
A Sabesp (SBSP3) entregou um dos balanços mais robustos da temporada de resultados e está dando o que falar na Bolsa. No quarto trimestre de 2025, último período divulgado pela companhia, o lucro líquido reportado foi de R$ 2,68 bilhões, alta de 87,1% na comparação anual. Em base ajustada, que tira efeitos não recorrentes da conta, o lucro ficou em R$ 1,9 bilhão, praticamente estável frente ao 4T24, mas bem acima da estimativa de R$ 1,3 bilhão que o BTG Pactual projetava.
O número já era um sinal claro de que a tese pós-privatização tá se materializando. E nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, a ação passou a ser negociada ex-desdobramento na proporção de 1 para 5, aprovado em assembleia no dia 28. Quem tinha 1 ação por R$ 160 agora tem 5 papéis na faixa de R$ 33 cada. O preço unitário caiu, o tamanho da posição não muda, mas a liquidez tende a aumentar.
A receita líquida reportada veio em R$ 11,28 bilhões, alta de 44% na base anual. Mas é importante separar o joio do trigo: a receita operacional líquida ajustada de serviços de saneamento, que é o que mede o negócio recorrente, fechou em R$ 5,68 bilhões, com avanço mais modesto de 2,1% YoY. A diferença entre os dois números reflete efeitos contábeis e não recorrentes vinculados ao novo contrato regulatório pós-privatização.
O EBITDA ajustado ficou em R$ 3,39 bilhões, alta de 13% na comparação com o 4T24. A margem EBITDA ajustada chegou a 59,6%, patamar de elite no setor de saneamento. Pra efeito de comparação, no consolidado de 2025 o EBITDA somou R$ 13,2 bilhões, com margem de 59,5% e lucro líquido anual de R$ 8,5 bilhões.
O destaque do trimestre foi a queda de cerca de 10% nas despesas operacionais. Isso é o reflexo direto da reestruturação que a companhia tocou desde a privatização: corte de custos, renegociação de contratos com terceirizados, otimização de quadro e mais foco em produtividade. Não é um trimestre isolado de boa execução. É um padrão que vem se repetindo desde o 1T25.
O outro vetor positivo foi operacional puro: o volume faturado cresceu cerca de 3% a 4% no trimestre. Mais água tratada e mais esgoto coletado significam mais receita sem precisar mexer em tarifa. Somado a isso, a Sabesp retirou descontos comerciais que vinha concedendo a grandes clientes, o que adicionou cerca de R$ 138 milhões ao top line.
O mercado recebeu o balanço com entusiasmo. Desde a divulgação do 4T25 em março, SBSP3 acumula valorização consistente, ancorada em três fatores: entrega operacional acima do esperado, visibilidade do plano de investimentos contratado com o regulador, e a expectativa de que os ganhos de eficiência ainda têm fôlego pra continuar.
O desdobramento de 1 para 5 aprovado pelos acionistas em 28 de abril de 2026 entra justamente nesse momento. A operação não muda o valor de mercado da empresa nem o capital social: cada acionista que tinha 1 ação passa a ter 5, e a cotação se ajusta proporcionalmente. Antes do split, o papel era negociado acima de R$ 160. Após o ajuste, abriu o pregão de 29 de abril próximo de R$ 33,30, com mínima de R$ 33,22 e máxima de R$ 33,89 no dia.
O objetivo do split é claro: aumentar a liquidez do papel e atrair mais investidor pessoa física. Ação cara, em valor unitário, costuma assustar quem tá começando. Com o papel na faixa dos R$ 33, fica mais fácil compor uma carteira com quantidades redondas. Os novos papéis serão creditados em 30 de abril e a posição reflete em 4 de maio.
O setor de saneamento brasileiro vive um momento ímpar. O Marco Legal de 2020 obrigou as concessionárias a universalizarem o atendimento até 2033, o que destravou um ciclo de investimentos pesado e atraiu capital privado. A Sabesp foi a maior privatização desse ciclo e virou case-teste pra como uma estatal pode entregar valor depois que o controle muda.
O modelo de remuneração do setor é regulado, mas tem componente de eficiência: empresa que entrega abaixo do custo regulatório fica com a diferença. Foi exatamente o que a Sabesp começou a fazer. Cortou despesas, ganhou volume e melhorou margem ao mesmo tempo. É uma equação difícil de combinar e raramente acontece em utilities.
Pra quem compara com outras opções de renda variável, vale lembrar que a tese de saneamento não é de explosão de receita: é de previsibilidade, geração de caixa estável e dividendos com tendência crescente. É o oposto de uma tese de tecnologia na bolsa, que joga com crescimento agressivo e múltiplos altos. Saneamento é o tipo de ativo que cabe na parte mais defensiva da carteira.
O resultado do 1T26 ainda não foi divulgado e deve sair na primeira quinzena de maio de 2026. Os analistas que cobrem o nome esperam continuidade do padrão visto no 4T25: margens elevadas, despesas controladas e volume estável.
Os pontos de atenção pra esse balanço:
Capex: a companhia tem plano de investimentos pesado pra cumprir as metas regulatórias. Se o ritmo de execução acelerar, pode pressionar caixa no curto prazo, mas é leitura positiva no médio.
Tarifas: o reajuste tarifário anual costuma ocorrer em maio e impacta os trimestres seguintes. O índice aprovado pela Arsesp será catalisador relevante.
Endividamento: a alavancagem da Sabesp segue confortável, mas o aumento de capex pode mexer no indicador. Vale acompanhar a relação dívida líquida/EBITDA.
Dividendos: a empresa anunciou provento junto com o balanço do 4T25 e a expectativa do mercado é que a política de distribuição continue sustentada pelo resultado robusto. Pra quem gosta do tema, vale o paralelo com a discussão sobre se renda fixa ainda compensa com Selic alta.
Essa é a pergunta que tá no ar. Não dá pra responder em 280 caracteres, mas alguns pontos ajudam a montar o quadro. A Sabesp tá entregando o que prometeu na privatização: corte de custos, ganho de margem e disciplina de capital. O múltiplo, depois da forte alta acumulada nos últimos doze meses, já incorpora boa parte dessa tese, então o investidor que entrar agora paga um pouco mais caro do que pagava em 2024.
Por outro lado, ainda há gordura pra queimar em eficiência operacional, o ciclo de investimentos contratado vai exigir aumento de tarifa real ao longo dos próximos anos, e o setor inteiro segue subexplorado em geração de valor. Pra quem busca diversificação setorial, é um nome que dialoga bem com posições mais cíclicas, como uma alocação em mineração via Vale (VALE3).
O que o investidor não pode perder de vista é que utilities reguladas se valorizam por previsibilidade, não por surpresa. O lucro bilionário do 4T25 não é exceção: é o novo padrão que a companhia se propôs a sustentar. Se entrega esse padrão nos próximos trimestres, a tese se confirma. Se desvia, é a hora de revisitar.
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