
Se você tem Tesouro IPCA+ ou Tesouro Prefixado na carteira e não olhou o extrato nos últimos dias, talvez seja hora de dar uma espiada. O corte da Selic pra 14,75% ao ano, confirmado pelo Copom na semana passada, combinado com a maior operação de recompra de títulos pelo Tesouro Nacional em mais de uma década, está mexendo nos preços dos papéis. E quem comprou na alta das taxas pode estar sentado em cima de um lucro que não esperava.
Nesta terça-feira (24), o mercado digere a ata do Copom, que trouxe um tom de cautela e serenidade diante do cenário de incerteza global. O Ibovespa opera abaixo dos 181 mil pontos, o dólar sobe pra R$ 5,26 e o petróleo voltou a flertar com os US$ 100 por barril com as tensões entre EUA, Israel e Irã. Mas, enquanto a bolsa patina, a renda fixa vive um momento peculiar.
Pra entender o que tá rolando, precisa voltar uns dias. No início de março, as taxas dos títulos públicos dispararam. O Tesouro IPCA+ abriu em média 46 pontos-base entre os dias 2 e 13 do mês, com os vencimentos intermediários (2028 a 2035) chegando a abrir 63 pontos-base. Traduzindo: quem já tinha esses papéis viu o preço deles cair na marcação a mercado. Foi um banho de sangue silencioso nas carteiras de renda fixa.
Aí o Tesouro Nacional entrou pesado. Em dois dias, recomprou R$ 43,6 bilhões em títulos prefixados e NTN-Bs. Só na terça-feira (17), foram R$ 9,05 bilhões em LTNs e NTN-Fs. Em termos nominais, essa operação superou até as recompras feitas durante a pandemia, quando o Tesouro movimentou R$ 35,56 bilhões ao longo de 15 dias.
A lógica é simples: quando o Tesouro entra comprando, ele cria demanda. Demanda sobe, preço sobe, taxa cai. E foi exatamente isso que aconteceu. Os juros futuros recuaram, e os títulos que tinham desvalorizado passaram a recuperar terreno.
Se você comprou um Tesouro IPCA+ 2035 pagando IPCA + 7,8% há algumas semanas, e agora a taxa de mercado pra esse mesmo título recuou pra IPCA + 7,5%, o seu papel vale mais do que você pagou. Isso é a marcação a mercado funcionando a seu favor.
O mecanismo é o inverso do que muita gente imagina. Quando as taxas sobem, o preço do título cai (e quem vende antes do vencimento toma prejuízo). Quando as taxas caem, o preço sobe (e quem vende antes do vencimento pode lucrar). É contraintuitivo, mas é a regra número um do mercado de renda fixa.
Com o corte da Selic e as recompras do Tesouro pressionando as taxas pra baixo, quem tinha posição comprada em títulos longos viu o valor de mercado desses papéis melhorar. Não é um lucro realizado, claro. Só se concretiza se você vender. Mas é um sinal de que a maré pode estar virando pra quem segurou firme nos momentos de estresse.
A ata divulgada hoje confirmou que o corte de 0,25 ponto percentual foi a decisão mais prudente diante do cenário atual. O Banco Central destacou o "forte aumento da incerteza" provocado pelos conflitos no Oriente Médio, que elevaram o preço do petróleo e trouxeram receio de um repique inflacionário.
O tom foi claro: o BC quer manter juros restritivos por mais tempo. A porta pra novos cortes tá aberta, mas o ritmo vai depender da "profundidade e extensão" dos conflitos geopolíticos. Na prática, isso significa que o mercado não deve esperar uma sequência acelerada de cortes como aconteceu em ciclos anteriores.
O Relatório Focus mais recente projeta a Selic em 12,50% no fim de 2026 e o IPCA em 4,17%. Se essa trajetória se confirmar, os títulos longos de IPCA+ têm espaço pra valorizar bastante na marcação a mercado. Um estudo recente do Seu Dinheiro calculou que o Tesouro IPCA+ poderia render até 91% com a queda dos juros ao longo do ciclo completo.
Vamos colocar números concretos. Um Tesouro Prefixado 2032 oferecia cerca de 13,37% ao ano em meados de fevereiro. Se a taxa de mercado recuar pra 12% com os próximos cortes da Selic, o ganho de capital na marcação a mercado pode ser expressivo, principalmente nos vencimentos mais longos.
Já o Tesouro IPCA+ 2035, que chegou a pagar IPCA + 7,6%, carrega um prêmio histórico. Considerando uma inflação próxima de 4,5%, a rentabilidade total fica na casa de 12% ao ano. Se as taxas recuarem pro patamar de IPCA + 6% ou menos, a valorização do papel pode superar com folga a rentabilidade contratada. É o famoso "ganho duplo": rendimento do título mais valorização do preço.
Na comunidade da Traders, os investidores estão debatendo justamente esse cenário. Muitos que compraram IPCA+ nos picos de taxa, em dezembro e janeiro, agora veem suas posições no azul. A discussão gira em torno de um dilema clássico: realizar o lucro vendendo antes do vencimento ou segurar e surfar a queda completa da Selic?
Antes de sair comemorando, alguns alertas. O conflito no Oriente Médio é o grande fator de risco. O petróleo acima de US$ 100 pressiona a inflação global e pode forçar bancos centrais, incluindo o nosso, a pisarem no freio dos cortes de juros. Se a Selic parar de cair antes do esperado, as taxas dos títulos podem voltar a subir, e aquele ganho na marcação a mercado se desfaz.
Tem também a questão fiscal. As recompras de R$ 43,6 bilhões foram necessárias pra conter o pânico, mas não são uma solução permanente. Se o mercado voltar a questionar a trajetória da dívida pública, as taxas sobem de novo. O próprio Tesouro Nacional reduziu o pânico, mas reconheceu que as taxas devem continuar elevadas no curto prazo.
E existe o risco de olhar só pro preço e esquecer o básico. A marcação a mercado só importa pra quem pretende vender antes do vencimento. Se o seu plano sempre foi levar o Tesouro IPCA+ até o final, a oscilação de preço no meio do caminho é só ruído. Você vai receber exatamente o que foi contratado.
O mercado agora aguarda dois dados que podem definir o humor das próximas semanas: o IPCA-15, prévia oficial da inflação, e o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do Banco Central. Se a inflação vier comportada, reforça a tese de mais cortes na Selic e joga a favor da valorização dos títulos. Se vier acima do esperado, o cenário complica.
Outro ponto de atenção é a postura do Fed nos Estados Unidos. A economia americana desacelera, mas o petróleo alto dificulta cortes de juros por lá. Se o Fed mantiver a taxa inalterada por mais tempo, o diferencial de juros entre Brasil e EUA fica menos atrativo, o que pode pressionar o dólar e, por tabela, os juros brasileiros.
Pra quem tá pensando em entrar agora, a grande pergunta é: as taxas atuais ainda são atrativas? Com o Tesouro IPCA+ pagando em torno de IPCA + 7,5% e o Prefixado na casa dos 13%, os prêmios seguem historicamente elevados. Mesmo que não voltem a subir, carregar esses títulos até o vencimento já garante uma rentabilidade robusta. Se as taxas caírem, o bônus da marcação a mercado vem de brinde.
O momento exige cautela, como o próprio Banco Central fez questão de reforçar na ata. Mas pra quem já tinha posição, a combinação de corte da Selic com a recompra bilionária do Tesouro trouxe um alívio bem-vindo. A renda fixa, por mais contraditório que pareça, está dando emoção em 2026.
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