
A Vale (VALE3) deixou claro que o futuro da mineradora passa, cada vez mais, pelo cobre e pelo níquel. A divisão de metais básicos da companhia, a Vale Base Metals (VBM), mais que dobrou seu EBITDA no quarto trimestre de 2025, alcançando US$ 1,4 bilhão. A projeção é ambiciosa: sair dos atuais 10% de representatividade no EBITDA consolidado (dado de 2024) para algo entre 30% e 35% até 2035.
A estratégia não é nova, mas ganhou contornos muito mais concretos nos últimos meses. O CEO Gustavo Pimenta vem reforçando que os metais básicos estão "no centro da ambição de crescimento e criação de valor" da Vale. E os números do 4T25 mostram que essa não é só retórica.
No quarto trimestre de 2025, a Vale reportou prejuízo líquido de US$ 3,8 bilhões, multiplicando por cinco o resultado negativo do 4T24 (US$ 700 milhões). Mas calma: o número assusta mais do que deveria. A maior parte desse rombo veio de baixas contábeis de R$ 15,5 bilhões nos ativos de níquel e provisões relacionadas a Brumadinho e Mariana.
Na modalidade proforma, que exclui esses itens não recorrentes, o lucro líquido foi de US$ 1,4 bilhão, uma alta de 68% na comparação anual. Esse é o número que os analistas olham pra avaliar a saúde operacional do negócio.
A receita líquida chegou a US$ 11,1 bilhões no trimestre, alta de 9% contra o 4T24. No ano inteiro, foram US$ 38,4 bilhões.
O EBITDA proforma somou US$ 4,8 bilhões no 4T25, crescimento de 17% na comparação anual. Já o EBITDA ajustado ficou em US$ 4,588 bilhões, alta de 21% ano contra ano. A geração de caixa livre disparou 107% no trimestre, e a dívida líquida expandida recuou 5%, pra US$ 15,6 bilhões.
A Vale fechou 2025 com a maior produção de minério de ferro desde 2018: 336 milhões de toneladas, acima do topo do guidance (325 a 335 Mt). Só no 4T25, foram 90,4 milhões de toneladas, alta de 6% contra o mesmo período do ano anterior.
Mas o destaque operacional ficou com os metais básicos. A produção de cobre totalizou 382,4 mil toneladas no ano, com o 4T25 entregando 108,1 kt (alta de 6,2% YoY). O níquel cresceu 10,8% no acumulado anual, somando 177,2 mil toneladas.
Esses volumes alimentaram o salto do EBITDA da VBM, que mais que dobrou no trimestre. E é justamente aí que a história fica interessante.
Em 2024, a divisão de metais básicos representava cerca de 10% do EBITDA consolidado da Vale. A projeção pra 2026 já é de 26%. E o plano de longo prazo é ainda mais agressivo: a VBM deve responder por 30% a 35% do EBITDA total até 2035.
Pra chegar lá, a Vale pretende quase dobrar a produção de cobre, saindo de 382 mil toneladas em 2025 pra cerca de 700 mil toneladas anuais em 2035. No níquel, a meta é atingir entre 210 e 250 mil toneladas até 2030.
Em termos de caixa, a VBM projeta um fluxo de caixa livre entre US$ 400 milhões e US$ 1,9 bilhão em 2026, dependendo dos preços internacionais de cobre e níquel. Essa faixa ampla reflete a sensibilidade da divisão aos preços das commodities, mas mesmo no cenário conservador o número é relevante.
A lógica por trás dessa aposta é a transição energética. Cobre é componente essencial em veículos elétricos, redes de energia renovável e infraestrutura de data centers. O níquel entra nas baterias de íon-lítio que alimentam esses veículos e sistemas de armazenamento de energia.
A demanda global por esses metais deve crescer de forma consistente nas próximas décadas, e a Vale quer surfar essa onda. Diferente do minério de ferro, cuja demanda depende fortemente do setor imobiliário e de infraestrutura da China, cobre e níquel têm uma tese de crescimento mais diversificada e de longo prazo.
Um dos catalisadores mais esperados pelo mercado é o IPO da Vale Base Metals. O CEO Gustavo Pimenta afirmou que a divisão deve estar "pronta para o IPO até o meio de 2026". A abertura de capital da VBM seria uma forma de destravar valor pra os acionistas da Vale, já que o mercado historicamente precifica a mineradora quase exclusivamente pelo minério de ferro.
Existe, porém, uma ressalva. A própria Vale admitiu que o mercado ainda não valoriza a VBM de forma adequada, o que pode adiar a operação caso as condições não sejam favoráveis. A ideia é preparar tudo e decidir no momento certo.
Enquanto isso, a Vale Base Metals fechou uma joint venture com a Glencore no Canadá pra desenvolver depósitos de cobre na região de Sudbury, em Ontário. O projeto tem potencial pra produzir 880 mil toneladas de cobre ao longo de 21 anos, com investimento estimado entre US$ 1,6 bilhão e US$ 2 bilhões. Além do cobre, a operação vai extrair níquel, cobalto, ouro e outros minerais críticos. A decisão final de investimento está prevista pro primeiro semestre de 2027.
Em Manitoba, no Canadá, a VBM também montou um consórcio de até US$ 200 milhões pra garantir o futuro da mineração de níquel na região de Thompson.
A ação da Vale (VALE3) acumulou queda de 6,8% em março de 2026, fechando o mês cotada a R$ 82,47. Mas o movimento é lido pelos analistas mais como realização de lucros do que como deterioração dos fundamentos. No acumulado do ano, o papel ainda sobe 14,6%, depois de ter avançado 49% em 2025.
O minério de ferro segue resiliente, na faixa de US$ 117 por tonelada, com alta de 7,7% em março no contrato mais negociado na bolsa de Dalian, na China. Esse patamar de preço sustenta as margens da Vale e dá fôlego pro investimento em metais básicos.
Do lado dos dividendos, a companhia aprovou a distribuição de US$ 2,8 bilhões em proventos em novembro de 2025. O BTG Pactual estima um retorno em caixa de cerca de 9% em 2026, considerando possíveis dividendos extraordinários e recompras de ações. Se quiser entender melhor como funciona o investimento nessa tese, vale conferir o guia sobre como investir em Vale (VALE3).
O guidance de produção de minério de ferro pra 2026 aponta pra algo acima do entregue em 2025, com a meta de longo prazo de ultrapassar 360 milhões de toneladas anuais até 2030, um avanço de cerca de 10%.
Mas o grande catalisador é mesmo a evolução dos metais básicos. Se a VBM entregar os 26% de participação no EBITDA projetados pra 2026, será uma demonstração concreta de que a estratégia de diversificação funciona. Um eventual IPO no meio do ano adicionaria ainda mais combustível à tese.
Do ponto de vista de risco, vale lembrar que as provisões de Brumadinho e Mariana ainda pesam no balanço. O passivo não circulante da mineradora atingiu R$ 111,3 bilhões em dezembro de 2025. Esses compromissos não vão embora da noite pro dia e seguem como fator de atenção.
Outro ponto é a dependência da China. Apesar do esforço de diversificação, o minério de ferro (e seu maior comprador) ainda responde pela maior fatia do resultado. Qualquer desaceleração mais forte na economia chinesa impacta diretamente a receita da Vale. Pra quem quer acompanhar como fatores macro afetam as commodities, o artigo sobre como montar sua primeira estratégia de trading ajuda a entender a dinâmica.
A Vale não está sozinha nessa corrida pelos metais da transição energética. Concorrentes como BHP, Rio Tinto e a própria Glencore também estão ampliando exposição a cobre e níquel. A diferença é que a Vale parte de uma base sólida de produção e tem ativos de classe mundial no Canadá, na Indonésia e no Brasil.
O mercado global de cobre vive uma expectativa de déficit estrutural nos próximos anos. A demanda cresce mais rápido que a capacidade de novas minas de entrar em operação, o que tende a sustentar preços elevados. Pro níquel, o cenário é um pouco mais complexo por conta da oferta crescente da Indonésia, mas a Vale aposta em produtos de maior valor agregado pra se diferenciar.
Quem acompanha o mercado global e quer entender como esses movimentos se refletem nos ativos disponíveis na B3 pode conferir o conteúdo sobre Bitcoin vale a pena em 2026? pra comparar diferentes teses de investimento, ou o guia sobre COE: o que é e quando vale a pena investir pra conhecer alternativas de estruturação.
A tese da Vale hoje é dupla: continuar extraindo valor do minério de ferro num cenário de preços favoráveis e, ao mesmo tempo, construir uma segunda avenida de crescimento em metais básicos. Os próximos trimestres vão dizer se a VBM consegue manter o ritmo de evolução que mostrou no 4T25, ou se os desafios de execução em projetos de longa maturação vão pesar. Por enquanto, os números apontam na direção certa.
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