
O Banco do Brasil (BBAS3) reportou lucro líquido ajustado de R$ 5,74 bilhões no 4T25, uma queda de 40,1% em relação ao mesmo trimestre de 2024. Parece ruim, né? Mas o número veio bem acima do que o mercado esperava. O consenso Bloomberg apontava pra algo em torno de R$ 4,02 bilhões. O lucro por ação ficou em R$ 1,00, contra R$ 0,79 das projeções. Ou seja: o BB apanhou, mas apanhou menos do que a turma achava.
Na comparação trimestral, o resultado foi ainda mais expressivo. O lucro do 4T25 superou o do 3T25 em 51,7%, sinalizando que o pior pode ter ficado pra trás. A receita do trimestre atingiu R$ 40,27 bilhões, também acima das estimativas de R$ 39,29 bilhões.
No acumulado do ano, o lucro líquido ajustado do Banco do Brasil somou R$ 20,7 bilhões. É muito dinheiro, claro. Mas quando você compara com os R$ 37,9 bilhões de 2024, a queda é brutal: 45,4%. O ROE (retorno sobre patrimônio líquido) caiu de 21,4% em 2024 pra 11,4% em 2025. Pra um banco do porte do BB, é um tombo que chama atenção.
No trimestre isolado, o ROE ficou em 12,4%. Caiu 8,4 pontos percentuais na comparação anual, mas subiu 4 pontos contra o 3T25. É aquela história: o fundo do poço pode ter sido no terceiro trimestre.
A margem financeira bruta do 4T25 totalizou R$ 27,8 bilhões, com alta de 5,4% contra o trimestre anterior e 3,8% na comparação anual. A margem com clientes avançou 17,5% no ano, chegando a R$ 24,4 bilhões. No acumulado de 2025, a margem financeira bruta bateu R$ 103,1 bilhões.
Até aqui, tudo bonito. O problema tá do outro lado da equação.
As provisões pra créditos duvidosos (PCLD) saltaram 86,9% no comparativo anual. O custo do crédito atingiu R$ 61,9 bilhões em 2025, com R$ 19 bilhões só em perdas esperadas no quarto trimestre. É um volume pesado que comeu boa parte da geração de receita do banco.
Se você quer entender por que o lucro do Banco do Brasil despencou, a resposta tá em três palavras: carteira de crédito rural.
Segundo a própria administração do BB, o agronegócio foi o grande responsável pela pressão nos resultados. A carteira rural representou 56% do risco de crédito total no 4T25. A inadimplência no agro chegou a 6,09%, com avanço de 125 pontos-base só no trimestre.
Pra contextualizar: a inadimplência geral do banco acima de 90 dias fechou dezembro em 5,17%, alta de 66 pontos-base contra setembro. É um nível elevado pra um banco que historicamente mantinha taxas de inadimplência abaixo de 3%.
O cenário do agronegócio brasileiro em 2025 foi marcado por quebras de safra em algumas regiões, queda nos preços de commodities agrícolas e produtores que esticaram demais o endividamento nos anos anteriores. Como o BB é o maior financiador do agro no Brasil, ele acabou concentrando o impacto.
As receitas com prestação de serviços caíram 3,9% no trimestre, encerrando em R$ 8,8 bilhões. No ano completo, foram R$ 34,8 bilhões, puxados por administração de fundos, consórcios e operações de mercado.
Do lado dos custos, as despesas administrativas avançaram 4,1% na comparação anual, somando R$ 9,8 bilhões no 4T25. A pressão veio de reajustes salariais, investimentos em tecnologia e segurança digital. É o tipo de gasto que não dá pra cortar sem comprometer a operação, mas que aperta a margem quando a receita não cresce no mesmo ritmo.
A carteira de crédito expandida do BB atingiu R$ 1,3 trilhão, com crescimento de 2,5% em 12 meses e 1,4% no trimestre. Pra um banco estatal com a base de clientes do BB, o crescimento foi modesto. Mas dado o cenário de Selic alta e aperto monetário, o ritmo faz sentido.
O banco optou por pisar no freio justamente nas linhas que mais deram dor de cabeça. No guidance pra 2026, a projeção é de variação entre -2% e +2% na carteira agro e entre -3% e +1% pra empresas. Já pra pessoas físicas, a expectativa é mais otimista: crescimento de 6% a 10%.
Quem acompanha o P/L (Preço/Lucro) do BBAS3 sabe que o banco vinha negociando a múltiplos historicamente baixos. Com a sinalização de recuperação no 4T25, parte do mercado começou a revisitar as projeções.
No dia da divulgação, as ações do BBAS3 subiram 3,97%, fechando a R$ 24,91. O mercado gostou da surpresa positiva no lucro e, principalmente, da sinalização de que o 3T25 foi o ponto mais baixo do ciclo.
Ainda assim, analistas mantêm cautela. A tese é simples: o lucro bateu expectativas, mas as expectativas já estavam lá embaixo. A inadimplência do agro segue elevada e o BB precisa provar que consegue navegar a safra 2025/2026 sem novos sustos.
Pra quem quer entender melhor como avaliar o Lucro por Ação (LPA) do banco, vale olhar a evolução trimestral e comparar com os pares privados.
O Banco do Brasil divulgou projeção de lucro entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões pra 2026. Se o topo da faixa for atingido, representaria crescimento de até 26% sobre 2025. O ROE projetado fica entre 11% e 13%, ainda distante dos patamares de 20%+ que o banco entregava até 2024.
O payout foi fixado em 30%, o que reforça uma postura conservadora com dividendos. Na prática, o dividend yield estimado pra 2026 fica entre 5,5% e 6%, com distribuição de algo entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões aos acionistas. Não é desprezível, mas é bem abaixo do que o mercado se acostumou a receber do BB nos anos anteriores.
A administração indicou que a recuperação deve ser mais concentrada no segundo semestre de 2026, conforme o ciclo de inadimplência do agro se normaliza e os efeitos das provisões elevadas começam a se dissipar.
Enquanto o BB sofreu com o agro, os bancos privados como Itaú, Bradesco e Santander tiveram um 2025 mais tranquilo. O Itaú, por exemplo, manteve ROE acima de 20% durante todo o ano, reforçando sua posição como referência de rentabilidade no setor.
A diferença fundamental é a exposição. O Banco do Brasil tem aproximadamente 30% da sua carteira de crédito no agronegócio. Os concorrentes privados ficam bem abaixo de 10%. Quando o agro vai bem, o BB colhe os frutos. Quando vai mal, como em 2025, ele paga a conta praticamente sozinho entre os grandes bancos.
Pra quem quer comparar a tributação de investimentos entre ações de bancos e outros ativos, é importante considerar que dividendos de BBAS3 são isentos de IR, o que melhora o retorno líquido.
Existem três pontos que vão definir se o BB consegue retomar a trajetória de crescimento:
Primeiro: a safra 2025/2026. Se os produtores rurais começarem a regularizar dívidas e a inadimplência do agro recuar, as provisões diminuem e o lucro sobe. O banco sinalizou que espera normalização gradual, mas a palavra-chave é "gradual".
Segundo: a trajetória da Selic. Com juros altos, o spread bancário tende a ser maior, o que favorece a margem. Mas juros altos também significam mais inadimplência. É uma faca de dois gumes, e o BB tá sentindo os dois lados.
Terceiro: o guidance de R$ 22 bi a R$ 26 bi. A faixa é larga, o que mostra que o próprio banco tem dúvida sobre como 2026 vai se desenrolar. Se o resultado ficar mais perto do piso, o mercado pode ficar frustrado de novo.
Pra quem tá analisando se vale a pena ter BBAS3 na carteira, a questão não é se o banco é ruim. Não é. É uma instituição com R$ 1,3 trilhão em crédito, liderança absoluta no agro e presença em todo o território nacional. A questão é se o preço atual já reflete os riscos. Com P/L abaixo de 5x e dividend yield acima de 5%, o valuation parece descontado. Mas desconto sem catalisador de curto prazo é só armadilha de valor.
Os números do 4T25 trouxeram um alívio. Não uma virada, mas uma estabilização. Se o Banco do Brasil confirmar a recuperação no 1T26, a narrativa muda. Até lá, o mercado vai cobrar resultado trimestre a trimestre, sem dar margem pra promessas. Quem acompanha o setor financeiro pode usar plataformas de trading pra monitorar os múltiplos e a evolução da ação em tempo real.
Aviso Legal
O conteúdo publicado neste artigo pela TC S.A. e pela Traders DTVM S.A. tem caráter exclusivamente informativo e educacional, não constituindo, sob nenhuma hipótese, recomendação de investimento, oferta, solicitação ou aconselhamento para compra ou venda de valores mobiliários, ativos financeiros ou qualquer outro instrumento de investimento.
As informações, dados, análises e opiniões aqui apresentados foram obtidos de fontes consideradas confiáveis na data de publicação. No entanto, a TC S.A. e a Traders DTVM S.A. não garantem sua exatidão, completude, atualidade ou adequação a qualquer finalidade específica, e não se responsabilizam por eventuais imprecisões, erros, omissões ou desatualizações, tampouco por decisões tomadas com base nas informações contidas neste material.
Investimentos em renda variável envolvem riscos e podem resultar em perdas patrimoniais significativas, incluindo a perda total do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. O desempenho de ativos, estratégias ou mercados mencionados pode diferir materialmente das projeções ou expectativas aqui descritas.
Cada investidor é responsável por avaliar os riscos e por tomar suas próprias decisões de investimento, considerando seu perfil de risco, objetivos financeiros e situação patrimonial individual. Recomenda-se consultar um profissional de investimentos devidamente habilitado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) antes de tomar qualquer decisão.
A reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização expressa da TC S.A. é vedada.