O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã já derrubou em 95% o trânsito de navios cargueiros pela passagem e colocou até US$ 6 bilhões em exportações brasileiras de carne na linha de fogo. Entre 1 e 21 de março, apenas 124 travessias de carga foram registradas no estreito, segundo a empresa de análise Kpler. Pra quem investe em frigoríficos ou acompanha o agro brasileiro, o cenário desta terça-feira (25) é de alerta máximo.
Desde que Estados Unidos e Israel lançaram a operação militar conjunta contra o Irã em 28 de fevereiro, Teerã passou a restringir o acesso à passagem marítima que conecta o Golfo Pérsico ao resto do mundo. O resultado: a maior disrupção logística no comércio global de proteínas em décadas, com impacto direto no bolso dos frigoríficos listados na B3.
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina halal, com cerca de US$ 5 bilhões anuais em proteínas certificadas vendidas para mais de 156 países. O Oriente Médio, sozinho, absorve aproximadamente 30% de todas as exportações brasileiras de frango, o equivalente a 1,5 milhão de toneladas. E boa parte dessas cargas passa, direta ou indiretamente, pelo Estreito de Ormuz.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) calcula que até 40% das exportações brasileiras de carne bovina estão expostas a impacto logístico pelo bloqueio. Não se trata apenas das vendas diretas pra região. Muitas cargas com destino à Ásia e ao subcontinente indiano também usam a rota via Ormuz como ponto de passagem.
Em 2025, as exportações diretas de carne bovina pro Oriente Médio somaram cerca de US$ 2 bilhões. Mas quando se considera todo o volume que transita por hubs logísticos regionais, o número potencialmente afetado salta pra US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões.
O impacto mais imediato pro setor é no custo logístico. Os armadores passaram a cobrar uma "taxa de guerra" de até US$ 4 mil por contêiner refrigerado, além de suspender novas reservas pra destinos na zona de conflito. O preço do combustível marítimo subiu cerca de 90% desde o início das hostilidades, e o custo de transporte de um barril de petróleo duplicou pra US$ 10.
Sem Ormuz, os navios precisam contornar a África pelo Cabo da Boa Esperança, o que adiciona até duas semanas ao tempo de viagem. Pra carne refrigerada, esse atraso não é só uma questão de custo. É uma questão de perecibilidade. Cada dia a mais no mar representa risco de perda de qualidade e, no limite, de carga inteira.
Os frigoríficos já relatam atrasos, cobranças de demurrage (multa por atraso na devolução de contêineres) e perda de margem. O cenário lembra o que aconteceu com a crise dos Houthis no Mar Vermelho em 2024, mas numa escala muito maior.
Na B3, o setor de proteínas já sente o peso do conflito. A Minerva Foods (BEEF3) é a mais vulnerável: cerca de 14% de suas receitas no quarto trimestre de 2025 vieram do Oriente Médio, e a empresa é a maior exportadora de carne bovina da América do Sul por volume. A ação acumula queda de 28% no ano, com um tombo de 10,7% só nas últimas semanas.
O diretor financeiro da Minerva já sinalizou que espera pressão de custos ao longo de 2026, citando aumento no preço da arroba, energia mais cara e fretes inflados pelo conflito. A combinação de virada do ciclo pecuário com crise logística global é uma tempestade perfeita pro balanço da companhia.
A MBRF (MBRF3), resultado da fusão entre Marfrig e BRF, também está no radar. A antiga BRF tinha cerca de 20% a 25% de sua receita vinda do Oriente Médio, com operações diretas em Dubai e distribuição na Arábia Saudita. As marcas Sadia e Perdigão são líderes em frango halal na região.
Já a JBS (JBSS3), por ser mais diversificada geograficamente (com operações nos EUA, Austrália e Europa), tende a sofrer menos com o bloqueio de Ormuz especificamente. Mas não escapa do aumento generalizado nos custos de frete e da volatilidade cambial provocada pelo petróleo acima de US$ 94 o barril.
O Ministério da Agricultura já anunciou medidas emergenciais pra tentar minimizar o estrago. Entre elas: extensão da validade de certificados sanitários, autorização pra realocar internamente cargas que não conseguiram ser exportadas, permissão pra alterar documentação e redirecionar exportações a novos destinos, e autorização de armazenamento temporário em contêineres refrigerados.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) confirmou que os envios que antes passavam por Ormuz e Suez estão sendo redirecionados pro Cabo da Boa Esperança. É mais caro e mais demorado, mas os exportadores argumentam que é comercialmente viável pra manter o Brasil como maior exportador de frango do mundo.
O problema é que essas soluções são paliativas. Enquanto o conflito durar, a incerteza logística vai continuar comprimindo margens e elevando custos pra toda a cadeia.
Além da logística, o conflito pressiona dois preços que afetam diretamente o agro brasileiro: petróleo e dólar. O Brent acumula alta de cerca de 30% desde o início das hostilidades, ultrapassando US$ 94 por barril. Isso encarece diesel, fertilizantes e todo o custo de produção agropecuária.
O dólar mais forte globalmente, por conta da aversão a risco, também muda a equação. Por um lado, receitas de exportação em reais ficam maiores. Por outro, insumos importados ficam mais caros e a volatilidade dificulta o planejamento financeiro das empresas. Na comunidade da Traders, os traders estão debatendo bastante se esse efeito câmbio compensa ou não as perdas logísticas pros frigoríficos.
Pra quem acompanha o Ibovespa e seu funcionamento, vale lembrar que JBS e MBRF têm peso relevante no índice. Movimentos bruscos nessas ações afetam o desempenho geral da bolsa.
Crises geopolíticas no Oriente Médio não são novidade pro agro brasileiro. Mas a escala desta é diferente. A guerra do Irã em 2026 já é descrita como a maior disrupção no fornecimento global de energia desde a crise dos anos 1970, segundo análises internacionais. E o impacto nas cadeias de proteínas animais é um desdobramento que poucas carteiras estavam precificando.
Historicamente, os maiores prejuízos em bolsa aconteceram quando investidores subestimaram riscos geopolíticos. O investidor que tem exposição a frigoríficos precisa monitorar três variáveis com atenção: a duração do bloqueio de Ormuz, a evolução do preço do petróleo e a capacidade das empresas de redirecionar vendas pra mercados alternativos.
Há também oportunidades no meio do caos. Empresas menores e mais ágeis, ou com menor dependência do Oriente Médio, podem ganhar espaço. Small caps do agro com foco no mercado doméstico ou em destinos como China e Sudeste Asiático podem se beneficiar do redirecionamento de fluxos.
Nesta terça-feira, o investidor brasileiro abre o pregão com os futuros americanos ainda digerindo a escalada do conflito. O petróleo opera firme acima de US$ 90 e os mercados asiáticos fecharam mistos, com pressão vendedora em setores ligados a commodities agrícolas.
Pro setor de frigoríficos na B3, a expectativa é de mais volatilidade. BEEF3 segue como o papel mais sensível ao risco geopolítico do Oriente Médio, enquanto JBSS3 pode funcionar como proteção relativa dentro do setor pela diversificação geográfica. O mercado vai ficar de olho em qualquer sinal de negociação diplomática que possa reabrir Ormuz, mesmo que parcialmente.
O fato concreto é que o Brasil construiu uma posição dominante no mercado global de proteínas halal ao longo de décadas. Essa posição agora enfrenta seu maior teste logístico. A capacidade dos frigoríficos de adaptar rotas, renegociar contratos e diversificar destinos vai separar quem atravessa a crise com o balanço intacto de quem sai machucado.
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