos seis meses.
O preço de US$ 30 por usuário por mês é apontado como a principal barreira. Pequenas e médias empresas, que representam a maior fatia de clientes do Office, simplesmente não enxergam valor suficiente pra justificar o custo adicional. A Microsoft já começou a testar planos mais baratos e formatos alternativos de cobrança, mas os resultados ainda não apareceram.
No dia 17 de março, Satya Nadella anunciou a maior reestruturação do Copilot desde a contratação de Mustafa Suleyman. Jacob Andreou, ex-executivo do Snap com menos de um ano na empresa, foi nomeado vice-presidente executivo do Copilot. Suleyman, por sua vez, foi deslocado pra liderar a pesquisa em modelos de "superinteligência". Um analista da Melius chamou a mudança de "sinal vermelho", sugerindo que a monetização do Copilot fracassou em sua primeira fase.
O volume de dinheiro que a Microsoft está despejando em infraestrutura de IA é, no mínimo, impressionante. O capex projetado pro ano fiscal de 2026 chega a US$ 146 bilhões, um aumento de mais de 230% em relação a dois anos atrás. Só no segundo trimestre fiscal de 2026, a empresa gastou cerca de US$ 37,5 bilhões, o que representa quase 20% de toda a receita trimestral.
Pra colocar em perspectiva: a receita de serviços de IA da Microsoft está num ritmo anualizado de US$ 13 bilhões. Com esse nível de investimento, analistas estimam que levaria de 6 a 8 anos pra recuperar o capital empregado só em data centers e chips. É uma relação de risco e retorno que deixa Wall Street desconfortável.
Quem investe em ações globais precisa prestar atenção nesse tipo de dinâmica. Não basta uma empresa crescer receita se a margem está sendo comprimida por gastos que ainda não se pagam.
Talvez o golpe mais doloroso pro otimismo com a Microsoft em IA tenha vindo de dentro. A OpenAI assinou um contrato exclusivo de US$ 50 bilhões com a Amazon Web Services (AWS) pra hospedar sua nova plataforma corporativa chamada "Frontier". A AWS se tornou a provedora de nuvem exclusiva pra esse produto.
O detalhe que pesa: aproximadamente 45% dos US$ 625 bilhões em obrigações de performance remanescentes (RPO) do Azure vinham de contratos relacionados à OpenAI. Com o acordo AWS, boa parte desse pipeline futuro está em risco.
A Microsoft está considerando ação legal contra a OpenAI, alegando que o acordo viola cláusulas de exclusividade com o Azure. As negociações pra resolver o impasse sem litígio ainda estavam em curso no fim de março.
A relação entre as duas empresas já vinha acumulando atritos. Em 2023, o conselho da OpenAI demitiu Sam Altman sem avisar a Microsoft. Antes disso, a Microsoft teria forçado a integração do GPT-4 no Bing contra a vontade da OpenAI. Agora, com a OpenAI expandindo pra AWS e Oracle, a pergunta que o mercado faz é: o que sobra da parceria?
Nem tudo é negativo nos fundamentos. A receita do Azure cresceu 39% no segundo trimestre fiscal de 2026, com os serviços de IA contribuindo 16 pontos percentuais desse crescimento. As reservas comerciais (commercial bookings) dispararam 230% na comparação anual. A receita total da Microsoft ainda avança 17% ao ano.
Mas o mercado está precificando o risco, não o crescimento atual. Com o capex correndo a US$ 150 bilhões anualizados, investidores querem ver conversão concreta. O Azure caminha pra atingir um ritmo de US$ 100 bilhões de receita anual até meados de 2026, porém a pergunta é se esse ritmo se sustenta sem a exclusividade da OpenAI.
Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Parte vê a queda como oportunidade de entrada numa empresa que historicamente se reinventou. Outra parte alerta que o risco de execução na IA é real e que a compressão de margens pode durar trimestres.
A Microsoft não está sozinha nessa corrida. A Amazon planeja US$ 200 bilhões em capex pra 2026. O Google mira algo entre US$ 175 e US$ 185 bilhões. No total, as big techs devem investir coletivamente cerca de US$ 690 bilhões em infraestrutura de IA neste ano.
O problema é que ninguém ainda provou que a demanda por IA generativa justifica esse nível de investimento coletivo. A Microsoft lidera o Azure em segunda posição com 25% do mercado de nuvem, atrás da AWS com 31%. Se a conversão de IA em receita recorrente não acelerar, o setor inteiro pode sofrer uma correção.
Pra quem monta uma carteira diversificada com fundos de ações expostos a tecnologia, entender esse ciclo de investimento é fundamental. Não se trata só da Microsoft. É uma dinâmica que afeta todo o ecossistema.
O consenso de Wall Street ainda é de compra. Dos 54 analistas que cobrem a MSFT, 37% recomendam "compra forte" e 57% recomendam "compra", com preço-alvo médio entre US$ 589 e US$ 631, o que representaria uma alta de cerca de 30% em relação ao preço atual.
Porém, as vozes cautelosas estão ficando mais altas. A Melius cortou o alvo pra US$ 400 com recomendação de "manter", citando a reestruturação do Copilot como preocupante. O Motley Fool publicou nesta terça uma análise questionando se a ação se tornou uma "armadilha de valor".
O Bank of America mantém recomendação de compra com alvo de US$ 500, argumentando que o Azure continua ganhando market share e que o mercado está exagerando nos riscos de curto prazo.
A Microsoft é negociada na B3 via o BDR MSFT34. Com a queda de 25% da ação em dólar e a valorização do câmbio, o impacto pro investidor brasileiro depende de quando entrou na posição. Quem comprou no pico de 2025 está sentindo a dor.
O caso da Microsoft ilustra um risco que vale pra todas as big techs de IA: gastar bilhões na infraestrutura é a parte fácil. Converter essa infraestrutura em produto que o cliente paga todo mês é o verdadeiro desafio. Com apenas 3% de adesão ao Copilot e a OpenAI migrando pra rival, a tese de "vencedora da IA" ficou mais complexa.
Pra quem está pensando em montar posição em ações de dividendos, vale lembrar que a Microsoft paga um yield de apenas 0,98%. Não é uma tese de renda. É uma tese de crescimento. E quando o crescimento entra em xeque, o mercado cobra rápido.
O primeiro trimestre de 2026 caminha pra ser o pior da Microsoft desde o quarto trimestre de 2008, em plena crise financeira global. A diferença é que, desta vez, o problema não é externo. É uma escolha estratégica de US$ 146 bilhões que ainda precisa provar que valeu a pena.
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