
O Banco Central cortou a Selic pela primeira vez em quase dois anos, de 15% para 14,75% ao ano. Mas a ata da reunião do Copom, divulgada nesta terça-feira (24), deixou claro que o caminho daqui pra frente é tudo, menos previsível. O colegiado afirmou que os próximos passos da política monetária podem mudar conforme o desenrolar da guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Na prática, o BC fez o corte de 0,25 ponto percentual que o mercado esperava, mas avisou que não dá pra contar com uma sequência garantida de reduções. A magnitude e a duração do ciclo de cortes serão "determinadas ao longo do tempo", segundo o documento. Traduzindo: cada reunião será uma decisão nova, baseada no que estiver acontecendo no mundo naquele momento.
O ponto central da ata é a incerteza geopolítica. O Copom reconheceu que o conflito no Oriente Médio elevou significativamente os riscos para a inflação no curto prazo, principalmente pelo canal do petróleo. O Brent, que chegou a cair mais de 10% na segunda-feira após Trump sinalizar uma pausa de cinco dias nos ataques à infraestrutura energética iraniana, voltou a subir forte nesta terça: fechou em torno de US$ 103,67 por barril, alta de 3,77%.
A volatilidade do petróleo resume bem o dilema do BC. Num dia, o barril despenca com rumores de desescalada. No outro, dispara porque as conversas entre EUA e Irã não avançaram o suficiente. Com o petróleo acumulando alta de cerca de 50% desde o início do conflito, projetar inflação virou exercício de adivinhação.
Nas projeções oficiais do Copom, o IPCA deve fechar 2026 em 3,9%, acima do centro da meta de 3%. Os preços livres estão projetados em 3,7% e os administrados em 4,3%. Já o mercado, pelo Boletim Focus, está ainda mais pessimista: IPCA de 4,17% para 2026. A diferença entre a projeção do BC e a do mercado mostra que os investidores acham que o Copom pode estar subestimando o impacto da guerra.
O Copom usou uma expressão que chamou atenção: a conjuntura atual exige "perseverança, firmeza e serenidade" na condução da política monetária. O trio de palavras não é casual. "Firmeza" indica que o BC não vai se deixar pressionar por quem pede cortes mais agressivos. "Serenidade" sugere que decisões precipitadas estão fora do cardápio. E "perseverança" reforça que o processo vai ser lento.
Outro detalhe relevante: o Copom retirou o cenário alternativo de inflação que costumava apresentar nos comunicados anteriores. Isso pode parecer técnico demais, mas tem significado prático. Sem cenário alternativo, o mercado perde uma referência importante pra calibrar expectativas. É mais um sinal de que o BC não quer se comprometer com nada além do curtíssimo prazo.
Para o câmbio, o cenário de referência parte de R$ 5,20 evoluindo conforme a paridade do poder de compra. E sobre o petróleo, o Copom trabalha com uma premissa de que os preços seguem a curva futura por seis meses e depois sobem 2% ao ano, resultando numa trajetória decrescente no segundo semestre. Ou seja, o BC aposta que o pior do petróleo fica concentrado no primeiro semestre.
Nos mercados, o dia trouxe um cenário de descola entre Brasil e Estados Unidos. O Ibovespa fechou em alta de 0,32%, aos 182.509 pontos, enquanto Wall Street operou no vermelho. O S&P 500 caiu 0,37% (6.556 pontos), o Dow Jones recuou 0,18% (46.124 pontos) e o Nasdaq cedeu 0,84% (21.761 pontos).
O motor do Ibovespa foi a Petrobras. Com o petróleo de volta acima dos US$ 100, PETR4 subiu 2,69% (R$ 47,27) e PETR3 avançou 2,51% (R$ 51,95). Como a Petrobras tem peso relevante no índice, o avanço da estatal compensou a pressão vendedora que veio do exterior e dos bancos.
O dólar comercial fechou em leve alta de 0,28%, cotado a R$ 5,2533. A moeda americana refletiu a aversão ao risco global, mas sem grandes sobressaltos. A leitura é que o corte na Selic já estava precificado e a ata não trouxe surpresas negativas suficientes pra pressionar o câmbio de forma relevante.
A curva de juros reagiu de forma mista à ata. Os contratos mais curtos ficaram relativamente estáveis, refletindo a expectativa de que o próximo corte, se vier, será novamente de 0,25 ponto. Já os vértices mais longos subiram levemente, indicando que o mercado vê espaço limitado para o ciclo total de redução da Selic.
A grande questão é: até onde os juros vão cair? O Copom não deu nenhuma pista sobre o "orçamento total" de cortes. Não disse se pretende levar a Selic a 13%, 12% ou parar antes. Com petróleo acima de US$ 100, IPCA projetado em quase 4% e guerra sem previsão de fim, a margem de manobra é apertada. Quem entender sobre como funciona o Copom sabe que decisões assim dependem de um equilíbrio delicado entre dados e expectativas.
Nas últimas semanas, o conflito entre EUA, Israel e Irã se tornou o principal driver dos mercados globais. O fechamento parcial do Estreito de Ormuz reduziu drasticamente a produção de petróleo na região, e cada sinal de escalada ou desescalada move bilhões de dólares em questão de horas.
Na segunda-feira, Trump sinalizou uma pausa de cinco dias nos ataques à infraestrutura energética iraniana após "conversas construtivas" com o Irã. O Brent despencou mais de 10%, caindo pra perto de US$ 98. Mas na terça, a incerteza voltou. Sem confirmação de avanço real nas negociações, o barril retomou os US$ 103.
Esse vaivém é exatamente o que preocupa o Copom. Se o petróleo se estabilizar na faixa dos US$ 90 a US$ 100 no segundo semestre, como o BC projeta, a inflação fica administrável e os cortes podem continuar. Mas se o conflito escalar e o barril for pra US$ 120 ou mais, toda a trajetória de queda da Selic fica comprometida.
O próximo encontro do Copom está marcado para maio. Até lá, o mercado vai monitorar três variáveis principais: a evolução do conflito no Oriente Médio, os dados de inflação de março e abril, e o comportamento do câmbio.
Se o cenário se mantiver como está, com petróleo entre US$ 95 e US$ 105 e dólar na casa dos R$ 5,20 a R$ 5,30, a expectativa é de mais um corte de 0,25 ponto, levando a Selic a 14,50%. Mas qualquer escalada significativa na guerra pode mudar esse cenário de um dia pro outro.
Na comunidade da Traders, os traders estão divididos. Parte acredita que o ciclo de cortes vai ser mais curto do que o mercado precifica, justamente por causa da guerra. Outra parte argumenta que a atividade econômica brasileira já dá sinais de desaceleração, o que por si só justificaria cortes mais agressivos.
A verdade é que o Copom deixou a porta aberta pra qualquer direção. E com uma guerra em andamento, mudanças nas regras de IR em 2026 e uma economia global instável, flexibilidade é provavelmente a melhor estratégia possível. O investidor que está posicionado em renda fixa ainda tem um colchão confortável com Selic a 14,75%. Quem está na bolsa precisa acompanhar o petróleo como se fosse o placar de um jogo decisivo.
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